2018: O ano de Trump contra todos

Líder dos EUA se envolveu em crises, ameaças e polêmicas

Especial/ 2018, O ano de ‘Trump contra todos’
Especial/ 2018, O ano de ‘Trump contra todos’ (foto: ANSA)
12:49, 26 DezSÃO PAULO Por Fernando Otto

ANSA) – Em 2018, os Estados Unidos viveram o segundo ano da “era Trump”, mas esteve longe de ser um período tranquilo. Mais do que acordos, o magnata republicano colecionou confrontos no cenário internacional. Guerra comercial com a China, saída do acordo nuclear com o Irã, crise diplomática com a Turquia, ameaças à Coreia do Norte, renegociação às pressas do Nafta, saída do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas e crise com países árabes contrários ao reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, entre outras polêmicas.

“Dentro de casa”, Trump ainda enfrenta investigações sobre a interferência dos russos nas eleições de 2016, além das duras eleições de meio de mandato e dos já tradicionais confrontos com a imprensa, que culminaram na suspensão da credencial do repórter da CNN Jim Acosta para cobrir o dia-a-dia da Casa Branca.

Coreia do Norte - Enquanto, em 2017, Trump chamava o líder norte-coreano, Kim Jong-un, em comícios e fóruns internacionais de “Rocket man” (homem-foguete, em inglês), o ano de 2018 serviu para acalmar a relação.

Em junho, os dois presidentes realizaram uma cúpula em Singapura, na qual Kim aceitou reduzir gradativamente o programa nuclear do país. Em agosto, no entanto, a Organização das Nações Unidas (ONU) acusou o presidente do país asiático de seguir desenvolvendo armamentos. Mesmo assim, em setembro, Trump disse que ele e Kim estariam “apaixonados” e se davam muito bem.

“Trump é uma figura peculiar: uma hora gosta, em outra detesta. Se adotasse a postura que propalou, de que iria atacar a Coreia, ele causaria uma guerra que traria maiores custos aos norte-coreanos, mas também prejudicaria os norte-americanos internacionalmente porque eles seriam condenados moralmente”, diz Joaquim Carlos Racy, professor de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“Ele acabou adotando uma retórica semelhante à dos democratas: ‘melhor negociar, tratar bem e ver se a gente consegue alguma coisa com isso’. Prefere dizer que tem um amigo a um inimigo, mas isso é, na verdade, uma certa dificuldade que ele teve de resolver o problema como ele gostaria, com ameaças”, completou.

Guerra comercial com China - Desde a metade do ano, Trump está em atrito com a China e já impôs sobretaxas a US$ 250 bilhões em importações de produtos do país asiático, alegando que Pequim quebra patentes e não cumpre compromissos de abertura de mercado. “O Trump adota um estilo de negociação que é duro, militante. Ele deixa a corda esticar para depois relaxá-la. Não acredito que ele tenha interesse em uma ruptura, mas ele usa essa tática como instrumento de barganha”, explica Matias Spektor, coordenador da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

No mais recente capítulo da crise, a polícia canadense prendeu a diretora financeira da companhia chinesa de tecnologia Huawei, Meng Whanzou, a pedido dos Estado Unidos, que alegam que a companhia estaria violando as sanções comerciais do país contra o Irã. Washington acusa a Huawei, segunda maior produtora de smartphones do mundo, de colaborar com a inteligência chinesa por meio de seus produtos. O caso fez com que Pequim chamasse de volta seu embaixador em Washington, apesar da trégua na guerra comercial acertada por Xi Jinping e Donald Trump ao final da cúpula do G20. Os dois lideres concordaram em suspender por 90 dias o aumento das taxas a importações mútuas que seria realizado em janeiro. Em represália à prisão de Whanzou, a China já prendeu três cidadãos canadenses que estavam no país.

“É uma visão de mundo arcaica, na contra-marcha da história, que faz parte de um projeto. É claro que há interesses comerciais. Mas ele [Trump] quer colocar os republicanos numa posição hegemônica e isso é perigoso. Guerra com a China, negar o acordo com Irã... são questões que mesclam economia com política e envolvem inclusive questões militares”, afirma Joaquim Racy. “Trump Recuperou empregos no setor da indústria mas, no longo prazo, vai perder em serviços. Ao invés de ajudar, piora para o resto do mundo, pois eles [os EUA] ainda são detentores do padrão monetário internacional”, explica.

Acordo nuclear com Irã - Uma das decisões mais contestadas internacionalmente do presidente norte-americano foi a saída do acordo nuclear com Irã, firmado por Barack Obama em 2015 com o apoio de França, Rússia, Alemanha e Reino Unido.

Trump abandonou o tratado unilateralmente em maio, chamando-o de “desastroso” e causando uma crise diplomática até mesmo entre seus aliados.
Em julho, por meio do Twitter, o magnata republicano subiu o tom contra o presidente iraniano, Hasan Rohani, dizendo que o país sofreria “consequências como as que poucos sofreram na história antes” caso ameaçassem os Estados Unidos. O tuíte foi uma resposta a Rohani, que havia dito que um conflito contra o Irã seria “a mãe de todas as guerras”.

Assassinato de Jamal Khashoggi - O assassinato do jornalista do “The Washington Post”, Jamal Khashoggi, que era crítico do governo da Arábia Saudita e morreu no último dia 2 de outubro após entrar no consulado saudita em Istambul, na Turquia, também causou turbulência nas relações internacionais de Donald Trump.

O serviço de inteligência dos Estados Unidos acusa o filho do monarca e líder “de facto” do reino árabe, o príncipe herdeiro Mohammad Bin Salman, de estar por trás do crime, mas Trump reluta em admitir a culpa do aliado.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos aplicou punições a 17 suspeitos de envolvimento na morte, mas Trump se limita a dizer que o príncipe saudita “talvez tenha ordenado [o assassinato], talvez não”.

A Turquia, país em que Khashoggi foi morto, foi outro país que esteve na rota de conflito com a Casa Branca. A prisão do pastor evangélico norte-americano Andrew Brunson, que é acusado por Ancara de colaborar com grupos terroristas, fez com que Trump duplicasse as tarifas alfandegárias sobre as importações de aço e alumínio turcos, o que agravou a crise econômica no país. O presidente Recep Tayyip Erdogan acusou Washington de interferir na política local e também aplicou sobretaxas a produtos norte-americanos. Em outubro, no entanto, Ancara libertou Brunson, apesar de não ter obtido redução nas taxas nem a extradição do clérigo Fettulah Gulen, ex-aliado de Erdogan que vive nos EUA e é mentor de um grupo político considerado terrorista na Turquia.

Embaixada em Jerusalém - A relação com os países árabes, que nunca foi das mais amistosas com os EUA, piorou significativamente após a decisão de Trump de mudar a embaixada norte-americana em Israel, que ficava em Tel Aviv, para Jerusalém.

O território é considerado sagrado por islamismo, cristianismo e judaísmo, sendo que os dois últimos grupos religiosos disputam há séculos o domínio da cidade. A decisão foi recebida com entusiasmo pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e seguida por países como Guatemala e Austrália. O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, declarou em campanha que pretende mudar a representação brasileira para a cidade.

“Trump busca reforçar essa posição de que nossos aliados são nosso aliados: Arábia Saudita e Israel e nós os defenderemos contra os ‘bandidos’ todos, que são Irã, a Rússia, a China... Essa é uma mudança importante no padrão de política externa norte-americano que precisa ser sustentada de alguma forma. Ele joga com elementos vulgares mas isso tem por trás todo um pensamento que está sendo debatido pela sociedade norte-americana”, explica Joaquim Racy.
Eleições e interferência russa - O ano de 2018 também foi marcado por uma derrota importante para Donald Trump. O partido republicano, do qual o magnata faz parte, perdeu a maioria que tinha no Congresso, apesar de ter ampliado sua bancada no Senado, nas eleições de meio de mandato realizadas em novembro. O resultado teve influência das investigações conduzidas pelo procurador-especial Robert Mueller, que apuram uma possível interferência de hackers russos a serviço do governo de Vladimir Putin para favorecer a campanha de Trump à Casa Branca nas eleições de 2016.

“Se realmente ficar comprovado que houve uma intervenção por parte dos russos, com certeza isso vai prejudicar não só o Trump como também os republicanos. A eleição do Partido Democrata foi uma amostra disso”, explica Joaquim Racy. “Se não forem confirmadas as suspeitas de interferência russa, as posições do Trump ficam legitimadas”, acrescenta o professor.

Caravanas de imigrantes - Outra crise do governo Trump foi causada pelas caravanas de imigrantes que saíram de El Salvador, na América Central, com rumo à fronteira entre Estados Unidos e México. O objetivo deles é pedir asilo político aos Estados Unidos, devido à da violência dos carteis do narcotráfico, aos governos autoritários, como o da Nicarágua, e outras dificuldades que afetam as condições de vida deles. Mais de dez mil pessoas cruzaram cerca de 20 mil quilômetros a pé ou de carona desde o dia 13 de outubro. Ao chegarem à fronteira, depararam-se com um efetivo de polícia reforçado com mais de cinco mil agentes além de postos de imigração que limitavam o atendimento a cem pessoas por dia. Alguns tentaram pular os bloqueios, mas foram detidos por policiais norte-americanos. O caso fez com que Trump culpasse o Partido Democrata por não aprovar a destinação de mais de US$ 5 bilhões para a construção de um muro ao longo da fronteira com o México.

Renegociação do NAFTA - As relações com países da América do Norte começaram o ano instáveis, mas terminaram com a renovação do bloco econômico do continente, agora chamado de T-Mec, ou Acordo de Livre Comércio entre Estados Unidos, México e Canadá. Umas das bandeiras de Trump durante a campanha presidencial de 2016 foi a renegociação do Nafta, antigo tratado econômico que era classificado pelo mandatário como “o pior acordo já feito”. “Foi uma negociação de força. Para esses países [México e Canadá], é melhor ter os Estados Unidos como aliados do que tê-los contra”, analisa Joaquim Racy.

Imprensa - Além de líderes políticos, o governo de Trump também travou batalhas contra a imprensa. Em diversos tuítes, o presidente acusou veículos jornalísticos de espalharem “fake News” (notícias falsas, em inglês) o que levou um grupo de jornais liderado pelo “Boston Globe” e o “The New York Times”, além de outros 300 veículos de comunicação a escrever editorial em conjunto contra o presidente, com críticas à limitação da liberdade de expressão. Em novembro, o jornalista Jim Acosta teve sua credencial cassada pela Casa Branca após uma discussão durante uma entrevista coletiva. A permissão, no entanto, foi restituída após processo judicial movido pela emissora. (ANSA)

 

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