Em 1ª viagem internacional, Trump quer mostrar lado negociador

Escolha por destinos religiosos também chama a atenção em viagem

Em 1ª viagem internacional, Trump quer mostrar lado negociador (foto: ANSA)
10:59, 19 MaiSÃO PAULO Por Tatiana Girardi

(ANSA) - Com um governo voltado para as políticas internas e em meio a mais um escândalo por conta da revelação de informações secretas aos russos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parte para sua primeira viagem internacional como chefe de Estado.

O roteiro, que inicia em três países fortemente ligados às maiores religiões do mundo, começará pela Arábia Saudita, no dia 19 de maio, seguirá para Israel no dia 22 e Vaticano no dia 24.

De lá, Trump parte para Bruxelas, para participar da reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e fecha o giro internacional com a presença na reunião dos chefes de Estado e governo dos países que compõem o G7, em Taormina, na Itália.

Mas, o que esperar das primeiras visitas de Trump no exterior? Especialistas afirmam que elas tentarão mostrar uma reaproximação a parceiros e aliados antigos e mostrar que os Estados Unidos tem um presidente que sabe ser negociador.

"A Arábia Saudita é um aliado dos EUA. Mas, na época de [Barack] Obama, por causa da aproximação e dos acordos com o Irã, a Arábia Saudita se distanciou dos EUA. Interessa a Trump retomar uma relação mais próxima, há muitos interesses econômicos e é a capital em termos religiosos, da religião islâmica", diz o professor de História e Relações Internacionais da Unesp, Luis Fernando Ayerbe, à ANSA.

Para o especialista, há também uma ideia de que essa nova aproximação encontre "encontrar uma saída para o conflito entre Arábia e Israel e desmistificar essa ideia de que ele é contra os muçulmanos".

Para o professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e coordenador do Observatório Político dos Estados Unidos (Opeu), Geraldo Zahran, o afastamento entre árabes e norte-americanos durante o governo de Obama, por conta do acordo nuclear, terá um grande peso durante os encontros.

"Trump alardeou que cancelaria o acordo durante a campanha mas até agora não o fez. Como o acordo é sancionado pela ONU e envolve outros países, e até agora parece estar tendo bons resultados, talvez seja mais difícil para Trump sair do acordo do que ele tinha inicialmente imaginado. Assim, algum tipo de acomodação com os sauditas deve ser buscado", diz à ANSA.

Já para o professor de Direitos Humanos e Direito Constitucional da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Flavio de Leão Bastos Pereira, a visita à Arábia Saudita "parece ter dois objetivos que me parecem bem mais claros".

"O primeiro deles é que, do ponto de vista comercial, a Arábia Saudita é um dos maiores compradores dos EUA. Agora, do ponto de vista geopolítico e dos conflitos no Oriente Médio, há uma tentativa de trazer os países muçulmanos como parceiros no combate ao Estado Islâmico, cuja destruição foi declarada essa semana como prioridade do governo Trump", explica à ANSA.

Já na segunda etapa da viagem, em Israel, a ideia será o reforço das relações com o premier Benjamin Netanyahu, a quem Trump também mostrou mais proximidade do que seu antecessor, além de mostrar uma postura conciliadora com os palestinos.

"No caso palestino-israelense, ele sempre mostrou uma postura clara que ele mudaria a embaixada americana para Jerusalém, o que seria um grande problema para os palestinos e uma vitória diplomática de Israel. Então, ele coloca-se agora com um mediador sensato, onde muda sua postura", explica Pereira.

 Já Ayerbe atribui uma mudança na postura do presidente também pelo fato de que, em pouco mais de 100 dias de governo, Trump "ter poucas conquistas e está isolado" no cenário internacional.

Outro ponto ressaltado por Pereira é o fato de que a visita ocorre em um momento de "incêndio" nas relações entre os dois países.

"Com a declaração de um de seus assessores, dizendo que o Muro das Lamentações fica em território palestino, e a possível transferência de informação para os russos de uma informação passada pelos israelenses, gera aqui uma desconfiança por parte de Israel. Gera um abalo, ainda não tão evidente, que ele tentará amenizar", ressalta lembrando do escândalo mais recente da administração republicana.

Trump teria repassado uma informação altamente confidencial para o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serghei Lavrov, que sequer havia sido informada para os países aliados. De acordo com a mídia norte-americana, essa informação veio de Israel. 

Vaticano

Antagônicos em suas posturas, o presidente dos EUA fará a terceira etapa da viagem ao Vaticano para um encontro com o papa Francisco. Entre os temas debatidos, de acordo com fontes vaticanas, estão as questões relacionadas às mudanças climáticas e a construção de um muro na fronteira norte-americana com o México.

"Pode ser algo mais simbólico porque o Papa tem posições bastante claras, por exemplo, em relação ao muro na fronteira com o México. O Trump não é o presidente ideal do ponto de vista do Vaticano e o Papa também não é um interlocutor do gosto de Trump", destaca Ayerbe.

Zahran está cético de que a postura do líder católico mudará qualquer pensamento do magnata.

"O Papa é um líder simbólico para parte da comunidade internacional, mas não carrega muito peso diplomático em geral. Ele pode ser um facilitador, como no caso da reaproximação entre Cuba e EUA, mas é inimaginável que ele carregue uma agenda positiva ou exerça real pressão em temas como mudanças climáticas", ressalta à ANSA.

Já Pereira vê a visita ao líder da Igreja Católica por um outro ponto de vista. "Eu não diria que é só simbólica, mas uma visita na tentativa de reforçar essa postura mais conciliadora. Nós temos um Papa que fala pela ajuda aos necessitados, contra os muros, e a política do muro é do Trump, o Papa fala a favor da conciliação entre palestinos e israelenses. Em um primeiro momento, é uma visita para tentar abrir os contatos com o Papa que faz críticas a ele", destaca.

OTAN e G7

Os últimos compromissos de Trump nessa viagem são as viagens de cúpulas com a OTAN e com o G7. Crítico da aliança militar, que chegou a classificar de "obsoleta" - e depois voltou atrás, e com constantes desavenças com os líderes europeus, o republicano terá uma dura missão nesses encontros.

Para Ayerbe, desde que ele foi eleito, em novembro do ano passado, muito mudou na política e no mundo. "Quando o Trump ganhou tinha o elemento do avanço da direita na Europa, o Brexit. Só que depois dele assumir, nas eleições da Holanda e da França, essa direita que era crítica à União Europeia, perdeu. Não significa que é definitivo, mas nesse momento perdeu e mudou a conjuntura política", ressalta o professor da Unesp.

Por isso, o presidente foi mudando sua postura - muito também pela força de seu secretário de Estado, Rex Tillerson - e o fez entrar "em uma questão mais pragmática que o fez rever o radicalismo contra a OTAN para rever os pesos dos aliados tradicionais dos EUA".

"Então, eu vejo que mediante as escassas conquistas dos seus 100 dias, ele reavaliou essas posturas mais radicais, buscando uma reaproximação com os aliados tradicionais dos EUA tanto na OTAN como no G7", destaca Ayerbe.

Pereira segue a mesma linha e destaca a mudança no comportamento do presidente norte-americano.

"No caso da reunião do G7, a ideia lá principal, do ponto de vista geopolítico, é cobrar e pressionar mais a Rússia para que a Rússia deixa de apoiar Assad. Ninguém no Ocidente acredita que é possível pacificar a Síria com Assad no poder. Temos um regime secular, não religioso, porém é um regime ditatorial. Haverá um discurso no sentido de pressionar a Rússia por conta da Crimeia", diz o especialista do Mackenzie à ANSA.

E a crise interna, para Pereira, poderá ter um impacto bastante claro nos encontros do mandatário na Europa.

"Isso gera uma desconfiança. A posição dos EUA é de tal predomínio econômico-militar que precisaríamos caminhar nesse processo que o governo Trump pode sofrer. Mas, acredito que gera uma desconfiança e será cobrado disso. Talvez ele tenha um discurso muito forte contra o [Vladimir] Putin", diz o professor lembrando que já está sendo ventilada a possibilidade de impeachment de Trump.

"Então, ele está viajando em uma situação em que ele precisa do apoio da União Europeia e para isso ele vai falar e discursar o que quer ser ouvido pelos líderes europeus, que vão com uma certa desconfiança nas reuniões com ele", afirma.

Para Zahran, essa mudança de postura do mandatário vem mudando e "Trump já moderou parte de suas declarações em encontros com líderes europeus, quando discutiu o tema da OTAN com a chanceler alemã Angela Merkel, por exemplo".

"O mais provável é que essa "moderação" continue: pedidos para que os aliados contribuam mais, com uma retórica forte, talvez, mas sem grandes rupturas como ameaçar tirar os EUA dessas instituições. Em todo caso, Trump terá explicações para dar sobre sua aproximação com a Rússia e as conversas sobre informações confidenciais de inteligência. Certamente, não eram essas as manchetes que Trump e sua equipe esperariam às vésperas dos encontros", conclui o especialista. (ANSA)

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