Após renúncia de Evo, Bolívia vive vácuo de poder

Todos da linha sucessória entregaram seus cargos

Bolivianos celebram renúncia de Evo Morales em La Paz
Bolivianos celebram renúncia de Evo Morales em La Paz (foto: EPA)
11:26, 11 NovLA PAZ ZLR

(ANSA) - Após a renúncia do presidente Evo Morales, a Bolívia amanheceu nesta segunda-feira (11) com um vácuo de poder e em uma situação de crescente incerteza.

A Constituição Política estabelece que, "em caso de impedimento ou ausência definitiva" do chefe de Estado, a função será exercida pelo vice-presidente", Álvaro García, que também entregou o cargo.

Os dois seguintes na linha sucessória seriam os mandatários do Senado, Adriana Salvatierra, e da Câmara, Victor Borda, porém ambos se juntaram a Morales e renunciaram a seus postos.

O Parlamento deve se reunir nesta segunda-feira (11) para formalizar a renúncia do presidente do país e discutir a sucessão provisória. O Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Morales, detém cerca de dois terços da assembleia.

"Em último caso, serão convocadas novas eleições no prazo máximo de 90 dias", diz a Constituição boliviana. Não se sabe, no entanto, quem conduzirá esse processo, uma vez que o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) é acusado de fraude no pleito presidencial de 20 de outubro, que, após uma apuração conturbada, havia determinado a vitória de Morales em primeiro turno sobre o opositor Carlos Mesa.

A polícia prendeu a ex-presidente do TSE María Eugenia Choque e seu ex-vice Antonio Costa, que foram apresentados em uma coletiva de imprensa algemados e aos empurrões.

Crise

Morales renunciou após ter sido pressionado publicamente pelo comando das Forças Armadas e da Polícia e até por sindicatos próximos ao governo. Horas antes, ele havia convocado uma nova eleição presidencial por conta das irregularidades na apuração detectadas pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

A vitória de Morales em primeiro turno deflagrou uma onda de protestos em algumas das principais cidades da Bolívia, encabeçados por Mesa e pelo fundamentalista católico Fernando Camacho. "Não quero mais ver famílias maltratadas por ordem de Mesa e Camacho", disse Morales em seu discurso de renúncia. "Ser indígena e de esquerda anti-imperialista é nosso pecado", acrescentou.

Enquanto isso, militantes do MAS e a oposição trocam acusações de repressão, saques e outros atos de violência. Camacho, por sua vez, prometeu processar o presidente, seu vice e os ministros do governo.

"Todos eles tomaram parte na morte de nosso povo. Não é ódio nem ressentimento, se chama justiça divina", disse o opositor na noite deste domingo (10). Cerca de 20 integrantes dos poderes Executivo e Legislativo dormiram na embaixada do México em La Paz, que também pode oferecer asilo político a Morales.

"Mesa e Camacho, discriminadores e conspiradores, entrarão para a história como racistas e golpistas. Que assumam sua responsabilidade de pacificar o país e garantam a estabilidade política e a convivência pacífica de nosso povo", atacou Morales em uma mensagem publicada no Twitter nesta segunda.

Reações

Em meio à crise na Bolívia, o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse estar "profundamente preocupado" e pediu "máxima moderação" para as partes envolvidas.

Em um comunicado, o português acrescentou que todos devem se empenhar para "garantir eleições transparentes". Já a Rússia chamou o processo que levou à renúncia de Morales de "golpe de Estado".

"Estamos profundamente preocupados com o fato de que a disponibilidade do governo em buscar soluções construtivas por meio do diálogo tenha sido superada por um modelo de golpe de Estado organizado", afirmou o Ministério das Relações Exteriores de Moscou.

A União Europeia, por sua vez, pediu "moderação e responsabilidade" e que as partes envolvidas "conduzam o país a eleições de modo pacífico". (ANSA)

Todos los Derechos Reservados. © Copyright ANSA