Rio é 'exuberância', diz ex-diretor do Carnaval de Veneza

Davide Rampello comparou festa nas cidades italiana e brasileira

Rio é 'exuberância', diz ex-diretor do Carnaval de Veneza.
Rio é 'exuberância', diz ex-diretor do Carnaval de Veneza. (foto: Divulgação )
21:21, 10 AbrSÃO PAULO Beatriz Farrugia

(ANSA) - O Carnaval de Veneza, teatral. O do Rio, exuberante. É assim que o italiano Davide Rampello, ex-diretor artístico de uma das festas carnavalescas mais famosas da Europa, vê a diferença entre duas das cidades que melhor representam o espírito dessa época do ano em todo o mundo.

Em visita recente ao Brasil por ocasião do Italian Design Day, Rampello, que comandou o célebre Carnaval de Veneza entre 2011 e 2015, falou com a ANSA sobre sua vivência no cargo e as comparações com o Rio. "São dois carnavais completamente diferentes, mas ambos são fascinantes", disse.

Rampello também foi curador do Pavilhão Zero da Expo Milão 2015 e diretor televisivo na emissora pública "Rai" e no grupo privado de Silvio Berlusconi, o que lhe deu uma ampla visão sobre a cultura italiana dos dias de hoje.

Na entrevista, ele também faz críticas à produção literária e cinematográfica contemporânea do país, mas elogia suas excelências gastronômicas e na moda. Confira:

ANSA: Por que o Carnaval de Veneza é tão único?

Rampello: É tudo muito teatral, muito fechado neste maravilhoso ar que a cidade tem. Veneza é a única cidade do mundo que pode permitir isso. A cidade é como se estivesse parada, intacta. Não tem nenhum sinal que a aproxime de certas coisas que caracterizam as cidades. O barulho dos carros... Não há carros, não há motos, não há bicicletas, não há nada. Uma pessoa, dentro de uma fantasia, se perde dentro das ruas e praças.

ANSA: Existe algum paralelo entre os carnavais do Rio e de Veneza, que são tão diferentes?

Rampello: A palavra carnaval vem do latim "carnem" e "levamen", ou seja, tirar a carne. É o momento em que você corta a carne para iniciar a Quaresma, o jejum, a penitência. Os dias anteriores são aqueles em que cada um perde o próprio sentido: come, bebe, faz amor, canta e dança. É uma explosão máxima de sentidos. Essa é a base. Em Veneza, o elemento fundamental é o uso da máscara, mas não apenas uma máscara: uma máscara branca ou preta e um manto negro com um capuz. Juntos, eles se chamavam "bauta". E andava-se assim do início de outubro até o fim da Quaresma, ou seja, cinco meses. E todos saíam iguais. E quando todos estão iguais, ficam invisíveis. O jogo é esse, não ser visto. Essa é a raiz de Veneza.

O do Rio, eu nunca vi, somente em fotos. No Rio, se alguém coloca uma fantasia, é porque é muito bela, para ficar mais belo. É como eu dizia antes: danças, músicas, a exuberância da beleza e do sexo, a exibição do sexo, como um triunfo da liberdade. E a liberdade não é apenas a exibição do sexo, mas também a crítica. Os carros alegóricos fazem críticas ao poder, como era na "comédia da arte". São dois carnavais completamente diferentes, mas ambos são fascinantes. Eu, como nunca fui no Carnaval do Rio, tenho muita curiosidade de conhecer, porque me fascina muito a ideia - como me fascinava [em Veneza] entrar em algo que me transportava para outra dimensão - de me abandonar a sentir meus sentidos, que é uma experiência muito forte.

ANSA: É sua primeira vez no Brasil?

Davide Rampello: Estive no Rio nos anos 1980, em um projeto com um escritor. Fiquei uns 40 dias no Rio, no Leblon. Em São Paulo, vim mais vezes, porque eu queria abrir uma sede da "Triennale di Milano" aqui. Tenho lembranças muito boas.

ANSA: Quais oportunidades o senhor vê hoje no Brasil?

Rampello: Há uma oportunidade de trabalhar em projetos grandes. Hoje, acho que o Instituto Europeu de Design (IED) do Rio e de São Paulo podem fundar um projeto de design de turismo, que abriria o caminho para outros setores. O Rio e o Brasil em si têm um patrimônio natural único no mundo, além de toda a cultura indígena, que mantém uma relação sacra com a natureza. Também tem a questão da sustentabilidade. Frutas, artesanato, culturas de outros países, japoneses, italianos, que se estabeleceram aqui. Um projeto assim, de design de turismo, com sustentabilidade, pode ajudar muito o Brasil. O IED é alguém que pode fazer isso. É uma ocasião que os brasileiros não podem perder. Tudo é possível, precisa apenas ter vontade.

ANSA: A arte ficou mais democrática com a tecnologia e as redes sociais?

Rampello: Precisamos saber primeiro o que se entende por democrático. Na cultura grega, a política era espaço para os melhores. Hoje, dentro do conceito de democracia, há muita confusão. Quando aconteceu a tentativa de golpe de Estado na Turquia, o presidente discursou ao povo com uma faixa atrás escrita "Democracia Turca". Ou seja, qualquer pessoa pode pegar para si esse conceito de democracia. Hoje esse termo é muito abusado e mal usado, e sobretudo mal entendido.

A democracia, acima de tudo, é conhecimento e consciência. Voltando à arte: a internet, ou seja a conexão, mais que servir ao homem, serve às multinacionais que a criaram. Não temos mais relações pessoais. Temos só relações impessoais. O que vale mais: uma sociedade na qual os homens são comunidade, ou uma sociedade onde os homens não são mais comunidade? Essa é uma pergunta que devemos fazer.

É a mesma coisa com a arte. Cada momento histórico, através da arte, interpretou o mundo. E, através da linguagem artística, contou a vida. Então, hoje, que sentido damos às artes? Essa pergunta abre um diálogo, uma análise, uma reflexão, mas não tem uma resposta.

ANSA: O que você pensa da produção artística italiana neste momento, de uma maneira geral, a TV, o cinema, a arte?

Rampello: A produção artística italiana tem, em certos âmbitos, alguns momentos elevados, mas outros banais. O cinema italiano, francamente, o vejo bastante frágil. Não vejo uma corrente. Se eu penso na época do pós-Guerra, quando o cinema italiano era verdadeiramente o espelho cultural de um país, com uma série de diretores e atores formidáveis, hoje, se fizéssemos uma lista, seria muito penosa.

ANSA: O senhor acha que essa situação reflete o momento atual da sociedade e da política italiana?

Rampello: Absolutamente. Hoje há muita vivacidade em determinados setores. As empresas de design são uma grandíssima realidade, bem como a manufatura ligada à moda é extraordinária. Se eu penso nas joias italianas, nas bolsas, nos sapatos, tecidos, óculos, a Itália é líder de mercado em todos esses setores. Essa é a parte criativa "saudável". Outro setor que está se desenvolvendo é o agroalimentar. Iniciativas como "Slow Food" ou empresas como "Eataly", o fato de termos tido uma exposição universal dedicada à comida [Expo Milão 2015], tudo isso é fortemente valorizado. Essas são as artes formidáveis hoje na Itália. Mas o cinema não é uma arte que hoje... A literatura, muito frágil. Talvez a poesia, mas a poesia é muito esquecida na Itália, o que é um sinal de grande incivilidade.
Mas temos uma grandíssima cultura musical e teatral. Os teatros italianos são fantásticos. Cada cidade tem um teatro.

ANSA: Qual cidade, na sua visão, representa as qualidades da produção italiana atualmente?

Rampello: Milão representa muito bem o que pode ser o melhor da Itália, porque hoje é uma cidade que exprime energia e contínua mudança. Foi sempre uma bela cidade. Uma cidade tão pequena, com 1,3 milhão de habitantes, tem nove universidades, 220 mil estudantes, a maior concentração de editoras, milhares de pessoas que dialogam diariamente com cientistas, articulistas, e todo o mundo do design, da moda, da comida e das compras. O Salão do Móvel é, ainda hoje, o mais importante evento cultural do país, da Europa, muito mais que a Bienal de Veneza, pois traz inovações de materiais, de técnicas, de processos, de projetos. É construção de imaginário, mas também é comércio. Em uma semana, quase 400 mil pessoas se reúnem em Milão, isso é um dado formidável.

ANSA: Com relação ao Brasil, do que você gosta da nossa arte?

Rampello: Sou muito fascinado por esse milagre da criação no meio do nada de Brasília, mas com formas puríssimas que, ainda hoje, são absolutamente vivas. E eu estive no Masp [em São Paulo] ontem e devo dizer que essa arquitetura tão brutalista é um pouco ignorada, dessa mulher extraordinária, Lina Bo Bardi, não suficientemente conhecida na Itália. Me marcou muito. No sentido geral, tenho algo que sempre levei comigo sobre o Brasil, que é, de um lado, uma grande inocência, mas também uma grande imaturidade - e isso conservamos dos indígenas. E a imaturidade leva ao esquecimento e até mesmo à violência. Se você é imaturo, não compreende. (ANSA)

Todos los Derechos Reservados. © Copyright ANSA