Médico israelense conta como cuida de palestinos feridos

Em Jerusalém, Avi Rivkind não faz distinção entre pacientes

O médico israelense Avi Rivkind
O médico israelense Avi Rivkind (foto: Divulgação/Hadassah)
13:42, 05 SetSÃO PAULO Por Sarah Germano

(ANSA) - Diversos pacientes notáveis passaram pelas mãos do médico israelense Avraham "Avi" Rivkind, de 65 anos. De guerrilheiros do Hamas a líderes políticos, como Ariel Sharon. Caso fosse ferido durante sua viagem ao Oriente Médio, até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, seria tratado por ele.

    Isso, no entanto, parece não fazer diferença para Rivkind, diretor do departamento de cirurgia geral do hospital Hadassah, em Jerusalém. "São todos iguais. Presidente ou não, é o mesmo sangue", disse, em entrevista à ANSA em São Paulo.

    Dentro desta lógica, ele já tratou vítimas de terrorismo e membros do Hamas, sem fazer distinções. Ele afirma que se sensibiliza com o sofrimento dos palestinos na Faixa de Gaza e lembra com carinho dos anos em que cuidava de pacientes do lado de lá da fronteira.

     ANSA: Você trata as vítimas dos conflitos em Gaza?

    Rivkind: Não somente em Gaza. Mas também vítimas de terroristas. Nós tratamos todos.

    ANSA: Até mesmo pessoas do Hamas? Sim, se eles estão machucados. Sem nenhum problema.

    Nós nos importamos, nós realmente nos importamos. E ver pessoas em Gaza sofrendo... Se eu pudesse fazer algo que diminuísse esse sofrimento, eu faria. Se eles me pedissem para ir lá, para tratar seus pacientes, como nós fazíamos no passado, antes do Hamas tomar conta de Gaza, eu iria. Antigamente, íamos lá, pegávamos as crianças, levávamos para o Hadassah, era uma grande cooperação. Mas os líderes do Hamas decidiram usar o hospital como um lugar para disparar foguetes contra Israel.

    ANSA: Você já salvou alguém do Hamas?

     Uma vez o Hamas explodiu 18 ônibus em Jerusalém. Neste ataque morreram 58 pessoas, todos israelenses. Nós as tratamos. Porém, alguns anos depois, nossos soldados capturaram o homem que era responsável por estes ataques. Seu nome era Abu Hassan Salah [líder do grupo terrorista].

    Ele ficou na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) por sete ou dez dias. Depois ele foi julgado, detido e sentenciado à prisão perpétua. Durante o tempo que esteve no nosso hospital, foi tratado igual, como um paciente comum. Mas, claro, sob supervisão de guardas.

    Enquanto Salah estava internado, um dos diretores do Serviço de Segurança Geral, o serviço de Inteligência, conhecido como Shabak, chegou em um domingo para ser submetido a uma cirurgia eletiva. É claro que ele queria um quarto privativo, porque era um dos diretores do Shabak. Eu, porém, disse que era difícil evacuar as pessoas por causa dele. Mas eu dei um bom conselho para seus assessores: "Coloque-o junto com Salah. Já que estou vigiando um, podem vigiar o outro".

    ANSA: Eles fizeram isso?

    Não. Mas você entendeu o significado disso...É óbvio que nos importamos com todos, católicos, protestantes, japoneses. Nós não discriminamos ninguém. Eles vêm, têm tratamentos de primeira classe e vão embora.

    ANSA: Você ia operar o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, caso ele fosse ferido durante sua última viagem a Israel. Você teria o homem mais poderoso do mundo em suas mãos. Como você se sente?

    Primeiro, graças a Deus nada aconteceu com ele. Mas Obama seria mais um paciente. Eu também fui o médico pessoal do nosso último presidente, Ezer Weizman (1993-2000). Então, estou acostumado com essas autoridades. Eu tratei Ariel Sharon, quando teve problemas abdominais após ele ter os problemas no cérebro. Eu o operei também.

    No final do dia, todos são os mesmos. Não importa se ele é o presidente ou não. Acredite em mim, é o mesmo sangue, os mesmos problemas. Quem se importa? Um ser humano é um ser humano e eu acho que devemos lutar. Não somos descartáveis. Para mim, a vida é algo sagrado.

    ANSA: Você acredita em um acordo entre o Hamas e Israel?

    Eu sou grande otimista. Nós provamos que conseguimos fazer isso. Fizemos paz com o Líbano, com o Egito. Mas todos esqueceram. Lutamos com o Egito na Guerra dos Seis Dias e fizemos um acordo de paz.

    O Hamas pode sonhar de que vai destruir Israel, mas eu sugiro que nem tente. Eles são chatos. São realmente chatos. [Quando atacam Israel] as pessoas têm que ir para os abrigos. Mais de 71 pessoas morreram nesta última ofensiva [em Gaza]. Mas, no final do dia, eles têm mais destruição do que havia antes em Gaza. Eu não entendo porque não podemos voltar a tratar as crianças em Gaza. Eu tenho certeza que o povo de lá odeia o Hamas, porque fazem a vida deles ser miserável. (ANSA)

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