Conheça os desafios de Trump e Tillerson na política externa

Executivo da Exxon-Mobil assumirá secretaria de Estado

Conheça os desafios de Trump e Tillerson na política externa (foto: ANSA)
08:47, 14 DezSÃO PAULO Por Beatriz Farrugia

(ANSA) - A partir de 20 de janeiro, o republicano Donald Trump enfrentará uma série de desafios em política externa como novo presidente dos Estados Unidos, alguns deles impostos pela conjuntura internacional, outros escolhidos por ele mesmo como emblemas de seu governo.

Desde que venceu as eleições à Casa Branca, em 8 de novembro, o magnata republicano tem prometido mudanças drásticas na política externa norte-americana, como uma reaproximação à Rússia, uma renegociação comercial com a China - além de contatos com Taiwan - uma forte oposição aos acordos climáticos, uma política imigratória restritiva e atitudes duronas contra o Irã.

"Acho que podemos separar os desafios em dois blocos: os criados pelo contexto internacional e os desafios que Trump está escolhendo encarar", disse à ANSA o professor Geraldo Zahran, da PUC-SP. Essas promessas de Trump foram recebidas com cautela e preocupação pelos parceiros dos EUA, já que algumas decisões podem alterar a regra do jogo internacional e impactar as relações diplomáticas do mundo todo.

Mas, todos esses assuntos não dependem exclusivamente de Trump e terão que passar pelas mãos do secretário de Estado, Rex Tillerson, além das agências do governo e do próprio Congresso dos Estados Unidos.

Confira 6 hipóteses sobre este cenário:

1) Quais serão os pilares da política externa de Trump?

De acordo com o professor de Relações Internacionais da ESPM Heni Ozi Cukier, Trump foi eleito com um discurso composto por três elementos: protecionismo comercial, fortalecimento da identidade norte-americana e política externa isolacionista. Este trio de fatores impactará a política em diferentes camadas, tanto em questões comerciais quanto na atuação de conflitos internacionais. "Em algumas áreas, Trump tem mais mobilidade para atuar, como o controle de imigrantes. Outras são mais difíceis, como a comercial, pois envolvem tratados consolidados", disse Cukier.

"Não tenho dúvidas que ele adotará medidas contra imigrantes, colocará o Exército na fronteira com o México ou até construirá mesmo o muro, mas, na área comecial, a capacidade de ação é menor", afirmou.

2) Como será a relação de Trump com seu secretário de Estado?

De acordo com especialistas consultados pela ANSA, a resposta para esta pergunta será a chave para entender todo o governo Trump. O recém-nomeado secretário de Estado, Rex Tillerson, CEO da Exxon-Mobil, é amigo das autoridades russas e contrário às políticas ambientais.

Em teoria, ele personifica as posições defendidas por Trump durante toda a campanha eleitoral. Mas, na prática, ninguém sabe quem ditará a política externa norte-americana, Tillerson ou Trump. "Provavelmente, Trump se manterá 'autoritário' e será a 'cara' da política externa, justamente por este estilo mandão e sua experiência no mundo dos negócios", comentou Zahran.

"Sem dúvida, o presidente tem um papel importante na política externa, mas também tem as agências e o Congresso. Desse jeito, não teremos tantas mudanças quanto se acreditava na época da campanha eleitoral", afirmou, por sua vez, o professor Sidney Ferreira Leite, da Universidade Belas Artes.

3) Quais desafios foram dados pela conjuntura internacional e quais foram escolhidos por Trump?

Ao assumir a Casa Branca, o republicano terá que lidar com assuntos que já perduram há anos, como a guerra na Síria e a instabilidade no Oriente Médio, o combate ao terrorismo e a imigração. Porém, Trump prometeu reabrir questões que já haviam sido concluídas, como o acordo nuclear com o Irã e a retomada gradual das relações diplomáticas com Cuba, ambos negociados e sancionados durante o mandato de Barack Obama. O magnata também anunciou que não ratificará a Parceria Transpacífico (TPP), revisará as tarifas comerciais com a China e se aproximará da Rússia, medidas totalmente novas na política externa norte-america e cujo impacto ainda não pode ser mensurado. 

4) EUA e Rússia encerrarão sua hostilidade histórica?

A nomeação de Tillerson vai de encontro aos discursos de Trump de que se reaproximaria da Rússia, já que o novo secretário de Estado tem o apreço do presidente Vladimir Putin. No entanto, Washington e Moscou mantêm interesses estratégicos divergentes em vários assuntos geopolíticos, principalmente no Oriente Médio.

"A política externa para a Rússia pode mudar, sim, porque Trump é uma pessoa muito pragmática, capaz de estabelecer consensos. Mas, com certeza, ele enfrentará resistência no Senado, onde há políticos, republicanos, que são muito agressivos contra a Rússia", disse Zahran.

5) Trump vai declarar uma guerra comercial contra a China?

As últimas declarações do magnata republicano não agradaram a China, onde os jornais chamaram Trump de "ignorante como uma criança". Isso porque, pouco a pouco, o recém-eleito presidente dos EUA vem demonstrando que manterá diálogos com Taiwan, considerada uma província rebelde e separatista por Pequim, e negociará novos termos comerciais com a potência asiática. Uma das medidas sugeridas por Trump é a de impor tarifas a produtos chineses para "garantir as mesmas condições" no comércio.

"Se ele começar uma guerra comercial, a China vai retaliar. Vai deixar de comprar Boeing, soja e outros produtos. Os civis norte-americanos vão acabar perdendo também. Apesar de esta ser uma área com menos espaço para manobras, mexe com a economia mundial inteira", disse Cukier, da ESPM.

6) Como deve ficar a nova configuração mundial do poder?

Apesar das mudanças sugeridas por Trump terem capacidade de impactar vários outros países, principalmente os parceiros históricos dos EUA, como a Europa, os especialistas entrevistados pela ANSA acreditam que o impacto será temporário e limitado, sem capacidade para alterar completamente o cenário mundial.

"Não haverá uma nova configuração. Trump é uma força estruturante de curta duração, é apenas um mandato político. As relações internacionais são muito mais complexas que a vontade de um líder político. Essa onda gigante de Trump vai chegar na praia e virar espuma. Uma eleição de um presidente raramente causa uma grande mudança mundial e Trump não levará a cabo uma revolução", disse Sidney Leite, comparando o cenário atual com as expectativas também geradas pela eleição de Barack Obama em 2008.

Já Heni Ozi Cukier acredita que, no contexto global, as mudanças propostas por Trump tornarão o mundo "mais multipolar". "A eleição do Trump manda um sinal de que o mundo está muito mais cada um por si. Pode parecer mais democrático, mas é um mundo mais anárquico, mais instável. E a Primeira e a Segunda Gerra aconteceram neste contexto. Isso não é positivo", disse. (ANSA)

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