Perfil: Ativista Cleve Jones elabora quilt contra Aids

Cleve Jones idealizou maior projeto de arte comunitária do mundo

Quilt é exibido em Washington (foto: National Institutes of Health)
15:02, 28 JanSÃO PAULO Por Sarah Germano

(ANSA) - Quando, em 1985, o ativista Cleve Jones teve a idéia de fazer um quilt (uma colcha de retalhos) para lembrar amigos mortos em decorrência da AIDS, uma doença que na época ainda representava uma sentença de morte, ele ouviu que esta era "a idéia mais estúpida do mundo". Cerca de 26 anos depois, no entanto, o projeto é a maior peça de artesanato comunitário do mundo.
    "Por isso, não escutem quando tirarem sarro de uma idéia que você sabe no seu coração que pode dar certo", diz, em entrevista à ANSA, rindo.
    Seu primeiro quilt, uma espécie de colcha de retalhos, uma tradição norte-americana que o lembrava de suas avós e bisavós, foi feito em memória de Marvin Feldman. "Ele era meu melhor amigo, um ator de Rhode Island, uma das primeiras vítimas da Aids, eu sinto falta dele todos os dias", diz emocionado.
    Nascido em 1954, em Indiana, Jones morou em diversos lugares antes de se mudar em 1973 para San Francisco, a "Meca Gay" onde os homossexuais podiam se expressar sem o risco de apanharem da polícia. Até o começo dos anos 2000, ser gay era crime em alguns estados norte-americanos. "Eu me apaixonei pela cidade", disse.
    Um ano mais tarde ele conheceu Harvey Milk, o primeiro político abertamente gay eleito nos Estados Unidos, que deu origem ao filme "Milk", de Gus Van Sant - de quem Jones é amigo e com quem já chegou a dividir um apartamento. Jones é retratado na película pelo ator Emile Hirsch.
    "Harvey me encorajou a voltar a estudar, me colocou no mundo da política", disse o ativista que foi seu estagiário na Prefeitura de San Francisco até seu assassinato, em 1978.
    Após o susto, Jones continuou trabalhando com política, sendo que, no começo da pandemia de Aids, que levou muitos de seus amigos no começo dos anos 1980, ele trabalhava com políticas públicas relacionadas com Saúde no governo da Califórnia.
    "Naquela época, o governo não estava fazendo nada, [Ronald] Reagan era presidente e ele se recusava a falar de Aids enquanto as pessoas estavam morrendo".
    "Eu posso não saber de saúde, não ser um médico, mas uma coisa eu sei, que é protestar" e foi o que ele fez, criando a AIDS Foundation, uma das mais antigas e maiores organizações que promovem apoio a pessoas contaminadas pela doença.
    Anos mais tarde, em 1985, enquanto organizava a vigília anual que relembra a data da morte de Milk, ele teve a idéia de relembrar amigos mortos pela epidemia. Diante da falta de ação do governo, ele queria que a população lembrasse que as mortes não representavam apenas números, mas vidas de pessoas que morreram.
    O bairro de Castro, em San Francisco, que anos antes era palco da liberação sexual, local de tanta felicidade da comunidade gay, agora vivia em luto constante. Centenas de amigos de Jones morreram nessa época. A região foi devastada pela doença. "Não havia ninguém que não tivesse perdido um amigo querido".
    Além de chamar atenção do governo sobre as mortes ligadas à Aids, Jones ainda acredita que o quilt teve uma função terapêutica. De acordo com ele, aqueles que se propuseram a relembrar seus queridos por meio do artesanato, também puderam fazer o luto enquanto costuravam.
    A peça, também conhecida como "The Names Project" ("Projeto dos Nomes", em livre tradução do inglês) atualmente é formada por mais de 48 mil quilts, com os nomes de mais 94 mil pessoas.
    Calcula-se que o peso da peça seja de 54 toneladas. Em 2012, o quilt foi estendido na frente em Washington, cobrindo o gramado entre o Capitólio e o monumento a Abraham Lincoln.
    A conversa muda de rumo quando Jones fala de sua vontade de conhecer o Brasil. "Pode escrever que eu quero muito conhecer o Brasil. Adoro sua música, sua comida e acho os brasileiros lindos", diz rindo. "Por favor, me levem para o Brasil, antes que eu seja muito velho". (ANSA)

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