Epidemia provoca prejuízos para guias brasileiros na Itália

Setor foi afetado pela disseminação do novo coronavírus

Protesto de guias turísticos em Florença, capital da Toscana
Protesto de guias turísticos em Florença, capital da Toscana (foto: Ansa)
08:28, 05 MarSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - Mais de 3 mil contágios. Pelo menos 107 pessoas mortas. 19 de 20 regiões com casos confirmados. Escolas fechadas, partidas de futebol adiadas, feiras e eventos suspensos. A epidemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) paralisou a Itália e atingiu em cheio um dos pilares de sua economia: o turismo.

A confederação que reúne as empresas do setor (Confturismo) afirmou nesta quarta-feira (4) que o prejuízo estimado para o primeiro trimestre de 2020 deve chegar a 7,4 bilhões de euros e definiu a situação como "dramática".

As perdas atingem sobretudo guias de turismo, que sofrem com cancelamentos em massa e ainda não conseguem enxergar uma luz no fim do túnel para a crise em que o setor mergulhou por causa da epidemia e, principalmente, da paranoia.

"Para março, temos 100% de cancelamentos. E durante o ano, temos uma taxa de 75%", diz à ANSA a guia brasileira Lilian de Almeida Silva, sócia da empresa Leve Arte Turismo, que promove tours e visitas guiadas em Florença e outras cidades da Toscana.

Considerada um dos principais polos turísticos da Itália, a região concentra apenas 1,2% dos casos de coronavírus no país (38, de um total de 3.089), mas isso não foi suficiente para conter o medo dos futuros viajantes.

"A situação está bem complicada, as pessoas estão em pânico. O que pintam fora da Itália é que está o caos, todo mundo usando máscara, histeria, mas não está assim", acrescenta Silva. Segundo a guia, ela tem se concentrado em tentar "desmistificar esse apocalipse" para seus seguidores nas redes sociais.

"Sete americanas que viriam em abril cancelaram. Disseram: 'Desculpe, mas a gente vai programar mais para frente", revela. Já os brasileiros começaram a desfazer suas reservas após a confirmação do primeiro dos três casos de Sars-CoV-2 no país, em 26 de fevereiro, de um homem de São Paulo que havia acabado de chegar da Lombardia.

O segundo contágio registrado no Brasil é de um paulistano que voltava de viagem da mesma região. Além disso, a companhia aérea Latam suspendeu seus voos entre São Paulo e Milão, capital da Lombardia, até 16 de abril.

Silva conta que a onda de cancelamentos revirou seu planejamento familiar, apesar de seu marido contar com outra fonte de renda. "Nem sei se agora vamos ter de devolver o carro. As reservas que eu tinha para junho, setembro, foram canceladas", afirma.

A brasileira chegou a participar de um protesto em Florença, na semana passada, contra a psicose provocada pela epidemia.

O governo da Itália já aprovou algumas medidas para ajudar o setor de turismo, como isenções fiscais para hotéis, mas promete iniciativas mais robustas ainda para esta semana, no âmbito de um pacote de 3,6 bilhões de euros que está na mesa do primeiro-ministro Giuseppe Conte.

 

Epicentro

Se Silva foi afetada pela epidemia mesmo estando fora do epicentro, a situação pode ser ainda pior para quem trabalha em uma das regiões mais afetadas.

Isabela Discacciati, que faz passeios guiados em Veneza e nos arredores, conta que a diminuição na procura pelos tours foi ainda mais "dramática" por ter coincidido com o Carnaval da cidade, que é o mais tradicional da Itália e teve alguns eventos cancelados por conta do coronavírus.

"É uma época em que muitos brasileiros visitam Veneza e me procuram. Ninguém nunca poderia imaginar que um evento de tamanha importância, como o Carnaval de Veneza, pudesse ser cancelado um dia", diz. A cidade é capital do Vêneto, terceira região com mais casos do novo coronavírus na Itália, com 360.

De acordo com a acompanhante turística, o setor já havia sofrido perdas devido às inundações do fim do ano passado, mas, com a epidemia, a queda na procura por passeios guiados se acentuou.

"O que tentamos passar para o turista é que as ações restritivas tomadas pelo governo são preventivas, para conter o avanço do vírus. Não vivemos uma situação extrema. As cidades não estão isoladas e, em breve, as atrações turísticas que foram preventivamente fechadas aqui no Vêneto estarão abertas novamente", ressalta.

Situação atual

Apenas 11 dos 7.904 municípios italianos (0,14% do total) estão em isolamento por causa da epidemia: Bertonico, Casalpusterlengo, Castelgerundo, Castiglione d'Adda, Codogno, Fombio, Maleo, San Fiorano, Somaglia e Terranova dei Passerini, todos na Lombardia, e Vo', no Vêneto.

Nessas cidades, ninguém pode entrar nem sair, mas as outras 7.893 não têm nenhuma restrição de circulação atualmente. Na Lombardia, na Emilia-Romagna e no Vêneto, além das províncias de Pesaro e Urbino (Marcas) e Savona (Ligúria), todos os eventos esportivos estão suspensos, e a abertura de museus e restaurantes está condicionada à garantia de uma distância mínima de um metro entre os frequentadores.

Em Milão e Veneza, por exemplo, os museus e exposições já foram reabertos, embora com entradas controladas para evitar grandes concentrações de pessoas. Outros destinos concorridos no país, como Florença, Roma, Nápoles e Palermo, não têm nenhum tipo de restrição em atrações culturais ou à circulação. (ANSA)

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