Até onde vai a 'amizade' de Trump com Putin?

Magnata e russo podem discordar em uma série de temas externos

Graffiti exibe Trump e Putin se beijando
Graffiti exibe Trump e Putin se beijando (foto: ANSA)
10:30, 13 DezSÃO PAULO Beatriz Farrugia

(ANSA) - A campanha eleitoral do republicano Donald Trump foi marcada por um "namoro" com o presidente russo, Vladimir Putin, o que gerou preocupação na comunidade internacional quanto às consequências da mudança de posição de Washington com Moscou.


Confirmando sua intenção de elevar o patamar das relações diplomáticas, Trump anunciou nesta terça-feira (13) o CEO da Exxon-Mobil, Rex Tillerson, para a Secretaria de Estado, um dos cargos mais importantes do governo e responsável por conduzir a política externa dos EUA. O engenheiro texano é um notório amigo de Putin e recebeu, em 2013, a medalha da “Ordem da Amizade” da Rússia.


O anúncio veio no mesmo dia em que o próprio presidente russo se disse pronto para um encontro com Trump, mesmo em meio à acusação da CIA de que hackers de Moscou teriam interferido nas eleições de novembro e vazado documentos secretos da candidata democrata, Hillary Clinton.


Todos os indícios apontam que Trump está decidido a consertar os laços com Moscou. Além de alterar a conjuntura internacional, esta nova relação colocará o magnata republicano diante de interesses conflitantes históricos entre EUA e Rússia.


"Nós temos vários Trumps. Temos o Trump no início da campanha, o Trump que enfrentou Hillary Clinton e, agora, o Trump que é o presidente dos EUA. Durante a campanha, ele jogou com essa suposta amizade com Putin, porque também era conveniente para o líder russo tirar os democratas do poder", disse à ANSA Sidney Ferreira Leite, professor de Relações Internacionais da Faculdade Belas Artes e especialista em Oriente Médio.


"Mas, agora, na Presidência, Trump terá que analisar os interesses de Washington em áreas estratégicas. Essa relação com Putin não será tão fácil, porque os interesses são opostos, principalmente no Oriente Médio", analisou o especialista.


Um dos pontos mais intricados é a crise na Síria. Se seu governo buscar uma aliança com a Rússia para combater o Estado Islâmico (EI), terá que prever o cenário posterior, ou seja, se aceitará o governo do ditador Bashar al-Assad.

"Se Assad ficar no poder, significa uma importante vitória para Putin, quem, desde o início da guerra na Síria, dizia que a oposição era formada por terroristas, enquanto os EUA armaram rebeldes e apoiaram a destituição do governo de Damasco", disse Sidney Leite. "Trump terá que pensar duas vezes antes de fazer uma aliança com a Rússia, porque é um preço muito caro a se pagar".

Para o cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM Heni Ozi Cukier, uma das opções de Trump é se aliar à Rússia apenas no combate ao Estado Islâmico, sem vinculá-lo ao futuro da Síria. "Os EUA terão que escolher quando se aproximam e quando recuam de Moscou. O governo George W. Bush tinha uma relação amigável com Putin e isso não refletia uma aliança de fato", disse.

Além da crise síria, outros assuntos aparecerão logo no início da gestão de Trump, como o acordo nuclear com o Irã, alcançado em julho de 2015 para inspecionar a produção nuclear de Teerã.

Trump já prometeu que renegociará os termos do tratado, "um dos piores que os Estados Unidos já assinaram", em suas palavras. O governo iraniano também está descontente e acusa Washington de não aliviar as sanções. Mas a Rússia, que apoiou as negociações junto com Reino Unido, França e China, entrará em alerta caso o republicano reabra o tema.


No entanto, para não bater de frente com Moscou em todos os assuntos externos, o magnata poderá adotar a estratégia de amenizar a pressão contra a Rússia no conflito na Ucrânica. "Trump vai dizer que a Rússia é uma parceira, amiga, e pode acabar aliviando na questão da Ucrânia, que é exatamente o que a Rússia quer", disse Cukier. "Mas essa decisão terá uma consequência chocante para a Europa", concluiu o professor da ESPM.

Isso porque outro mote da campanha de Trump foi reformular a atual configuração do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O republicano prometeu que, se eleito, exigiria mais participação financeira e militar dos países-membros e "não se sentiria obrigado a defender seus parceiros".


"Falar que a Europa precisa investir mais, sozinha, em defesa, e dar poder para seu inimigo, a Rússia, não faz sentido. Alguns países entrarão em pânico", afirmou Cukier.


"Os EUA são como um cobertor de segurança, se decidirem se retirar, as animosidades vão aumentar entre os europeus. Alguns países do leste começarão a se armar, a sentir insegurança, questionando qual posição tomar também em relação à Rússia", analisou o especialista.
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