Retrospectiva/2017, o ano que as 'fake news' viraram notícia

Informações falsas foram usadas para manipular votações no mundo

Donald Trump popularizou o termo "fake news" no mundo (foto: ANSA)
13:09, 28 DezSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - Se há um termo que entrou para o vocabulário de pessoas do mundo todo em 2017, este é "fake news". De bordão de Donald Trump a preocupação para redes sociais e sistemas eleitorais planeta afora, as notícias falsas marcaram um ano repleto de suspeitas de influências externas no voto popular.

O termo já era conhecido no fim de 2016, quando começaram a surgir denúncias de que "fake news" plantadas por hackers russos supostamente patrocinados pelo Kremlin teriam influenciado o processo eleitoral norte-americano, em benefício de Trump.

No entanto, em 2017, o presidente tentou assumir para si o monopólio sobre o termo, ao usá-lo para acusar a imprensa de publicar notícias falsas contra ele. Da "CNN" ao jornal "The New York Times", veículos de imprensa liberais (no sentido norte-americano da palavra) passaram a ter sua credibilidade questionada publicamente por um mandatário que via o escândalo da Rússia se aproximar de seu gabinete.

"Quando a Lupa foi criada, em novembro de 2015, tinha certeza absoluta que isso ia se tornar um problema. Mas o Donald Trump levou o problema a uma escala irreversível em 2017", diz Cristina Tardáguila, diretora da agência de fact-checking Lupa. Mas não parou por aí. O termo passou a ser usado por políticos e cidadãos do mundo todo para desacreditar informações publicadas pela imprensa.

As "fake news" se tornaram presença frequente nos debates do Brexit, no processo separatista na Catalunha, nas eleições presidenciais na França, na crise diplomática entre Arábia Saudita e Catar, na tensão nuclear com a Coreia do Norte e na acalorada disputa política no Brasil.

Na Itália, o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi declarou publicamente que teme que as notícias falsas interfiram nas eleições de 2018, após o "NYT" ter publicado uma reportagem ligando plataformas de "fake news" a ativistas do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) e da ultranacionalista Liga Norte - por sua vez, esses dois partidos chamaram a acusação de "notícia falsa".

O termo entrou para o léxico até do Vaticano, a ponto de a Santa Sé pedir uma "reflexão" sobre o uso de "informações infundadas" para "alimentar a polarização das opiniões".

Combate

De outro lado, as empresas de tecnologia e as próprias instituições começam a se mexer para combater o fenômeno das fake news. No Brasil, país onde a população mais se preocupa com as notícias falsas, segundo uma pesquisa de setembro da "BBC", o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou um grupo para estudar formas de combater a ação de informações enganosas nas eleições de 2018.

Na Itália, o partido do governo que aprovar uma lei que prevê multas milionárias para redes sociais que permitirem a divulgação de notícias falsas, seguindo um modelo semelhante adotado na Alemanha.

O projeto levanta temores sobre possíveis violações da liberdade de expressão, mas as próprias empresas da internet já começam a se movimentar. O Facebook, por exemplo, passou a testar a sinalização de fake news para usuários norte-americanos com um "sinal de perigo" - a rede social de Mark Zuckerberg já admitiu que agentes do governo a usaram para disseminar notícias falsas.

Na imprensa, as agências de fact-checking ganham cada vez mais espaço, se aproveitando da crise na indústria jornalística, com enxugamento das redações, diminuição do espaço no papel e dificuldade para vender publicidade, o que atrapalha a produção diária de notícias.

"Somada a isso, tem a realidade do momento político-econômico no Brasil, com uma crise em cima da outra. Os jornais recorrem à Lupa nesse intuito, para complementar seu trabalho", afirma Tardáguila. (ANSA)

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