Especial/Quem é quem nas eleições na Itália?

País escolherá novo primeiro-ministro em 4 de março de 2018

Matteo Renzi tenta conter queda nas pesquisas e recuperar prestígio (foto: ANSA)
20:22, 28 DezSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - O presidente da Itália, Sergio Mattarella, dissolveu o Parlamento nesta quinta-feira (28) e assinou o decreto que convoca eleições para 4 de março de 2018, dando início a uma disputa que se desenha bastante acirrada.

Nem todos os partidos definiram seus candidatos a primeiro-ministro, mas já é possível saber quais figuras devem concentrar as atenções durante a campanha do ano que vem. Confira abaixo:

Matteo Renzi

Primeiro-ministro entre fevereiro de 2014 e dezembro de 2016, Renzi, 42 anos, acalenta o sonho de retornar ao Palácio Chigi e chegou a pressionar por eleições antecipadas já em 2017, mas teve o ímpeto contido por Mattarella.

Também ex-prefeito de Florença, ele é líder da maior legenda política da Itália, o Partido Democrático (PD), que une sob o mesmo guarda-chuva diversas alas da esquerda no país, desde ex-comunistas e socialistas até sociais-democratas e egressos da antiga Democracia Cristã.

Das grandes siglas italianas, é a mais heterogênea, com grupos ligados a sindicatos, ao mundo empresarial, à Igreja Católica, entre outros. Ao longo do último ano, o PD perdeu pedaços importantes em suas facções mais à esquerda e tradicionais, descontentes com o estilo agressivo de Renzi, que ganhara fama nacional com o apelido de "reciclador".

As brigas internas, a derrota no referendo constitucional de 2016 e o ano longe do governo corroeram a popularidade de Renzi, que de 40% nas eleições europeias de 2014 caiu para cerca de 25% nas últimas pesquisas. O ex-premier também tem tido dificuldades para fechar alianças, o que compromete seu desejo de voltar ao cargo, já que nenhum partido deve ter maioria absoluta no Parlamento.

Luigi Di Maio

Provável candidato mais jovem ao posto de primeiro-ministro, o vice-presidente da Câmara dos Deputados tem 31 anos e uma curta trajetória na vida pública - apenas um mandato como parlamentar, iniciado em 2013.

Pupilo do palhaço Beppe Grillo, ele liderará o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) nas eleições do ano que vem e é criticado por seus rivais pela pouca experiência e por não ter terminado nenhum curso universitário.

Di Maio tem um perfil mais "moderado" que o irascível Grillo e foi escolhido candidato em uma votação online entre os filiados do movimento no blog do palhaço. Ele deve calcar sua campanha na proposta da "renda de cidadania", que prevê que todas as pessoas maiores de 18 anos e que estiverem abaixo da linha da pobreza recebam um benefício mensal para sair dessa condição.

O M5S lidera quase todas as pesquisas para 2018, mas sem ultrapassar o patamar de 30%, número insuficiente para permitir que o movimento governe sozinho - o partido é historicamente refratário a alianças.

Matteo Salvini

Outro representante da nova geração da política italiana, o eurodeputado da ultranacionalista Liga Norte tem 44 anos e representa as forças anti-imigração. Salvini assumiu o comando da Liga em 2013 e praticamente abandonou seu histórico pleito pela independência da Padania, planície situada no norte da Itália.

Ao invés disso, promoveu uma guinada à extrema direita, defendendo o fechamento das fronteiras italianas para migrantes forçados, o fim das operações de resgate no Mediterrâneo e a saída do país da zona do euro. Além disso, capitaneou a oposição contra a lei de uniões civis entre homossexuais e lutou para barrar o projeto que introduziria o "jus soli" na legislação.

Ele também propõe a castração química de estupradores, o protecionismo econômico à la Trump e, no âmbito europeu, costurou uma aliança com a francesa Marine Le Pen (Frente Nacional) e o holandês Geert Wilders (Partido para a Liberdade), símbolos do euroceticismo na UE.

Nas pesquisas, a Liga flutua entre a terceira e a quarta posições, com 12% a 15% das intenções de voto. O número não permitiria ao partido vencer as eleições, mas as sondagens também apontam que uma eventual aliança com a centro-direita de Silvio Berlusconi poderia sobressair nas urnas.

Salvini precisa chegar à frente do ex-premier para conseguir se lançar como primeiro-ministro em uma possível coalizão conservadora.

Pietro Grasso

Ex-membro do PD, o presidente do Senado, de 72 anos, liderará uma coalizão de esquerda formada por partidos que nasceram de dissidências da legenda de Renzi. Grasso é o segundo na hierarquia do Estado desde 2013 e trabalhou como procurador nacional antimáfia entre 2005 e 2012.

Apesar de ser septuagenário, ele tem uma curta trajetória na política e cultiva a imagem de "homem das instituições" - Grasso chegou a ser cogitado como primeiro-ministro para aplacar a crise gerada pela renúncia de Renzi.

Sua saída do PD se deu por divergências em relação à reforma eleitoral patrocinada pela sigla e com seu "modus operandi" no Parlamento - nos projetos mais importantes, a legenda, sob comando de Renzi, sempre apelava para o "voto de confiança", que impede a apresentação de emendas e restringe o debate parlamentar.

Sua coalizão, a Livres e Iguais (LeU), com menos de um mês de vida, já tem cerca de 7% das intenções de voto, apoio que é roubado justamente do PD. Se Grasso se sair bem nas urnas, é provável que Renzi tenha menos chances de voltar ao governo, a não ser que consiga costurar uma aliança com os dissidentes.

Silvio Berlusconi

Inelegível até 2019, o ex-primeiro-ministro conservador de 81 anos pode ter papel determinante em 2018. Seu partido, o Força Itália (FI), é o terceiro ou quarto mais popular do país, dependendo da pesquisa. Ainda não se sabe quem será o candidato do FI a chefe de governo, mas Berlusconi já ventilou o nome do general Leonardo Gallitelli, ex-comandante da Arma dos Carabineiros e que nunca exerceu cargos políticos.

No entanto, se a Corte Europeia de Direitos Humanos reverter sua inelegibilidade antes de 4 de março - o julgamento já foi feito, falta apenas a sentença -, o próprio Berlusconi poderia pleitear a poltrona de primeiro-ministro, caso seu partido vença. No ano que vem, o Força Itália tentará superar a Liga Norte para ganhar o direito de liderar uma eventual aliança da direita.

Paolo Gentiloni

O discreto primeiro-ministro de 63 anos ficará no poder até que um novo governo seja criado, mas não deve concorrer a nenhum cargo nas eleições. Apesar de, segundo as pesquisas, Gentiloni ser a liderança política na qual a população mais confia, ele pertence ao PD, partido dominado pelas pretensões de Renzi.

Contudo, começam a surgir rumores de que alguns grupos estariam pressionando o ex-primeiro-ministro a ceder a candidatura para seu sucessor e, assim, estancar a queda do partido nas sondagens. O nome de Gentiloni também pode ganhar força caso ninguém consiga formar uma aliança após as eleições, já que seu perfil institucional seria mais aceitável para os dissidentes do PD e para a centro-direita.

Sergio Mattarella

Na Itália, o presidente da República é escolhido pelo Parlamento, e seu mandato não estará em jogo em 2018. No entanto, apesar de ter um papel mais institucional e afastado do dia a dia do jogo político, Mattarella ganhará importância caso a fragmentação prevista pelas pesquisas se confirme.

Cabe ao chefe de Estado designar o primeiro-ministro, baseado no resultado das urnas. Se nenhum partido tiver uma maioria clara, ele escolherá aquele que se mostrar mais capaz de formar um governo de coalizão.

Em março de 2013, após o secretário do PD na época, Pier Luigi Bersani, fracassar nas negociações, o então presidente Giorgio Napolitano encarregou o segundo na hierarquia do partido, Enrico Letta, pouco conhecido entre os italianos, ignorando os apelos do M5S, segundo partido mais votado.

Por conta disso, Napolitano virou "persona non grata" no movimento. (ANSA)

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