Após críticas, Nobel da Paz visita 'estado dos rohingyas'

Foi a 1ª vez que a líder de partido governista foi à área

Após críticas, Nobel da Paz visita 'estado dos rohingyas' (foto: EPA)
11:11, 03 NovBANGCOC Por Alessandro Ursic

(ANSA) - Uma visita de poucas horas, secreta até o último instante, e definitivamente apenas simbólica. A líder "de fato" de Myanmar, Aung San Suu Kyi, foi nesta quinta-feira (2), pela primeira vez, até o estado de Rakhine.

A visita já foi a uma região quase esvaziada de muçulmanos rohingyas por conta do êxodo para Bangladesh nos últimos dois meses.

Muito criticada internacionalmente pela gestão de uma crise que a Organização das Nações Unidas definiu como "um exemplo do manual de limpeza étnica", Suu Kyi insistiu sobre a prioridade do retorno da estabilidade - e sua breve visita se enquadra nessa perspectiva.

A prêmio Nobel da Paz chegou à capital, Sittwe, pela manhã para depois partir, a bordo de um helicóptero militar até o distrito de Maungdaw. Ali mesmo, no fim de agosto, ataques coordenados pelo grupo rebelde "Exército da Salvação dos Rohingyas do Arakan" (Arka) tinham matado 12 membros das forças de segurança.

Isso causou contraofensiva do Exército, que obrigou mais de 600 mil rohingyas a escapara para além da fronteira. Suu Kyi visitou alguns dos acampamentos abandonados em uma área que, segundo a Human Rights Watch, os militares do governo queimaram mais de 280 "casas" provisórias.

"A Senhora", como é chamada no país, teve um rápido encontro com líderes religiosos locais, em uma das poucas comunidades muçulmanas que permanecerem na região. A líder do partido governista, que não pode ser eleita a chefe do governo por questões burocráticas, não deu declarações oficiais.

Sua viagem, amplamente divulgada pela emissora estatal, tinha o evidente objetivo de mostrar que o governo voltou a controlar a situação.

Suu Kyi foi acompanhada por um magnata que, no passado, foi atingido por sanções econômicas norte-americanas por conta de suas ligações com a ex-junta militar, e que mais de uma vez deu ênfase à exigência de promover o desenvolvimento econômico em Rakhine, o segundo estado mais pobre do país, também para benefício na convivência entre a maioria budista e a minoria muçulmana.

Há dois dias, um de seus representantes tinha anunciado a intenção de iniciar um plano de repatriação dos refugiados rohingyas, uma ideia já ventilada por Suu Kyi em setembro. Tais palavras, no entanto, parecem mais orientadas a atenuar as ferozes críticas da comunidade internacional, com pouca ação concreta.

Os budistas de Rakhine rebateram que não querem que a minoria retorne, mesmo se o governo fizer com que eles voltem ao estado.

Em qualquer caso, pouquíssimos rohingyas - sistematicamente discriminados e privados da cidadania - poderão comprovar seu direito de residência, já que muitos perderam os documentos durante a fuga.

De maneira definitiva, as duas visões da crises - a internacional e a de Myanmar - são incompatíveis. A mais grave crise humanitária na Ásia das últimas décadas é vista como uma limpeza étnica no exterior, mas como uma operação "sacrossanta" contra os "terroristas" que estão na sociedade civil, em um clima de nacionalismo e ressentimento contra as críticas estrangeiras publicadas por todas as mídias nacionais.

Essas últimas, dão amplo espaço aos budistas de Rakhine mortos pelos rohingyas, e acusam os muçulmanos de ter colocado fogo em suas próprias casas; enquanto os refugiados rohingyas em Bangladesh foram ignorados pelas autoridades locais, o restrito número de refugiados em Rakhine recebem ajuda estatal.

A estabilidade, tão desejada por Suu Kyi, no momento, é um objetivo que aparenta estar muito distante.

Nos próximos dias, o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, efetuará a sua primeira visita ao país desde o início da crise com os muçulmanos.

Tillerson estará na capital Naypyidaw no próximo dia 15 de novembro para reuniões com líderes e representantes locais, depois de acompanhar o presidente Donald Trump em sua viagem à Ásia nas próximas horas. (ANSA)

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