Entrevista/Fausto Longo

O senador Fausto Longo agora é candidato a deputado
O senador Fausto Longo agora é candidato a deputado (foto: Reprodução/Facebook)
14:25, 21 FevSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - Fausto Longo, senador da República Italiana desde 2013, agora é candidato a deputado pelo centro-esquerdista Partido Democrático (PD).

Arquiteto e urbanista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pela Fundação Belas Artes, Longo foi coordenador do Partido Socialista Italiano (PSI) na América do Sul e chefe do departamento de meio ambiente e desenvolvimento sustentável da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O senador é natural de Amparo (SP) e já passou por cargos na Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de São Paulo e no Ministério da Ciência e Tecnologia.

As trocas comerciais entre Brasil e Itália caíram mais de 30% desde 2013, ano das últimas eleições legislativas italianas. O que o senhor propõe para recuperar as relações entre os dois países no âmbito do comércio?

A primeira coisa é despertar na Itália a sensação daquilo que significa a América do Sul. Nós somamos 400 milhões de possíveis consumidores, 400 milhões onde 60 milhões são ítalo-descendentes. É um pecado que a Itália não perceba o potencial dessa comunidade de 60 milhões que, se bem trabalhados, poderiam ser o veículo da promoção e da difusão do consumo de produtos “made in Italy”. Eu acredito que, se houver um pouco mais de agressividade na postura da Itália em entrar no mercado sul-americano, certamente será um benefício muito grande para a própria Itália.

Qual é a proposta do senhor para aproximar Brasil e Itália na cultura e no turismo?

Como eu já disse, nós temos 60 milhões de ítalo-descendentes vivendo na América do Sul, agora você me pergunta particularmente sobre o Brasil. Eu sempre falo América do Sul, porque é um potencial real que a nossa circunscrição eleitoral, vamos dizer assim, oferece. Eu acredito que a primeira coisa e mais importante é a Itália tentar respeitar mais a tradição de nós, italianos, que viemos para o Brasil. Nós não viemos aqui por uma aventura meramente atravessando os oceanos, nós viemos aqui para reconstruir a nossa vida porque a Itália não oferecia mais esperança.

Nos últimos anos, apenas um primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, veio ao Brasil, e por causa das Olimpíadas. A Itália negligenciou as relações com o Brasil e vice-versa?

Eu acho que é uma relação bastante pobre entre os dois países, e ela precisa ser enriquecida. Agora, o Matteo Renzi, como primeiro-ministro, esteve no Brasil. Mas, além dele, esteve aqui o [Paolo] Gentiloni quando era ministro, estará aqui agora, na próxima semana, o [Angelino] Alfano, representando esse governo. Esteve aqui Maria a Elena Boschi, como ministra, esteve aqui o Riccardo Nencini, como vice-ministro da Infraestrutura. Na verdade, houve uma preocupação. Lógico que existe um longo percurso a ser percorrido para que a gente tenha, na verdade, uma relação um pouco mais equânime, um pouquinho mais de cada país aproveitar melhor a expertise e a potencialidade que têm.

As eleições de outubro no Brasil podem facilitar a retomada das relações com a Itália?

Eu adoraria ter uma bola de cristal. Dependendo de quem vai ser o próximo governo, de qual é a característica desse próximo governo... Eu espero que o povo brasileiro tenha consciência de que nós devemos desenhar um futuro candidato que tenha um comprometimento em fazer com que o Brasil tenha uma política internacional de uma inserção um pouco mais séria, um pouco mais contundente, inclusive do ponto de vista mercadológico. Eu acredito que a Itália pode ser, até pela característica da quantidade de italianos que existem no Brasil, a Itália pode ser a porta de entrada para o nosso país, para o Brasil, para o grande mercado que significa o mercado europeu.

O senhor é a favor da extradição de Cesare Battisti pelo governo brasileiro?

Sim, sou a favor.

Os defensores de Battisti acusam a Itália de tentar interferir nas instituições do Brasil ao pedir novamente sua extradição, mesmo depois das decisões tomadas pelo presidente da República (Lula) e pelo Supremo Tribunal Federal. O que o senhor pensa dessa visão?

Eu vou começar assim: eu acho que cada ser humano não tem o direito de tirar de ninguém aquilo que não pode devolver. Então, se alguém tirou a vida de alguém, deve pagar por isso, pela justiça humana, vamos dizer assim. Então eu sou a favor de que a Itália lute para que o Battisti pague por seus erros na Itália. Eu não perdoo, como ser humano, quem tirou a vida de outro ser humano. Não perdoo e jamais perdoarei.

A comunidade de ítalo-descendentes no Brasil reclama bastante das filas para reconhecimento de cidadania nos consulados. O que o senhor propõe para melhorar essa situação?

A primeira coisa é que a gente já conseguiu avançar bastante, já nesta legislatura, aprovando o aumento de recursos para contratação de 350 novos funcionários para toda a rede consular da Itália no mundo. Também conseguimos obrigar, quer dizer, o governo, que não estava, efetivamente, apressado em cumprir sua tarefa no sentido de garantir a transferência dos recursos obtidos com os 300 euros pagos pela taxa da obtenção do reconhecimento da cidadania. E agora temos o ministro Alfano chegando em Brasília na próxima semana, já anunciando ao embaixador Antonio Bernardini que a primeira remessa desse recurso deverá chegar.

O senhor é a favor da imposição de um limite de geração à concessão de cidadania jus sanguinis, como propôs um senador italiano no fim do ano passado?

Eu acho que nós temos um direito constitucional, e a Constituição italiana não está em discussão. E se a gente quiser mexer com a Constituição italiana, eu proponho que se realize uma assembleia constituinte, e ela rediscuta aquilo que está na Constituição. O direito à transmissão da cidadania está garantido constitucionalmente, e eu não acredito que seja discutível. Sou contra qualquer tipo de limitação, de subtração dos direitos conquistados há tanto tempo.

Um dos projetos que ficaram pendentes na última legislatura italiana foi o do jus soli. Se eleito, o senhor defenderá a aprovação dessa lei?

Apoio, voto, e acho que o jus soli é uma demonstração de maturidade política e humanitária da Itália.

Nos últimos anos, a Itália foi destino de um dos maiores deslocamentos em massa desde a Segunda Guerra Mundial. Qual, na visão do senhor, deve ser a postura do governo para lidar com a crise migratória e de refugiados no Mediterrâneo?

A primeira coisa é sensibilizar o conjunto de governos da Europa de que esse não é um problema isolado da Itália. É um problema que inclusive pode garantir uma certa estabilidade ou instabilidade da própria Europa. Eu acho que legalizar, promover, ajudar essa massa que hoje tem origem em diversos países e por diversos motivos e que vem à Europa em busca de uma nova esperança, esse percurso a Itália já fez no passado. A Itália teve o mesmo problema e ela foi recebida em qualquer lugar que ela foi no mundo. Eu acho que é hora de a Itália dar um exemplo para o mundo e fazer a mesma coisa para os povos que ali chegam.

Quem é o candidato ou candidata do senhor a primeiro-ministro nas eleições de março?

Eu gostaria de ver um jovem agressivo, que tem propostas, é ousado para propor mudanças e só tem um nome: é o Matteo Renzi. (ANSA)

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