2018: Da ameaça de guerra à esperança de paz

Coreias e EUA passaram o ano desarmando as tensões de 2017

Cúpula entre Kim Jong-un e Donald Trump em Singapura, no dia 12 de junho (foto: EPA)
08:23, 27 DezSÃO PAULO Por Lucas Rizzi

(ANSA) - O ano de 2017 terminara com a perspectiva de uma guerra de proporções catastróficas na Península da Coreia. Passados 12 meses, no entanto, nunca foi tão grande a esperança de paz entre Coreia do Norte, Coreia do Sul e Estados Unidos, ao menos neste século.

Desde 29 de novembro do ano passado, quando o regime de Pyongyang testou com sucesso um míssil capaz de atingir todo o território americano, Kim Jong-un se reuniu com o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, em três ocasiões e teve uma cúpula histórica em Singapura com o mandatário dos EUA, Donald Trump, a primeira entre líderes dos dois países desde a Guerra da Coreia (1950-1953).

Na ocasião, Kim e Trump se comprometeram com a paz e a desnuclearização da península e iniciaram uma relação que em nada lembra as ameaças de destruição mútua do ano anterior. "Nos apaixonamos", brincou o presidente-magnata no fim de setembro.

“Trump entende que passos efetivos podem ser dados com essa aproximação pessoal. Ele tem procurado investir nesse relacionamento [com Kim], confiando em sua própria capacidade de convencimento”, explica Tânia Manzur, professora adjunta do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (Irel-UnB).

A especialista explica que as desconfianças mútuas ainda são “muito grandes” e que dos dois lados existem pressões para que ninguém dê o “primeiro passo”, mas a aparente tentativa de aproximação pessoal por parte do presidente sugere uma forma de tentar minimizar a hostilidade nas relações bilaterais.

“Eu entendo que há uma percepção no governo Trump de que, com Kim, é preciso trabalhar também na perspectiva da confiança”, diz Manzur.

Reaproximação

No último dia de 2017, Kim disse em sua mensagem de fim de ano que desejava boa sorte à Coreia do Sul na realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, que aconteceriam em fevereiro.

A declaração abriu as portas para negociações entre os coreanos e, enquanto Trump passava os primeiros dias do ano tentando provar que seu botão nuclear era "maior e mais poderoso", Norte e Sul colocaram em marcha ações para reduzir a tensão.

Ao longo deste ano, as Coreias desfilaram - e até competiram - juntas nas Olimpíadas de Inverno, restabeleceram a comunicação militar, anunciaram um plano para modernizar rodovias e ferrovias e já discutem inclusive a ideia de sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2032.

Na relação com os EUA, Kim restituiu restos mortais de soldados que morreram na Guerra da Coreia e libertou prisioneiros americanos. Na Casa Branca, a avaliação é de que a perspectiva de paz é fruto das sanções patrocinadas por Trump para sufocar o regime. Observadores internacionais, no entanto, acreditam que Kim aceitou negociar por já possuir sua principal arma de barganha: uma ogiva nuclear e um míssil capaz de levá-la até os Estados Unidos.

“Acredito que os dois elementos teriam contribuído para essa aproximação”, opina Manzur. Apesar da redução da tensão, Kim ainda não deu o menor indício de que pretende se desfazer de seu arsenal nuclear, uma exigência de Trump. Há indícios até de que o regime continua desenvolvendo armamentos.

Os EUA, por sua vez, não pretendem retirar suas armas atômicas nem diminuir sua presença militar na Península. “Essa continuidade do projeto nuclear era de se esperar. Trump está insistindo em um novo encontro para tentar botar mais claramente os pingos nos ‘is’. Tenho a impressão de que Trump está forçando a barra da aproximação porque quer que essas arestas sejam aparadas, mas entendendo que o instrumento de barganha que Kim tem é justamente o programa nuclear”, conclui a professora da UnB. (ANSA)

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