2016, o ano em que a Itália se destacou na crise migratória

Neste ano,Itália passou Grécia no número de imigrantes acolhidos

2016 foi o ano em que a Itália se destacou na crise migratória (foto: ANSA)
07:57, 30 DezSÃO PAULO Ana Ferraz

(ANSA) - Em 2016, milhares de imigrantes continuaram chegando à Europa deixando suas casas, fugindo de guerras e conflitos armados, com a esperança de recomeçar a vida em um lugar com maiores condições e, principalmente, mais segurança. O ano repetiu a tendência dos anteriores e aumentou ainda mais a crise migratória no continente, considerada a maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945).

No entanto, entre 2015 e 2016 muita coisa mudou em relação à crise, como a importância do papel da Itália neste último ano. O país foi a principal porta de entrada de imigrantes e refugiados vindos de países da África e do Oriente Médio para a Europa.

Segundo o relatório "Migration Flows to Europe: The Mediterranean Digest", da Organização Internacional para as Migrações (OIM), até o dia 13 de dezembro deste ano, a Itália recebeu 177.529 deslocados externos.

Este número confirma que, pela primeira vez desde 2014, quando a crise migratória começou a ganhar força na Europa, o país acolheu mais imigrantes que a Grécia, nação por qual entrava a maior parte dos deslocados e que recebeu 175.666 pessoas até a mesma data de dezembro de 2016.

Em comparação com o ano passado, a Itália teve um aumento de 115% no número de entradas de imigrantes enquanto a Grécia teve uma queda de 83% no mesmo período, de acordo com o relatório da OIM. Juntos, os dois países receberam 93% dos imigrantes que chegaram ao continente.

No entanto, é importante ressaltar que o aumento dos imigrantes e refugiados que chegam à Europa pela Itália está diretamente ligado à diminuição do número de deslocados que vão para a Grécia. Isso pode ser provado com a expressiva queda do número de imigrantes que chegaram ao continente.

Em 2015, de acordo a OIM e com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mais de um milhão de pessoas entraram em países europeus, contra os "apenas" 381.307 imigrantes registrados no continente até 14 de dezembro de 2016.

Um dos maiores motivos para isso é o acordo realizado entre União Europeia e Turquia que tem como objetivo diminuir o número de imigrantes que entram na Europa pela Grécia. Com o acordo, a Turquia pode deportar ao seu país todos imigrantes ilegais que atravessarem as suas fronteiras, navegarem pelo Mar Egeu e desembarcarem nas ilhas gregas.

Outro fator que diminuiu o fluxo migratório para a Grécia neste ano foi o fechamento da rota dos Balcãs, percurso que era o mais utilizado pelos imigrantes que querem chegar até os países do norte da Europa, principalmente a Alemanha e a Áustria. Esses fatores unidos fizeram com que a Itália recebesse um número maior de deslocados em relação aos anos anteriores.

Para chegarem no país, esses imigrantes realizam a chamada "rota do Mediterrâneo Central", onde partem principalmente do norte da Líbia, passam pelo Canal da Sicília e chegam às ilhas italianas como Lampedusa.

Este caminho é considerado o mais mortal do mundo. Segundo a OIM, até 20 de dezembro deste ano, 4.913 pessoas morreram na travessia no Mediterrâneo em naufrágios. No entanto, a sede da OIM em Roma acredita que este número passa de cinco mil.

"Em 2016, o número de chegadas pelo mar na Itália continuou a crescer, mas o número de imigrantes que morreram aumentou dramaticamente: mais de cinco mil morreram em 2016, comparado com as 3.777 mortes registradas no mesmo período no ano passado. Isso é quase dois mil a mais que 2014, outro ano no qual mais de três mil homens, mulheres e crianças foram perdidos na perigosa passagem", disse o porta-voz da OIM Itália, Flavio Di Giacomo.

Mesmo assim, o professor Gilberto Rodrigues da Universidade Federal do ABC alerta que não acredita que "a Itália tornou-se o foco da crise de forma isolada". "Os imigrantes forçados continuarão pressionando pela entrada via Grécia. A Itália atua de forma mais visível devido ao fluxo do Magreb [região noroeste da África que inclui Marrocos, Saara Ocidental, Argélia, Tunísia, Líbia e Mauritânia] para o Mediterrâneo e aos graves problemas que a travessia gera", disse Rodrigues.

Além disso, por ser o país de chegada dos imigrantes, a Itália acaba arcando mais com a crise migratória que outros países europeus. Isso acontece por causa da Convenção de Dublin de 1990 na qual o imigrante que quiser dar entrada a um pedido de refúgio ou de asilo deverá fazê-lo no país onde chegar.

Outro ponto que recai sobre italianos e gregos é o sistema de cotas, aprovado em 2015, mas que até agora redistribuiu apenas 5.651 pessoas para outros países europeus.

Para Rodrigues, o modo como a União Europeia está tratando a crise acaba sendo "generalizado" e visto apenas pelos seus "impactos negativos", mas que "para que as políticas de recepção de migrantes e refugiados pudessem ser satisfatórias, todos os países do bloco deveriam cooperar e dar sua contribuição, mas isso não ocorre".

De acordo com o professor, "apenas alguns [países] assumem esse compromisso e os que estão na fronteira assumem necessariamente um ônus maior pelo primeiro acolhimento".

"Todos os países deveriam se dispor a receber refugiados a partir de uma decisão equitativa da União Europeia. A convenção de Genebra de 1951 [que trata dos refugiados] estipula que o ônus pela recepção de refugiados deve ser compartilhado entre todos", afirmou Rodrigues.

A não recepção de imigrantes por países europeus pode ser explicada em parte pela ligação que é feita entre esses deslocados e as ameaças e atentados terroristas que aumentaram nos últimos anos no continente.

"Os ataques terroristas como os da França e da Alemanha podem alterar o frágil apoio que ainda resta de parte da opinião pública nesses países para proteger, acolher e integrar imigrantes forçados", disse Rodrigues.

De acordo com o professor, "a discriminação por motivos étnico-raciais e por religião tende a aumentar e produzir violações maciças de direitos humanos contra esses coletivos de pessoas, já vulneráveis por sua situação de refúgio". (ANSA)

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