'Empresas italianas não esperam a política', diz gestor

Graziano Messana falou sobre cenário após eleições na Itália

Graziano Messana, CEO da GM Venture e vice-presidente da Italcam
Graziano Messana, CEO da GM Venture e vice-presidente da Italcam (foto: Divulgação)
16:35, 08 MarSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - O resultado das eleições de 4 de março na Itália consagrou partidos antissistema e populistas, mas, como já se esperava, produziu um cenário que pode aumentar a instabilidade política no país.

Nenhum partido ou coalizão conseguiu maioria no Parlamento para governar, o que exigirá alianças com grupos rivais para que a Itália tenha um novo primeiro-ministro sem que os cidadãos tenham de ir às urnas novamente.

"Um cenário poderia ser de um governo técnico para aprovar uma nova lei eleitoral e convocar eleições novamente", afirma Graziano Messana, CEO da GM Venture, que administra negócios de companhias estrangeiras no Brasil, e vice-presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura (Italcam).

Na entrevista abaixo, ele fala sobre o cenário político na Itália e as perspectivas de investimentos das empresas do país europeu no Brasil:

ANSA: Que avaliação o senhor faz do quadro pós-eleições na Itália?

Messana: Não há uma coalizão ou partido com maioria absoluta, seja na Câmara (316 deputados), seja no Senado (161 senadores). Embora a centro-direita tenha tido mais cadeiras em ambas as câmaras, não chega a ter maioria para governar. Dentro dessa coalizão, a Liga Norte cresceu, atingindo 17%, e o partido de Berlusconi [Força Itália] ficou com 14%. Mas a grande novidade é o Movimento 5 Estrelas, que, com mais de 32%, se tornou o primeiro partido. A centro-esquerda teve uma derrota expressiva com a queda do partido do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi [PD], que anunciou sua renúncia ao comando do partido.

ANSA: Que desafios o M5S terá para conseguir formar um governo?

Messana: O grande desafio para o M5S é agora. Eles têm que demonstrar que podem governar e, para isso, devem fazer alianças, coisa nada fácil. Ou podem apostar em novas eleições para tentar aumentar seus votos e chegar à maioria absoluta. Ambas as estradas são difíceis e cheias de perigos para um movimento que nunca teve responsabilidade de governo em nível nacional.

ANSA: Na visão do senhor, quais os cenários possíveis para as negociações de governo na Itália?

Messana: Se todo mundo se mantiver fiel às posições anunciadas antes das eleições, o Partido Democrático [PD] não deveria apoiar o M5S. A Liga ficará na coalizão com Berlusconi e também não deveria apoiar o M5S - e tomara que isto não aconteça, porque ambos são partidos que remam contra a União Europeia. Resumindo, não se teria uma composição firme para governar, e um cenário poderia ser de um governo técnico para aprovar uma nova lei eleitoral e convocar eleições novamente. Mesmo tendo sido derrotado nas urnas, o PD será o fiel da balança. Temos três cenários possíveis: aliança com a centro-direita, com o Movimento 5 estrelas ou ficar na oposição. Essa ultima é a escolha declarada pelo secretario do partido, Matteo Renzi. Se assim for, parece inevitável que a Itália deverá votar de novo, o que assusta os mercados.

ANSA: Ainda que os partidos consigam formar um gabinete, a Itália corre o risco de ter um governo instável mais uma vez?

Messana: A situação que temos agora na Itália é filha de um sistema eleitoral e de uma arquitetura institucional que têm de ser aprimorados e que não estão funcionando bem. Uma coisa que tem que ficar claro é que cada parlamentar recebe a confiança na pessoa, não no partido. Ele é livre durante a legislatura para mudar de partido, passar de esquerda para a direita e vice-versa, se organizar em grupos que podem ameaçar a maioria criada e derrubar governos facilmente. Não existe mais a caracterização ideológica da "Primeira República" desde 1992, quando a operação Mãos Limpas destruiu os partidos tradicionais. Isso provoca um grande "transformismo" parlamentar.

ANSA: Como esse cenário pode influenciar nos investimentos de empresas italianas no Brasil?

Messana: No Brasil, temos a sorte de ter um "Sistema Itália" muito válido. Falo da ação de Embaixada, Consulado, Italian Trade Agency e Câmara de Comercio, que, nos últimos anos, apoiaram muito o intercâmbio entre os países. O embaixador Antonio Bernardini foi extremamente ativo e determinado nesse complexo período de crises brasileiras e plantou muitas sementes boas.

Em vários setores, as empresas italianas não esperaram a política, como a Gavio, que controla a EcoRodovias e em janeiro investiu mais R$ 883 milhões; e a Granarolo, maior operador agroindustrial da Itália, que adquiriu 60% da Allfood aqui no Brasil. No setor financeiro, o principal banco italiano, o Intesa Sanpaolo, investiu no Brasil olhando no longo prazo, transformou sua filial em banco múltiplo e cresceu, apoiando várias empresas italianas. E o grupo Azimut adquiriu quatro empresas no Brasil e hoje tem R$ 7 bilhões em recursos administrados.

ANSA: Que setores apresentam mais oportunidades para investimentos italianos no Brasil?

Há um terreno fértil para negócio, e a experiência e o potencial das empresas italianas podem fazer a diferença. O brasileiro olha para o estilo de vida italiano, gosta de tecnologia, e vem crescendo o uso da automação residencial e comercial. Cosméticos, segurança digital, energias renováveis e internet das coisas são setores onde as empresas italianas estão com vantagem competitiva para entrar no Brasil, além das tradicionais "3F" ["Fashion, food and furniture", ou "moda, comida e móveis"]. (ANSA)

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