Ataque a migrantes desmente Líbia como 'porto seguro', diz ONG que atua no Mediterrâneo

Discussão está no centro das polêmicas entre Salvini e entidades humanitárias

Sobreviventes de ataque aéreo contra centro de detenção de migrantes na Líbia (foto: ANSA)
16:21, 03 JulSÃO PAULO Por Lucas Rizzi

(ANSA) - O fundador da ONG espanhola ProActiva Open Arms, que realiza resgates no Mediterrâneo, afirmou nesta quarta-feira (3), em entrevista à ANSA, que o ataque aéreo contra uma prisão de migrantes na Líbia desmonta a versão de que o país africano pode ser considerado um "porto seguro".

O bombardeio ocorreu na capital Trípoli e deixou ao menos 44 pessoas mortas. O governo de união nacional chefiado pelo primeiro-ministro Fayez al Sarraj culpa o Exército Nacional Líbio, conjunto de milícias comandado por Khalifa Haftar.

"O conto que se criou de que a Líbia é um porto seguro se acabou. Esse discurso nunca funcionou nem funcionará", disse Òscar Camps, por telefone, enquanto está em uma nova missão da ProActiva no Mediterrâneo para resgatar migrantes em fuga.

O bombardeio desta quarta-feira é mais um episódio da guerra de milícias entre os aliados de Sarraj, que controlam Trípoli e o oeste da Líbia, e as tropas de Haftar, que comandam o sul e o leste do país. Enquanto o primeiro é reconhecido pelas Nações Unidas (ONU) e pela União Europeia, o segundo tem a seu lado Egito e Emirados Árabes Unidos, além de contar com a simpatia da França.

A ofensiva de Haftar começou em 4 de abril e tem como objetivo unificar sob seu poder todo o território da Líbia, fragmentado entre milícias desde a queda de Muammar Kadafi, em 2011. Líder das forças contrárias ao Islã político, Haftar ainda não conseguiu avançar sobre Trípoli, mas recrudesceu os ataques nos últimos dias.

Apesar de a Líbia não existir mais enquanto Estado, a Itália assinou em fevereiro de 2017 um acordo com Sarraj - patrocinado pela UE e ainda sob o governo de Paolo Gentiloni - para treinar e equipar a Guarda Costeira de Trípoli.

O objetivo era capacitá-la para fazer resgates no Mediterrâneo e evitar que os migrantes chegassem à Europa. O pacto foi mantido pelo novo governo italiano e parte do princípio de que a Líbia pode ser considerada um "porto seguro" para náufragos.

Essa discussão está no centro da crise protagonizada pelo ministro do Interior Matteo Salvini e pelas ONGs do Mediterrâneo. Normas internacionais determinam que pessoas socorridas no mar sejam levadas ao "porto seguro" mais próximo, porém as entidades humanitárias, a ONU e até o chanceler italiano, Enzo Moavero, contrariando seu próprio governo, afirmam que a Líbia não pode ser enquadrada nessa definição.

"Se os líbios não são capazes de combater o tráfico de humanos em seu território, como vão fazer isso em 350 mil quilômetros quadrados de mar? Se não controlam o aeroporto de Trípoli, como vão garantir intervenções em uma extensão gigante de água?", questionou Camps, da ProActiva Open Arms, que já salvou aproximadamente 59,8 mil pessoas no Mediterrâneo.

Ataque

O campo de detenção atacado nesta quarta abrigava 610 migrantes, a maioria africanos, e os sobreviventes foram transferidos para "lugares seguros", de acordo com o gabinete de Sarraj. O governo líbio não especificou quais seriam esses locais.

"Esse bombardeio constitui claramente um crime de guerra", declarou o representante especial da ONU para o país africano, Ghassan Salamé, que também cobrou "sanções" contra os responsáveis pelo ataque.

Já o governo Sarraj pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Organização Internacional para as Migrações (OIM), órgão ligado à ONU, estima que cerca de 3 mil migrantes e refugiados estejam detidos arbitrariamente dentro e nos arredores de Trípoli.

"Além disso, migrantes e refugiados enfrentam crescentes riscos, dado que os confrontos se intensificaram. Esses centros devem ser fechados", disse a OIM por meio de uma nota. (ANSA)

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