Confira as eleições que podem mudar o mundo em 2017

Países importantes dos cinco continentes irão às urnas neste ano

Marine Le Pen e Geert Wilders (no centro da imagem) são candidatos a vencer eleições em seus países
Marine Le Pen e Geert Wilders (no centro da imagem) são candidatos a vencer eleições em seus países (foto: EPA)
15:28, 01 FevSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - Ainda sob o efeito da "Brexit" e da chegada de Donald Trump à Casa Branca, o mundo terá um movimentado calendário eleitoral em 2017, com pleitos que podem abalar ainda mais os já frágeis pilares da estabilidade global.

Países importantes dos cinco continentes irão às urnas neste ano, com destaque para a Europa. Até outubro, pelo menos quatro Estados-membros da União Europeia escolherão novos líderes, sendo que em todos eles deve se confirmar a tendência de crescimento das forças eurocéticas.

A maior parte das atenções estará voltada para a França, país fundador da UE e cujo debate eleitoral é dominado por um tom populista que reveste seus principais candidatos. Da direita à esquerda, a disputa é concentrada em torno da ultranacionalista Marine Le Pen (Frente Nacional), do ex-premier conservador François Fillon (Os Republicanos), do ex-ministro de Economia Emmanuel Macron (Em movimento!), do ex-ministro da Educação Benoît Hamon (Partido Socialista) e do eurodeputado Jean-Luc Mélenchon (França Insubmissa).

Enquanto os dois primeiros disputam o eleitorado conservador e os dois últimos dividem o campo da esquerda, o do meio tenta se colocar como uma terceira via liberal e centrista. Líder nas pesquisas para o primeiro turno, marcado para 23 de abril, Le Pen forçou seus adversários a flertarem com o populismo, enquanto tenta emplacar sua plataforma anti-euro e anti-imigração em um país desencantado pela crise econômica e assustado por recorrentes atentados terroristas.

Hamon, por exemplo, propõe a criação de uma renda básica de cidadania para todos os franceses, e Macron já foi chamado de "Beppe Grillo vestido de Giorgio Armani", em comparação ao líder antissistema italiano que diz não ser "nem de esquerda, nem de direita".

"A França é o país que organiza a própria UE e é quem mais tem possibilidade de se radicalizar por causa dos atentados, do grande fluxo de comunidades islâmicas. Há na França um crescimento do sentimento eurocético", diz Marcus Vinicius de Freitas, professor visitante da Blavatnik School of Government, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Outro país fundador da UE a ir às urnas em 2017 será a Holanda, onde o Partido para a Liberdade, do líder de extrema-direita e eurocético Geert Wilders, aparece na frente nas pesquisas para as eleições de 15 de março.

Embora pequena, a Holanda tem um grande peso simbólico, já que ajudou a levantar o bloco e sediou a assinatura do acordo que o criou oficialmente, o Tratado de Maastricht, firmado em fevereiro de 1992. "Houve uma transformação na Holanda, que era historicamente um país pró-Europa. O surgimento de um partido tão virulentamente anti-europeu, ao menos na retórica, representa uma mudança profunda", explica o professor Kai Lehmann, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP).

Para o especialista, o caso holandês é semelhante ao da Itália, que sempre foi europeísta e hoje vê a ascensão do eurocético Movimento 5 Estrelas (M5S), liderado por Beppe Grillo. O partido defende a realização de um plebiscito para tirar o país do euro e entrará como forte candidato à vitória caso o presidente Sergio Mattarella decida antecipar as eleições para 2017.

Alemanha

Também cercada pelo sentimento de descrença em relação a Bruxelas, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tentará, no mês de setembro, conquistar seu quarto mandato consecutivo.

Pragmática, a nação mais rica da UE deve reconduzir Merkel, líder da conservadora União Democrata-Cristã (CDU), ao governo, em uma grande coalizão com o Partido Social Democrata (SPD), mas as pesquisas apontam uma queda vertiginosa das duas siglas em relação a quatro anos atrás.

Em 2013, a chanceler foi reeleita com 41,5% dos votos, enquanto o SPD obteve 25,7%, porém o cenário atual revela as duas legendas com 32% e 21% da preferência, respectivamente. O responsável por roubar esses votos é o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), de Frauke Petry, que deve despontar como a terceira força do Parlamento.

"Merkel é a grande favorita, mas seria uma enorme surpresa se repetisse o resultado de quatro anos atrás. A CDU não sofre ameaça de não ser o maior partido, mas, obviamente, se perder 10 pontos em relação a 2013, Merkel entrará enfraquecida como chanceler", ressalta Lehmann.

A quarta nação da UE a realizar eleições em 2017 será a República Tcheca, em outubro, quando a legenda populista "Sim" pode desbancar o Partido Social Democrata (CSSD). Contudo, assim como Hungria e Polônia, o país já tem essa tendência consolidada, e o resultado do pleito não deve provocar grandes mudanças no cenário europeu.

Essas eleições ocorrerão em meio às negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia, que podem se revelar mais ou menos litigiosas, e sob o impacto dos primeiros meses de Trump na Casa Branca, o maior símbolo do avanço populista no planeta.

"Eu não acredito que Trump possa dar esse impulso, mas sua vitória transmite ao eleitor a confiança de que existe um modelo alternativo. E esses partidos estão tentando dizer que são a alternativa", ressalta Marcus Vinicius de Freitas. Já para Kai Lehmann, o poder de influência do republicano dependerá de seu desempenho como presidente.

América Latina

No subcontinente latino-americano, as atenções estarão voltadas para Chile, Equador e Honduras, cujas eleições podem servir de preparação para 2018, quando alguns dos países mais emblemáticos da região, como Brasil, Colômbia, Venezuela, Cuba e México, irão às urnas.

"Se comparado com 2018, 2017 será bastante tranquilo", diz o coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Luis Fernando Ayerbe.

Nos últimos anos, viu-se um crescimento do conservadorismo na América Latina e a derrocada de governos progressistas, em um processo que ocorreu com mais força em Brasil, Argentina e Venezuela. No Equador, o presidente Rafael Correa flertou com a possibilidade de mudar a Constituição para tentar seu quarto mandato seguido, mas acabou desistindo.

Ainda assim, o candidato da situação, o ex-vice-presidente Lenín Moreno, lidera as pesquisas de intenção de voto para o pleito de 19 de fevereiro. No mesmo dia, os cidadãos também participarão de um referendo para decidir se candidatos a cargos públicos podem ter empresas ou contas em paraísos fiscais.

Se a medida foi aprovada, o maior prejudicado será o banqueiro e ex-ministro Guillermo Lasso, vice-líder nas sondagens. "O único problema para o governo é que, se houver segundo turno [que seria em 2 de abril], pode ser que a Aliança País [movimento de Correa e Moreno] não consiga a reeleição", acrescenta Ayerbe.

Contudo, mesmo que confirme sua vitória, Moreno deverá lidar com um contexto mais complicado que o enfrentado por Correa, já que o Equador também sofre com a queda nos preços do petróleo.

Por sua vez, o Chile tem experimentado uma tranquila alternância de poder nos últimos anos, e a presidente Michelle Bachelet possui baixos índices de aprovação. No entanto, os candidatos ainda não foram definidos, e o cenário permanece incerto - as eleições no país serão apenas em 19 de novembro.

Em Honduras, o pleito também será em novembro, e os postulantes serão definidos em eleições primárias no próximo mês de março. Na lista de possíveis candidatos, figuram o atual presidente Juan Orlando Hernández e Xiomara Castro, esposa do ex-presidente Manuel Zelaya, deposto em 2009.

Ásia, África e Oceania

Eleições importantes também acontecerão no Irã, em 19 de maio de 2017, quando o moderado Hassan Rohani tentará renovar seu mandato de presidente e revestir com o apoio popular o acordo nuclear assinado com as potências mundiais.

Na Coreia do Sul, as eleições definirão o substituto da atual mandatária, Park Geun-hye, que foi afastada em um processo de impeachment por tráfico de influência e pode ser deposta definitivamente pela Corte Constitucional.

Se isso ocorrer, o país escolherá um novo líder em até 60 dias. Caso Geun-hye escape da cassação, as eleições devem ocorrer até 20 de dezembro, já que ela está em seu último ano de mandato. Na Oceania, a principal votação será na Nova Zelândia, em 23 de setembro.

O país trocou de primeiro-ministro recentemente devido à inesperada renúncia de John Key, substituído pelo aliado Bill English, que é favorito para seguir no poder. (ANSA)

Todos los Derechos Reservados. © Copyright ANSA