Análise/Disputa de Arábia Saudita e Irã aumenta tensão no Oriente Médio

Ações dos últimos dias evidenciaram rivalidade entre os países

Protesto contra Arábia Saudita, EUA e Israel em Teerã
Protesto contra Arábia Saudita, EUA e Israel em Teerã (foto: EPA)
20:57, 09 NovSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - Nos últimos dias, uma série de ações da Arábia Saudita iniciou uma rápida escalada da tensão no Oriente Médio e colocou no centro das atenções mundiais a disputa por poder e influência entre a monarquia sunita e o xiita Irã.

A rivalidade aberta entre Riad e Teerã, materializada nos conflitos na Síria, no Iraque e no Iêmen e na crise diplomática com o Catar, também está por trás da repentina renúncia do primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, anunciada durante uma visita à Arábia Saudita.

Veja abaixo alguns tópicos para entender a tensão que ameaça aumentar ainda mais a instabilidade na região:

A disputa entre Arábia Saudita e Irã

Historicamente rivais, as duas maiores potências da região - ambas exportadoras de petróleo - ficavam sob a esfera de influência dos Estados Unidos até 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi e transformou o Irã em uma república teocrática chefiada por aiatolás.

A revolução acirrou o antagonismo entre iranianos e sauditas, que de geopolítico e econômico passou a ganhar caráter sectário com os conflitos desencadeados pela Primavera Árabe. Na Síria, no Iraque e no Iêmen, o Irã, de maioria xiita, e a Arábia Saudita, majoritariamente sunita, combatem em lados opostos e tentam se aproveitar das guerras para aumentar seu poder na região.

A ofensiva desenhada por Riad nos últimos dias acontece em meio a repetidas vitórias iranianas no conflito sírio, onde o país persa luta ao lado da Rússia, do grupo libanês Hezbollah e do regime de Bashar al Assad.

Com os triunfos de Damasco tanto contra rebeldes - alguns deles apoiados pelos sauditas - como contra o Estado Islâmico, Assad tem se fortalecido cada vez mais, o que também solidifica a influência que Teerã tenta exportar para seus vizinhos.

No Iêmen, o sinal da disputa se inverte: o Irã dá apoio aos rebeldes xiitas houthis, enquanto a Arábia Saudita defende o governo sunita do país. Na última terça-feira (7), o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman acusou Teerã de promover uma "agressão militar direta" contra a Arábia Saudita ao fornecer mísseis para revoltosos iemenitas.

Um desses projéteis foi interceptado no sábado passado (4), perto do Aeroporto de Riad, em uma ação qualificada pela monarquia como "ato de guerra".

O papel do Líbano

O fato que voltou a jogar luz sobre a disputa entre sauditas e iranianos foi a renúncia de Saad Hariri ao cargo de primeiro-ministro do Líbano. A demissão foi anunciada durante uma visita à Arábia Saudita e em meio a acusações contra o Irã e supostas ameaças de morte contra o premier.

Hariri governava seu país desde 2016, liderando um gabinete de união nacional que incluía o Hezbollah, principal força política libanesa e que tem seu braço armado financiado e treinado por Teerã. Apesar de levar estabilidade ao Líbano, o acordo irritou Riad por causa da parceria de um aliado seu, Hariri, com o grupo xiita.

O Hezbollah acusa a Arábia Saudita de forçar a renúncia do primeiro-ministro para desestabilizar o país. O resultado disso é a queda de um governo que legitimava o grupo e, por consequência, um golpe no próprio papel do Irã no Líbano, nação que faz fronteira com Israel, outro adversário de Teerã na região.

Desde a renúncia, Hariri não se pronunciou mais nem retornou a seu país, levantando rumores de que ele estaria sob custódia da Arábia Saudita. A crise fez o presidente da França, Emmanuel Macron, alterar de surpresa o programa de uma viagem ao Golfo Pérsico para ir "imediatamente" a Riad.

Além disso, a Arábia Saudita pediu para seus cidadãos residentes no Líbano abandonarem o país, assim como já fizera o Bahrein no último dia 5 de novembro. O Kuwait também adotou a mesma postura.

A mente por trás da ofensiva saudita

A Arábia Saudita é comandada oficialmente pelo rei Salman, de 81 anos, mas é consenso que o poder é exercido de fato pelo príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, 32, que se vende como um reformista que modernizará a sociedade e a economia do país.

No último domingo (5), um dia depois da renúncia de Hariri, uma comissão anticorrupção prendeu dezenas de membros da família real saudita e do governo sob a acusação de corrupção, em um ato interpretado como um expurgo promovido por Bin Salman, conhecido como "MBS", para eliminar possíveis adversários na disputa pela sucessão do rei.

Suas ações do último fim de semana indicam que, mais do que "modernizar" a Arábia Saudita, o príncipe herdeiro pretende pavimentar seu caminho ao trono, afastando rivais e unindo a sociedade em torno de um inimigo comum: o Irã. (ANSA)

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