Itália e Brasil levam maior delator da máfia para Cannes

"O Traidor", de Bellocchio, conta história de Tommaso Buscetta

Marco Bellocchio, diretor do filme 'O Traidor'
Marco Bellocchio, diretor do filme 'O Traidor' (foto: ANSA)
13:31, 14 MaiSÃO PAULO ZBF

A história de um dos mais célebres mafiosos italianos concorrerá à Palma de Ouro no Festival de Cannes, que começa nesta terça-feira (14), na França.

“O Traidor”, de Marco Bellocchio, narra a trajetória de Tommaso Buscetta (1928-2000), que teve sua vida diretamente ligada ao Brasil e entrou para a história como o primeiro grande delator da Cosa Nostra, a máfia siciliana.

Chefe do clã Porta Nuova, Buscetta fugiu para o Brasil duas vezes para escapar da guerra deflagrada pelos Corleone pelo controle da máfia e foi extraditado para a Itália nas duas ocasiões. Na segunda, passou a colaborar com a Justiça e deu informações inéditas sobre o funcionamento da Costa Nostra.

Em 1985, foi mandado para os Estados Unidos, onde viveria até sua morte, em 2000, sob proteção do FBI. “Estamos falando de um personagem muito polêmico: tem gente que gosta, tem gente que detesta, que o acha um grande traidor. Mas o filme não é a favor nem contra, simplesmente conta a história desse homem”, diz, em entrevista à ANSA, Fabiano Gullane, da produtora brasileira Gullane.

Com orçamento de 8 milhões de euros, longa é uma coprodução entre Itália, Brasil, Alemanha e França e será exibido pela primeira vez em Cannes. As gravações foram concluídas em dezembro, e a produção entrou em uma corrida contra o tempo para terminar o filme a tempo do festival.

“A gente sempre teve uma grande expectativa de que esse filme fosse convidado para um dos grandes festivais. Pensávamos em Veneza e Cannes, e nosso grande desafio para Cannes era a questão do prazo. Conseguir montar e pós-produzir o filme nesses quatro meses foi um grande desafio”, acrescenta Gullane.

A produtora foi indicada a Bellocchio por Marco Muller, diretor artístico do Festival de Veneza, e reuniu uma equipe de cerca de 80 pessoas para as filmagens no Brasil.

“Filmamos por duas semanas no Rio de Janeiro, em dezembro passado. A equipe foi embora quase no Natal”, contou a produtora-executiva Daniela Aun.

Entre as locações estão uma casa no bairro de Santa Teresa e o Museu Aeroespacial (Musal), da Força Aérea Brasileira (FAB). “Para você ter uma ideia, no começo a gente teria só uma semana de filmagem aqui no Brasil e, ao longo dos meses, durante a produção lá na Itália, eles começaram a perceber que queriam fazer mais coisas por aqui”, acrescentou.

Expectativa – O filme é estrelado por Pierfrancesco Favino, que interpreta Buscetta, e Maria Fernanda Cândido, que dá vida a Maria Cristina de Almeida Guimarães, terceira esposa do mafioso e a quem é atribuída a decisão do italiano de colaborar com a Justiça.

Fabiano Gullane chegou a sugerir Maria Fernanda diretamente para Bellocchio, mas achou melhor abrir um teste que reuniu cerca de 10 “grandes atrizes brasileiras”. “Quando o Bellocchio assistiu aos testes, me mandaram mensagens dizendo ‘Fabiano, você tinha razão, a personagem é para a Maria Fernanda mesmo’”, relembrou o produtor.

Com a exibição em Cannes, ele espera atrair atenção de compradores e lançar o filme em “30 ou 40 países ao redor do mundo”, além de obter uma boa recepção da crítica e do público. Mas os prêmios também estão na mira.

“Com todo o respeito aos demais competidores, a gente acha que esse filme merece algum tipo de prêmio. Apostaria muito no de melhor diretor para Bellocchio. Ver esse cara trabalhando é uma oportunidade ímpar, ele é um artesão do cinema. Ele não sossega enquanto não chega naquilo que está enxergando na cabeça dele. E quando você vê o resultado, entende o porquê daquela agonia toda. Favino também faz um trabalho primoroso como ator”, contou Gullane.

“Nossa expectativa é que o filme seja bem recebido, que ele seja visto, do lado do produtor brasileiro, que seja bem falado para podermos ter um bom lançamento no Brasil”, reforça Aun.

Já o produtor delegado André Ristum, que cresceu na Itália e chegou a ser assistente de Bellocchio, “ter o Brasil selecionado em uma competição como Cannes é um momento muito importante para nós e para qualquer pessoa que trabalha com cinema”.

“É o maior filme de Bellocchio, de tamanho, de envergadura de produção. É um épico de máfia e Bellocchio, com 79 anos de idade, teve coragem de fazer esse projeto”, comentou.
“O Traidor” está previsto para estrear nos cinemas brasileiros em agosto e deve se aproveitar dos debates no país em torno das delações premiadas.

“Acho interessante, ainda mais no momento pelo qual o Brasil passou nos últimos anos, falar de um personagem tão polêmico. Ele, entre aspas, fez tão bem à nação e, ao mesmo tempo, delatou tantos amigos, tantas pessoas com quem trabalhava. Eu diria que é no mínimo curioso, pelo momento em que a gente está vivendo, em que as pessoas negociam acordos delatando outras”, disse a produtora-executiva.

(ANSA)

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