Como a Itália faz da gastronomia uma arma de soft power

País busca aumentar seu poder de influência por meio da comida

Estoque do queijo Parmigiano Reggiano em Parma, na Itália
Estoque do queijo Parmigiano Reggiano em Parma, na Itália (foto: ANSA)
21:40, 07 NovSÃO PAULO Por Lucas Rizzi

(ANSA) - São Paulo, 20 de outubro de 2019. Em um domingo ensolarado, milhares de pessoas circulam pelo pátio do Museu da Imigração ao som de variadas versões de "Bella Ciao" e com pizzas, massas, cannoli, tiramisù e outras delícias da gastronomia da Itália nas mãos. Tomada pelas cores da bandeira tricolor, a antiga hospedaria de 700 mil imigrantes italianos virou mais um exemplo do poder de atração que os sabores do Belpaese exercem sobre o mundo.

O evento serviu de abertura para a 8ª Settimana della Cucina Regionale Italiana (Semana da Cozinha Regional Italiana), que, entre 21 e 27 de outubro, levou os paulistanos a 20 restaurantes da cidade para conhecer menus especiais feitos por chefs provenientes de cada uma das 20 regiões do país europeu.

Sucesso de público, a Settimana é o exemplo mais recente da importância que a gastronomia tem para a diplomacia da Itália, país que, perante o poderio bélico e financeiro das maiores potências mundiais, aposta na cultura como instrumento de soft power. "Nossa expectativa é ir além do sucesso de público, de divulgação e de soft power da edição de 2018", disse o cônsul-geral da Itália em São Paulo, Filippo La Rosa, em entrevista à ANSA ainda antes do início do evento.

Em seu perfil no Twitter, o diplomata reforçou essa ideia. "A Settimana della Cucina Regionale de São Paulo é uma ação de soft power para falar, através da cozinha, de territórios com belezas artísticas a serem visitadas e de produtos de excelência para serem comprados".

 
 
 
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Mas não para por aí. Paralelamente à Settimana, a Italian Trade Agency (ITA), órgão oficial de promoção de empresas italianas no exterior, lançou uma campanha para impulsionar a enogastronomia do país europeu no Brasil e no mundo.

A iniciativa se chama "Sabores da Itália" e, até o fim de novembro, realiza uma série de ações voltadas a diversos públicos para promover a excelência da culinária italiana. A programação inclui lançamento de livro, rodadas de negócios, cursos de gastronomia, promoção de pacotes de turismo enogastronômico e degustações com venda a preços especiais de produtos "made in Italy".

"Soft power é a habilidade de um indivíduo ou instituição de influenciar indiretamente o comportamento ou interesses de outros por meio de aspectos culturais ou ideológicos. Esse poder depende fortemente da credibilidade do influenciador. Ora, porque a gastronomia é um dos mais genuínos elementos de expressão da cultura de um povo e porque a gastronomia italiana está nas primeiras posições do top of mind dos consumidores brasileiros, sendo associada a alta qualidade, profusão de sabores e aromas, definitivamente pode e foi usada em nossa campanha para influenciar o comportamento dos consumidores brasileiros", diz, em entrevista à ANSA, Erica di Giovancarlo, diretora da ITA no Brasil.

Segundo ela, o objetivo da ação é bombardear o público com informações sobre a Itália, "gerando curiosidade" e "estimulando" as pessoas a consumirem produtos e experiências ligadas ao país europeu, tanto em casa como em próprio solo italiano. Um dos pilares da campanha é o lançamento do livro "Giro d'Italia", do jornalista J. A. Dias Lopes e que apresenta curiosidades e receitas das 20 regiões do Belpaese.

Disponível online, a obra foi baixada mais de mil vezes apenas nas duas semanas finais de outubro. Outras mil cópias impressas foram distribuídas para formadores de opinião. Além da Settimana e da campanha Sabores da Itália, o país ainda promove em novembro a 4ª edição da Semana da Cozinha Italiana no Mundo, com eventos em dezenas de cidades, incluindo no Brasil.

Poder suave

Traduzido literalmente como "poder suave", o termo soft power foi cunhado por Joseph Nye, da Universidade de Harvard, e refere-se à capacidade que uma nação tem de influenciar indiretamente o comportamento de outros países. O contraponto é o "hard power", que nada mais é que a força bruta, o poder coercitivo de um Estado.

Segundo Maurício Fronzaglia, professor de relações internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o soft power da Itália foi construído "meio sem querer" ao longo do último século, porém agora é usado de modo mais "racional".

"Muitos países acham um nicho onde podem influenciar e reverter em termos econômicos, de turismo, de comércio e de consumo. A gente dá por certo que a massa italiana é a melhor, que o molho de tomate italiano é o melhor", diz.

Já o professor Carlos Gustavo Poggio, da Faculdade Armando Alvares Penteado (Faap), faz um contraponto e afirma não enxergar a gastronomia, isoladamente, como elemento de soft power. Para ele, trata-se de um "tijolinho no processo de construção". "É um elemento em um conjunto de ferramentas para melhorar o soft power. A gastronomia sozinha não é suficiente", explica.

Poggio defende usar o termo com "certa cautela", mas não descarta sua importância para as relações internacionais. "O soft power sozinho não resolve muita coisa. Por outro lado, se você não tem uma boa imagem e reputação, fica mais difícil a aplicação do poder militar. Para alguns países, acaba sendo mais importante do que para outros. Mas não é à toa que a China tem espalhado institutos Confúcio pelo mundo", conclui. 

Comércio

Sempre apoiadas por empresas italianas, as iniciativas gastronômicas realizadas pelo país europeu entre outubro e novembro reforçam sua imagem como potência gastronômica e símbolo de qualidade, mas também abrem mercados no exterior.

"O objetivo da campanha [Sabores da Itália] é, basicamente, ampliar a presença da produção genuinamente italiana nas gôndolas de supermercados e cozinhas de restaurantes, bares e hotéis de todo o país, tanto em quantidade quanto em diversidade, apresentando a cada ano novos sabores de uma tradição enogastronômica tão rica e antiga quanto a própria história italiana", afirma Di Giovancarlo, da ITA.

O Mercosul e a União Europeia assinaram recentemente um acordo de livre comércio que, embora ainda precise ser ratificado por todos os parlamentos, é promessa de oportunidades. O tratado comercial reconhece 57 dos quase 300 produtos de denominação protegida (DOP e IGP) da Itália, incluindo os queijos Grana Padano e Parmigiano Reggiano, cujos nomes originais não poderão ser usados por laticínios de outros países.

O acordo pode potencializar a presença de produtos alimentares italianos no mercado brasileiro, que já importou 7,7 bilhões de euros nesse setor em 2018, de acordo com dados da ITA. Desse total, 2,7% (205 milhões de euros) correspondem à Itália, 10ª maior parceira comercial do Brasil no segmento.

Quase a metade desse volume se concentra em apenas três nichos: vinhos (41 milhões de euros), massas (25 milhões) e azeites (21,5 milhões). Soft power ou não, ainda há muito espaço para a bandeira tricolor na mesa dos brasileiros. (ANSA)

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