O cineasta italiano que tenta alertar o mundo sobre pandemia

Filme de Olmo Parenti com recados de italianos viralizou na web

O cineasta italiano Olmo Parenti
O cineasta italiano Olmo Parenti (foto: Reprodução)
14:27, 06 AbrSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - Em tempos de isolamento forçado por causa da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), encontrar uma pequena missão que dê sentido aos dias de quarentena pode ser uma forma de enfrentar a maior crise de toda uma geração.

Esse é o caminho percorrido por um jovem documentarista de Milão, Olmo Parenti, para fazer valer a pena o período de confinamento. Desde a eclosão da pandemia na Itália, o cineasta e seu coletivo, chamado "A Thing By", vêm produzindo vídeos para alertar o mundo sobre a situação da Itália e evitar que outros países cometam o erro de subestimar o novo coronavírus.

O primeiro, divulgado há cerca de três semanas, reúne mensagens de italianos para eles mesmos, só que 10 dias antes, quando muitos ainda minimizavam o isolamento social como principal arma contra a pandemia. O vídeo tem 8,2 milhões de visualizações e rodou o mundo com o alerta de quem viu de perto como um vírus paralisou uma nação rica e dinâmica em questão de dias.

Em outra produção, Parenti filmou a rotina da UTI do Hospital Policlínico de Milão, que está na linha de frente da luta contra o Sars-CoV-2. "O conselho que dou a quem fica em casa é: encontre uma pequena missão para si mesmo. Com todos os meus trabalhos cancelados, tentei achar um modo de ser útil para os outros. Isso me ajudou a viver a quarentena porque acordo de manhã e tenho um objetivo. Os dias passam mais rapidamente", diz o documentarista, em entrevista à ANSA por telefone.

A ideia do primeiro vídeo surgiu após Parenti ter percebido que amigos em outros países não encaravam a situação da mesma forma que ele. Segundo o documentarista, ele não imaginava que a Itália superaria os 100 mil contágios, mas naquele momento, com cerca de 18 mil, o país já compreendia a seriedade da situação.

"Queria um vídeo que, de alguma maneira, tivesse impacto rapidamente porque nós estávamos muito à frente dos outros países. Pensamos que as coisas ruins só acontecem com os outros, mas não é assim. Coisas ruins acontecem com todos", afirma.

Hospital

O projeto seguinte foi filmar a rotina de um hospital - e não de qualquer um. O Policlínico de Milão é uma das estruturas de saúde mais importantes da cidade e do país e ficou rapidamente sobrecarregado com o excesso de pacientes da Covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus.

O documentário de curta-metragem tem cerca de 2 minutos e foi gravado em 24 de março, quando a Itália ainda estava nos 69 mil contágios, quase a metade do número atual. O vídeo se chama "Coronavirus from one meter away" ("Coronavírus a um metro de distância", em tradução livre) e mostra a agonia dos pacientes de forma delicada e respeitosa.

"Milhões ao redor do mundo continuam saindo, colocando todos em risco. Ninguém é invencível. Nem eu, nem você, nem o vírus", diz uma mensagem no fim do documentário. "Minha experiência dentro de uma terapia intensiva foi muito diferente do que eu via na televisão", conta Parenti, que diz ter se impressionado mais com os pequenos detalhes do que com o clima geral.

"Era o pé de um paciente que tremia porque provavelmente tinha febre muito alta; a respiração ofegante, mesmo dormindo; ou uma simples mão balançando para fora da cama. Talvez a pessoa ficasse mais confortável em outra posição, mas tinha tão pouca energia que permanecia assim", relata.

Seu objetivo, assim como no primeiro vídeo, era usar imagens fortes para fazer o restante do mundo entender o que estava por vir.

Ceticismo

Parenti reconhece que os italianos foram céticos no início da pandemia. Em sua experiência pessoal, o que o fez mudar de ideia sobre a gravidade da crise foi ouvir o relato de médicos e enfermeiros - pessoas que não teriam razões para mentir - esgotados com a carga de trabalho.

"Além de tudo o que não sabemos sobre o vírus, a única certeza é que não é uma brincadeira", afirma. Sua cidade, Milão, chegou a promover uma campanha no fim de fevereiro defendendo que não podia parar. Até o prefeito Giuseppe Sala encampou a ideia, para mais tarde pedir desculpas.

Em termos absolutos, Milão é hoje a província com mais casos do novo coronavírus na Itália, com 11,2 mil, número que equivale ao total de contágios já registrados em todo o Brasil. No entanto, na visão de Parenti, tanto Sala quanto os outros milaneses erraram "de boa fé", já que na época as informações sobre o vírus não eram tão abundantes.

"No caso de Bolsonaro, aquilo que ele está fazendo é altamente irresponsável. Agora não há mais argumentos. Existem provas, vídeos, imagens e dados de todo o mundo que dizem o contrário. Entendo a dificuldade de parar um país porque o dano econômico é terrível, mas a vida das pessoas não tem preço", salienta, acrescentando que torce para o presidente do Brasil mudar de ideia o quanto antes, assim como já fizeram os ex-céticos Donald Trump e Boris Johnson.

Agora o objetivo do coletivo A Thing By é ouvir especialistas para entender melhor a situação e o futuro que aguarda o mundo no pós-pandemia. O grupo também acaba de lançar o primeiro episódio dos "Coronavirus Diaries" ("Os Diários do Coronavírus"), projeto que pretende expor histórias da pandemia ao redor do mundo.

O vídeo de estreia narra o diário de uma mulher que perdeu o namorado na cidade chinesa de Wuhan, o marco zero da pandemia. "Nossa preocupação é falar ao resto do mundo o que está acontecendo aqui e tornar útil a experiência da Itália. É inútil que todos cometam os mesmos erros", diz Parenti. (ANSA)

Todos los Derechos Reservados. © Copyright ANSA