'Cometemos alguns erros, mas agora entendemos', diz italiano

País é um dos mais atingidos pela pandemia de coronavírus

'Tutele-se, proteja os outros', diz cartaz em Milão, na Itália
'Tutele-se, proteja os outros', diz cartaz em Milão, na Itália (foto: ANSA)
14:12, 31 MarSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - A tragédia provocada pela pandemia do novo coronavírus na Itália, com cerca de 100 mil casos e mais de 11 mil mortos em pouco mais de um mês, ajudou a cimentar a convicção de que o isolamento social chegou tarde demais.

O governo proibiu deslocamentos não-essenciais em todo o país em 10 de março, quando a Defesa Civil já contabilizava 10.149 casos do Sars-CoV-2, o coronavírus que já invadiu os organismos de pelo menos 800 mil pessoas mundo afora.

Além disso, nos primeiros dias da pandemia na Itália, muitos cidadãos relutavam em aceitar o isolamento social como algo necessário para conter uma doença que ainda era vista como algo distante - cenário que ameaça se repetir no Brasil, onde governos estaduais adotam medidas de confinamento, porém à revelia do presidente Jair Bolsonaro.

"Parece que os italianos cometeram alguns erros, mas agora entendemos que é preciso ficar em casa. Se pudesse dar um conselho pessoal, seria: adotem todas as medidas de precaução", diz, em entrevista à ANSA, o agente humanitário Luca Blumer, 38 anos, coordenador do atendimento a solicitantes de refúgio da cooperativa La Fenice.

E o conselho vem de alguém que viveu o drama da pandemia de perto. Blumer mora a poucos quilômetros do hospital de Alzano Lombardo, cidade de 13 mil habitantes situada em Bergamo, que até a última segunda-feira (30) era a província da Itália com maior número absoluto de casos do novo coronavírus.

Atualmente, Bergamo registra 8.664 contágios, um pouco menos que Milão (8.676), a nova líder desse ranking que ninguém quer encabeçar. Segundo Blumer, era "dramático" ouvir o trânsito ininterrupto de ambulâncias em direção ao hospital.

"Os casos agora estão diminuindo, e isso nos dá um suspiro de alívio. Moro a poucos quilômetros do hospital de Alzano Lombardo, e a coisa que mais me surpreende é que tenho ouvido menos ambulâncias. Isso quer dizer que há menos pessoas internadas", afirma.

A pandemia também atingiu Blumer no nível pessoal. Ele manteve contato com um indivíduo infectado e se colocou em autoisolamento em casa. "Essa pessoa, a quem sou particularmente apegado e com quem trabalho todo dia, está em condições críticas em um hospital. Só de pensar, me faz cair em desespero", conta.

Marginalizados

A cooperativa do agente humanitário oferece creches, atendimento para pessoas com deficiência e acolhimento a solicitantes de refúgio, que vivem em oito apartamentos distribuídos pelo Vale Seriana, na província de Bergamo.

Ao todo, La Fenice dá abrigo a cerca de 40 deslocados internacionais, a maioria deles proveniente da África Subsaariana, que começa agora a conviver com o avanço da pandemia. Segundo Blumer, eles não temem apenas que o coronavírus os atinja diretamente, mas também se preocupam com possíveis contágios em suas famílias nos países de origem.

A maioria dos requerentes tinha trabalhos de tempo integral ou meio-período, e cerca de 20 frequentavam cursos de italiano ou escolas regularmente. "Desde quando entraram em vigor as normas do governo, posso dizer com muita tranquilidade que eles mostram um senso de responsabilidade muito alto e respeitam a proibição de sair de casa", conta.

Blumer agora espera que a pandemia sirva para repensar o sistema de saúde italiano e a situação daqueles que vivem marginalizados na sociedade - apesar da queda do ex-ministro do Interior Matteo Salvini no ano passado, o novo governo ainda não revogou os decretos que aboliram a permissão de estadia humanitária e restringiram os direitos de solicitantes de refúgio.

"Posso dizer com segurança que isso não é mais levado em consideração, e isso é um pecado. Não sei o que vai acontecer, mas, dessa situação desfavorável, é preciso aproveitar a ocasião para repensar a marginalização e os direitos dessas pessoas", afirma. (ANSA)

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