Com quase 100 mil cópias vendidas, Elena Ferrante vira febre no Brasil

Escritora italiana se mantém anônima há mais de 20 anos

'A amiga genial', primeiro volume da 'tetralogia napolitana' (foto: Divulgação)
16:04, 15 DezSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - No mundo de superexposição em que vivemos, é curioso notar que uma escritora que se mantém anônima há mais de duas décadas tornou-se um dos maiores fenômenos literários dos últimos tempos. Não se sabe muito sobre a italiana Elena Ferrante. Todos os aspectos de sua identidade permanecem encobertos pelo véu do mistério. Mas há algumas certezas. Uma delas é sua escrita poderosa e viciante. A outra é que seus livros vendem. E vendem muito.

Estima-se que sua obra mais célebre, a chamada "tetralogia napolitana", já comercializou mais de 2 milhões de exemplares no mundo todo. O Brasil não fica fora desse contexto. Publicados pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, os três primeiros volumes da série - "A amiga genial", "História do novo sobrenome" e "História de quem foge e de quem fica" - e o romance "Dias de abandono" já alcançaram a marca de 94 mil cópias vendidas.

O quarto e último capítulo da tetralogia, "História da menina perdida", já está no forno e deve ser lançado no primeiro semestre do ano que vem. Nos últimos meses, o mercado brasileiro vem sendo inundado pelos livros de Ferrante. Quem entrar nas maiores livrarias do país encontrará também os títulos "A filha perdida" e o infantil "Uma noite na praia", ambos da editora Intrínseca e sem estimativa de vendas até o momento. Desde que a italiana estreou no Brasil, em maio de 2015, já são seis obras publicadas no país, e pelo menos outras três serão lançadas em 2017.

Mas o que explica todo esse frenesi em torno de Ferrante? "Tem a ver com a narrativa dela, bastante realista, e sua habilidade muito grande de contar uma historia. É uma narradora mulher que traz para o centro da literatura contemporânea alguém que está de igual para igual com outros escritores. Fora isso, também há o fato de que ela se mantém alheia como pessoa, o que acaba gerando uma discussão sobre o papel do escritor", responde à ANSA Thiago Barbalho, editor dos livros da italiana na Biblioteca Azul.

O selo da Globo largou na frente ao conquistar o direito de publicar a popular tetralogia napolitana, mas em 2016 ganhou a concorrência da Intrínseca, que além de "A filha perdida" e "Uma noite na praia", prepara o lançamento de mais dois títulos para o ano que vem. O primeiro, "L'amore molesto", está previsto para março, enquanto o segundo, a coletânea dita autobiográfica "La frantumaglia", ainda não tem data definida.

"Ela chegou ao Brasil colocada em um degrauzinho um pouco acima do mundo comercial, mas o modo como ela escreve, a temática dos livros dela, são muito acessíveis. Se você tira a camada literária de cuidado e refinamento, sobra uma história fantástica e que atinge muita gente", afirma Danielle Machado, editora de títulos internacionais da Intrínseca.

Sucesso tardio

Elena Ferrante lançou seu primeiro livro, o premiado "L'amore molesto", em 1992, porém o segundo, "Dias de abandono", saiu apenas 10 anos depois. Ambos foram adaptados para o cinema e exibidos, respectivamente, nos festivais de Cannes e Veneza, contribuindo para aumentar a fama da escritora em seu país.

Mas ela deixaria de ser um fenômeno italiano para se tornar global somente em 2011, com a publicação de "A amiga genial", que recebeu críticas bastante positivas nos Estados Unidos e deu início à "Ferrante Fever" ("Febre de Ferrante") em solo norte-americano. A tetralogia conta a história de duas amigas da periferia de Nápoles, Lenù (apelido de Elena) e Lila, escrita pela primeira após o súbito desaparecimento da segunda.

A narração começa com Lenù recebendo a notícia de que Lila havia sumido sem deixar rastros, cumprindo um antigo desejo de "desmaterializar-se". Irritada, decide colocar em preto no branco toda a trajetória de sua amizade, desde a primeira infância até a velhice.

Como pano de fundo, Ferrante descreve as tensões enfrentadas pela Itália e por Nápoles no pós-Guerra, como os anos de chumbo, o fascismo, o comunismo e o crescimento da Camorra, e a tentativa das duas amigas, cada uma a seu modo, de se libertarem da vida de miséria, exploração e violência à qual nasceram condenadas.

Tudo isso impulsionado por um estilo claro e intenso. Sentimentos e fatos do cotidiano são narrados com franqueza, realismo e, coisa rara na história da literatura, sob o ponto de vista feminino. "É uma narradora que traz a discussão sobre a figura feminina no mundo. A complexidade da escrita dela é parte da razão desse alcance tão grande", acrescenta Barbalho.

O anonimato

Seja por timidez, traço característico da personagem Lenù, seja por dizer que seus livros devem falar por si sós, Ferrante não revela sua verdadeira identidade. Só faz entrevistas por e-mail, não participa de eventos para promover suas obras. Sobre ela, sabe-se quase nada. Acredita-se que tenha nascido em Nápoles, já que conta com riqueza de detalhes a vida na periferia da cidade, e que seja mulher, por usar a mesma precisão para falar sobre as angústias do universo feminino.

O mistério em torno da italiana acabou se tornando um dos motivos de seu sucesso e, ironicamente, um apelo publicitário que atrai leitores, muitas vezes mais do que a própria história narrada nos romances. "Claro que tudo pode ser visto como mercadológico, mas é algo decidido desde o começo. Não acho que seja marketing, é uma decisão até muito arriscada", diz Barbalho, da Biblioteca Azul.

A busca por sua identidade atingiu o auge em outubro passado, quando o jornalista italiano Claudio Gatti, do diário econômico "Il Sole 24 Ore", publicou que Ferrante seria Anita Raja, tradutora que colabora com a Edizione E/O, a mesma editora da escritora. Em sua investigação, o repórter descobriu que Raja recebera remunerações incompatíveis com o trabalho de tradução e que esses pagamentos cresceram paralelamente ao aumento do sucesso de Ferrante.

Seu marido, o escritor napolitano Domenico Starnone, já havia sido apontado anteriormente como a possível verdadeira identidade da autora devido aos estilos parecidos. As conclusões da reportagem foram rechaçadas pela Edizione E/O, que ainda criticou a suposta intromissão do jornalista, assim como fãs no mundo inteiro.

Para o cineasta Roberto Faenza, que adaptou "Dias de abandono" para as telonas, não há mal nenhum na investigação conduzida por Gatti. "Toda a intelligentsia italiana se colocou contra esse jornalista, mas o público estava curioso para saber quem é Ferrante, então se alguém responde, não me parece uma coisa feia", diz o diretor à ANSA.

Ele conta que teve uma "relação estranha" com aquela que define como uma "grandíssima escritora". Segundo Faenza, a Edizione E/O lhe pedira para enviar o filme à autora antes do lançamento, e ela lhe respondeu com duas ou três cartas batidas à máquina. Sem assinatura. "Quando se chega à paranoia de não assinar porque pensa que, pela análise da assinatura, alguém descobre se é masculina ou feminina, não me parece uma coisa bela. Por isso sou da opinião de que esse jornalista fez bem", acrescenta.

O fato inegável é que a suposta revelação da identidade de Ferrante aumentou o interesse em torno de sua obra e mostrou que, ao mesmo tempo em que os leitores querem saber quem está por trás do pseudônimo, eles também não o querem. Se Lenù escreve para não deixar que sua amiga Lila desapareça, mencionar o real nome de Elena Ferrante poderia fazê-la sumir para sempre.
(ANSA)

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