Em 100 dias, Bolsonaro volta atenções para política externa

Agenda internacional prevaleceu sobre a interna até o momento

Bolsonaro em sua visita à Casa Branca, em 19 de março de 2019
Bolsonaro em sua visita à Casa Branca, em 19 de março de 2019 (foto: EPA)
13:47, 10 AbrSÃO PAULO Beatriz Farrugia e Lucas Rizzi

(ANSA) - Há exatamente 100 dias, o capitão reformado Jair Bolsonaro subia a rampa do Palácio do Planalto para dar início a seu mandato como presidente do Brasil.

O político do PSL conseguiu vencer as eleições de outubro com 55,13% dos votos, mas, apenas três meses após sua posse, viu sua popularidade despencar. Além disso, em 100 dias de governo, Bolsonaro vivenciou impasses nos diálogos com o Congresso e rusgas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

A dificuldade em manter uma articulação política emperrou o andamento de pautas que eram algumas de suas promessas de campanha, como a reforma da Previdência.

Sem depender da articulação política nem de aprovações legislativas, a agenda externa acabou ganhando destaque no primeiro trimestre de seu mandato, já que decisões diplomáticas cabem praticamente apenas do presidente - as chamadas "canetadas".

"É surpreendente o foco nas relações exteriores, esse não foi um tema sobre o qual ele falou muito na campanha. E, nas últimas semanas, não faltaram notícias, viagens, um foco maior do que ele havia dado na campanha", diz, em entrevista à ANSA, Sérgio Praça, professor e pesquisador da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro (FGV-RJ).

Bolsonaro fez sua estreia internacional no Fórum de Davos, na Suíça, no fim de janeiro, ocasião em que seu breve discurso oficial foi duramente criticado pela imprensa e virou meme nas redes sociais.

Dois meses depois, em março, Bolsonaro cumpriu sua primeira viagem internacional de caráter bilateral, indo aos Estados Unidos. Com grande pompa e numerosa comitiva, o presidente se reuniu com expoentes da direita americana e não economizou elogios ao país e ao governo de Donald Trump, demonstrando explícito alinhamento.

Ao mandatário dos EUA, o brasileiro prometeu abrir mão de seu tratamento especial na Organização Mundial do Comércio (OMC) e autorizar o uso da base de Alcântara (MA), no Maranhão. Para casa, Bolsonaro trouxe o apoio de Washington à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ao fim, a viagem teve mais consequências ideológicas do que ações práticas.

Depois dos EUA, o Chile foi a segunda parada de Bolsonaro, com uma passagem apagada e marcada pela frieza do mandatário Sebastián Piñera, que chegou a criticar as falas do brasileiro sobre a ditadura militar (já depois da partida de Bolsonaro), e pela forte rejeição da oposição chilena.

Diplomacia ideológica

Apesar das críticas enfáticas durante a campanha eleitoral contra o que chamavam de "política externa ideológica" do governo do PT, Bolsonaro, seu guru Olavo de Carvalho e o chanceler Ernesto Araújo acabaram promovendo uma diplomacia baseada parcialmente nas próprias visões de mundo.

Ignorando tradições e recomendações do Itamaraty - Bolsonaro pretende trocar até uma dezena de embaixadores brasileiros -, o novo governo do PSL tem tomado decisões que vão contra a história do país na diplomacia mundial.

Esse cenário ficou mais evidente na terceira e mais recente viagem bilateral de Bolsonaro, para Israel, entre o fim de março e o início de abril. Excluindo locais muçulmanos de seu roteiro, o brasileiro demonstrou total apoio aos israelenses e chegou a visitar o Muro das Lamentações ao lado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

O presidente também deu um passo em direção à sua promessa de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. A decisão, de alto risco para o comércio brasileiro com países árabes, agrada aos seus eleitores evangélicos e condiz com seu posicionamento pessoal.

Alertado para as consequências da mudança da embaixada, Bolsonaro optou por, primeiro, abrir um escritório comercial em Jerusalém e, até o fim do mandato, tomar a decisão final. Não é a primeira vez que o presidente recua, mas, na maioria delas, ele consegue fazer manobras para cumprir parcialmente suas promessas no campo internacional.

A crise na Venezuela e o comércio com a China também estiveram na pauta de Bolsonaro durante os 100 primeiros dias de gestão, porém os dois temas geram divisões dentro do governo. Em relação à crise política e humanitária no país vizinho, Bolsonaro já ameaçou algumas vezes adotar posições mais fortes e não descartou sequer uma ação militar - opção rejeitada pelas Forcas Armadas e pelo vice-presidente Hamilton Mourão.

Já a China, principal parceira comercial do Brasil, foi acusada por Bolsonaro e sua equipe durante a campanha de estar "comprando" o país, porém os tons foram suavizados após a posse.

Ao fim de três meses de governo, a certeza que fica é que Bolsonaro não abrirá mão de decisões polêmicas nem de declarações bombásticas; que o presidente, apesar de criticar os governos anteriores pela ideologia diplomática, também se guiará baseado em suas próprias concepções; mas que, alertado das consequências, Bolsonaro não se intimida em recuar ou modificar as estratégias internacionais.

Logo ao voltar de Israel e em meio à polêmica do escritório comercial em Jerusalém, o brasileiro prometeu fazer um giro por países árabes do Oriente Médio no segundo semestre, quando também deve visitar a China.

Política interna

Apesar do foco na política externa em seu início de mandato, os principais desafios de Bolsonaro residem dentro das próprias fronteiras do Brasil. Sem conseguir formar uma base no Congresso, o governo já sofreu derrotas acachapantes - como na derrubada de mudanças na Lei de Acesso à Informação - e enfrenta dificuldades com a reforma da Previdência.

"A única exceção é a negociação para a presidência do Senado [quando Davi Alcolumbre derrotou Renan Calheiros]. É uma exceção importante. Imagine se fosse o Renan, o cenário estaria um caos", diz Sérgio Praça. O professor ressalta que construir uma articulação política não é tarefa simples, principalmente em um contexto de fragmentação partidária.

Os 100 primeiros dias de Bolsonaro também foram marcados pelas recorrentes crises no Ministério da Educação, com uma intensa "dança das cadeiras" que atingiu até o comando da pasta - no 98º dia do governo, Ricardo Vélez Rodríguez foi substituído por Abraham Weintraub.

"Não se deve exagerar a importância desse vaivém no Ministério da Educação. A imensa maioria das coisas que foram aventadas não saiu do papel, mas é notável a falta de capacidade de Bolsonaro de identificar um problema e resolvê-lo com rapidez", ressalta Praça.

Com um início turbulento de governo, a popularidade do presidente também foi golpeada e atingiu o nível mais baixo para os três primeiros meses de mandato desde a redemocratização, segundo o Datafolha.

Parte disso, é verdade, se deve ao fato de que uma parcela considerável do eleitorado votou em Bolsonaro motivada pelo sentimento anti-PT, não por apoiar as ideias do capitão reformado, mas a queda da popularidade mostra que a política externa ideológica tem efeito limitado à sua base mais fiel.

"A popularidade dele caiu bastante. Tenho dificuldade em achar que o brasileiro se importa com política externa. Mesmo se o Brasil entrar na OCDE, os efeitos práticos demorarão anos. Não foi a base mais radical quem o elegeu", conclui Praça. (ANSA)

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