20 anos após genocídio, tensão segue alta em Ruanda

Famoso por filme, Paul Rusesabagina acusa nova matança

Paul Rusesabagina foi interpretado por Don Cheadle no filme "Hotel Ruanda" (foto: Reprodução/Facebook)
20:16, 10 AbrSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - Desde o último dia 7 de abril, Ruanda tem sido palco de uma série de eventos para recordar o genocídio que há exatos 20 anos deixou entre 800 mil e 1 milhão de mortos no país. O presidente Paul Kagame, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, representantes estrangeiros e sobreviventes do massacre se uniram em torno de uma mensagem de paz e esperança pelo futuro dessa pequena nação africana. Mas para um dos personagens mais emblemáticos de um dos mais cruéis derramamentos de sangue da história, há muito pouco o que comemorar.
    Em 1994, Paul Rusesabagina salvou cerca de 1,2 mil pessoas da morte ao refugiá-las no hotel de propriedade belga que ele gerenciava na capital do país, Kigali. Sua história foi parar no cinema por meio do filme Hotel Ruanda, no qual é interpretado por Don Cheadle, e serviu de inspiração para a criação da ONG Hotel Rwanda Rusesabagina Foundation, que busca combater o genocídio no mundo, incluindo em sua terra natal.
    Segundo o ativista, as vítimas de ontem, os tutsis, hoje promovem uma perseguição sistemática contra seus antigos carrascos, os hutus, que formam a maioria esmagadora da população local. "Em Ruanda, nós mudamos apenas os dançarinos, mas a música continua a mesma. A canção de antes era matar, e hoje permanece sendo essa. Durante o genocídio, eram hutus matando tutsis, agora é o contrário", diz Rusesabagina, que atualmente vive com sua família na Bélgica.
    O ódio étnico em Ruanda vinha sendo insuflado desde que os belgas assumiram o controle do então protetorado alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Primeiro eles apoiaram a elite tutsi que comandava a região. Depois, na década de 1950, passaram a sustentar os oprimidos hutus, a quem ajudaram a tomar o controle do país e a implantar um sistema extremamente segregacionista contra seus rivais.
    Ao se retirar do território, em 1962, ano da independência ruandesa, a Bélgica deixou um caldeirão pronto para explodir a qualquer momento. Sob o comando do presidente-ditador Juvénal Habyarimana, no poder a partir de 1973, os hutus perseguiram os tutsis durante as décadas seguintes, promovendo matanças esporádicas ao longo do tempo. Até que, em 6 de abril de 1994, o avião do mandatário sofreu um atentado enquanto sobrevoava Kigali e o Poder Hutu, grupo radical que pregava o extermínio da outra etnia, tomou o seu lugar.
    A partir daí, o que se viu foi uma carnificina sem precedentes, sob o olhar conivente da comunidade internacional e a impotência das Nações Unidas. Para dizer o mínimo. A França, na época comandada por François Mitterrand, um admirador de Habyarimana, é acusada de ter financiado o genocídio ao fornecer armas para o Exército ruandês. O massacre só terminou em julho do mesmo ano, graças ao avanço da Frente Patriótica Ruandesa (FPR), guerrilha tutsi que tinha Kagame como um de seus líderes. O ex-combatente assumiu a Presidência em 2000, e desde então não deu o menor sinal de que um dia pretende deixar o cargo.
    Para Rusesabagina, ele tem grande responsabilidade pela perseguição e morte de hutus e dissidentes políticos nas últimas duas décadas. "Definitivamente, ele tem culpa. Não que esteja matando com as próprias mãos, mas as pessoas estão assassinando sob suas ordens", garante. Se o genocídio de 1994 deixou entre 800 mil e 1 milhão de mortos (deste total, 90% eram tutsis), dizimando cerca de 10% da população local, o ativista defende que o número de hutus mortos desde então pode chegar a pelo menos o dobro. "Se considerarmos os que fugiram e foram mortos na República Democrática do Congo [RDC], vai ser ainda maior." E assim como há 20 anos, o mundo parece fechar os olhos para os problemas do país. Embora tenha tido sua imagem no exterior um pouco manchada recentemente por conta de uma suposta participação na guerra civil da RDC, Kagame é tido como um "case de sucesso" na África pelo ocidente. Sob seu comando, a economia de Ruanda progrediu, a desigualdade social diminuiu, as mulheres ganharam espaço na política, entre outras conquistas.

 

Justiça

 

Instituído em novembro de 1994 pelas Nações Unidas, o Tribunal Internacional Criminal para Ruanda, sediado em Arusha, na Tanzânia, já condenou 47 pessoas pelo massacre. Juntas, suas sentenças totalizam mais de 700 anos de reclusão, isso sem contar as 13 penas de prisão perpétua aplicadas pela corte. Outros 14 acusados aguardam recurso e 14 réus foram absolvidos.
    Os 47 condenados estão espalhados por cadeias de diversos lugares do mundo, como Mali, Benin, Canadá e Reino Unido. Mas segundo Rusesabagina, a Justiça só olhou um lado da história. Em sua visão, o genocídio foi uma briga entre hutus e tutsis por poder. E, no final das contas, essa batalha teve um vencedor, que hoje dita as regras do jogo. "Os hutus foram condenados, mas alguns tutsis também cometeram crimes contra a humanidade, e eles estão livres. São juízes, generais, ministros", diz.
    Porém nada disso tira sua vontade de um dia voltar ao seu país, coisa de que mais sente falta na vida. Para os próximos 20 anos, seu desejo é ver Ruanda como uma democracia consolidada, com os dois grupos procurando resolver juntos os problemas da nação. Assim, todos poderão ser dançarinos de uma mesma música, mas que desta vez leve em seus versos palavras de paz e união. (ANSA)

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