É a ciência quem vai nos salvar, diz escritor italiano Paolo Giordano

Autor italiano acaba de lançar o livro "No contágio"

O escritor italiano Paolo Giordano
O escritor italiano Paolo Giordano (foto: ANSA/DANIELE MASCOLO)
13:34, 17 AbrSÃO PAULO Por Lucas Rizzi

(ANSA) - O novo livro do escritor Paolo Giordano, "No contágio", acaba de chegar ao Brasil com uma poderosa reflexão sobre os efeitos de uma pandemia que, nas palavras do próprio autor, candidata-se a virar a emergência de saúde mais importante de nossa época.

Lançado na Itália no fim de março, o volume ganhou tradução em português pela editora Âyiné e foi escrito no início do mês passado, ainda antes de o governo colocar todo o país em quarentena por conta da rápida disseminação do novo coronavírus.

"Escrevi motivado pela confusão que eu via ao redor e pela percepção de que as coisas estavam piorando rapidamente por aqui. Fiz alguns artigos, mas sabia que um livro seria um instrumento útil também fora da Itália, que tinha essa responsabilidade de estar à frente dos outros países na pandemia", diz Giordano em entrevista à ANSA por telefone.

Autor do celebrado romance "A solidão dos números primos" e físico de formação, o escritor italiano coloca um pouco de ordem na anarquia de informações sobre a emergência sanitária, sem esconder o medo de que a crise passe sem deixar mudanças atrás de si - sentimento que se aprofundou com o desenrolar dos fatos.

Quando Giordano escreveu "No contágio", a Organização Mundial da Saúde (OMS) sequer havia declarado a disseminação do coronavírus como uma pandemia. Seu país, a Itália, ainda não tinha iniciado a quarentena em todo o território nacional e contabilizava menos de 10 mil casos. Hoje são cerca de 170 mil, enquanto o mundo superou a barreira dos 2 milhões.

"Eu estava mais esperançoso quando escrevi o livro. Vejo agora muitos sinais que vão na direção oposta do que eu esperava. Estou muito assustado", acrescenta Giordano, ressaltando que as receitas obtidas com as vendas do volume financiarão duas bolsas de estudo: uma de inteligência artificial e análise de dados aplicadas à epidemiologia e outra para jornalistas de dados italianos interessados em investigar a pandemia no país. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Como surgiu a ideia de publicar esse livro? Foi já um resultado direto do isolamento social?

Na verdade, não, porque o lockdown ainda não estava em vigor. Escrevi mais motivado pela confusão que eu via ao redor e pela percepção de que as coisas estavam piorando rapidamente por aqui, então achei que fosse importante explicar rapidamente. Fiz artigos, mas sabia que um livro seria um instrumento útil também fora da Itália, uma vez que a Itália tinha essa responsabilidade de estar na frente dos outros países.

Passado mais de um mês, essa confusão persiste?

O objeto da confusão mudou. Entendemos melhor muitas coisas sobre a pandemia, inclusive os motivos pelos quais estamos isolados. As pessoas entenderam qual é o perigo, o risco para o sistema sanitário, para os idosos, os mais frágeis. Os aspectos que um mês e meio atrás eram nebulosos agora estão claros. Mas existe uma confusão sobre como se mover para a fase sucessiva.

Em certo ponto, você escreve que não quer perder aquilo que a pandemia revela sobre nós mesmos, já que, uma vez superado o medo, desaparece também a possibilidade de se tornar consciente. Essa é uma oportunidade para a sociedade parar e refletir sobre si mesma?

Deveria ser assim, até por respeito às pessoas que sofreram, que se sacrificaram, que morreram. Não sei se será assim. Infelizmente, não parece que esteja acontecendo. Até ao pensar em voltar rapidamente à normalidade não parece que se esteja pensando de modo um pouco mais responsável e corrigindo os erros. Isso quer dizer se concentrar na emergência, e não na prevenção, repetindo os mesmos erros que levarão à próxima pandemia. Não estou fazendo um discurso moralista, estou fazendo um discurso prático. Tenho ouvido poucos debates sobre isso.

Seu livro foi escrito no início de março. Hoje, mais de um mês depois, após o fechamento total da Itália, você ainda tem medo de que essa crise não provoque nenhuma mudança?

Muito mais do que antes. Eu estava mais esperançoso quando escrevi o livro. Vejo agora muitos sinais que vão na direção oposta do que eu esperava. Estou convencido - e não apenas eu - de que essa pandemia está revelando que existem alguns problemas dos quais o mundo deve se encarregar coletivamente. Um deles é a segurança sanitária. O Trump atacou a OMS, que teria de ser reforçada. Estou muito assustado, porque vejo sinais na direção oposta.

As pessoas, especialmente as mais jovens e saudáveis, já compreenderam que são responsáveis por proteger as populações de risco?

Para mim, sim. Eu fiquei bastante surpreso com o nível de responsabilidade das pessoas. Isso que você falou é um pensamento abstrato e de solidariedade, não é tão óbvio. Estamos sempre concentrados em nossos projetos, nossos programas, nossos lucros, nossa sobrevivência, e isso é um pensamento novo. Acho que as pessoas o acolheram, em sua grande maioria, com certa prontidão. E devo dizer que acho injusto colocar toda a responsabilidade nas pessoas. Nós vimos muita incredulidade de autoridades, e isso, para mim, é mais preocupante. Eu entendo mais a perplexidade das pessoas do que a incredulidade e a obstinação de instituições e governantes.

Em tempos de muros e nacionalismos, é hora de as pessoas compreenderem que fazem parte de uma única comunidade humana?

Infelizmente, estamos indo na direção oposta. Mas há questões que simplesmente não podemos enfrentar sozinhos. Vamos supor que, em um mês, o Brasil não tenha mais o vírus. O que ele vai fazer depois? Fechar todas as trocas internacionais pelos próximos dois anos, até que se tenha uma vacina? Se depois o vírus explodir no centro da África, dali ele continuará a voltar para todos os lugares. Cada Estado está concentrado em resolver as coisas dentro de suas fronteiras, mas a solução para essa e para as próximas pandemias é enfrentá-las de modo coletivo e cooperativo. Do contrário, todos os esforços arriscam se tornar, ao menos em parte, inúteis.

Você escreve que precisamos aprender a viver nessa situação de anomalia. Você já aprendeu?

Sinto muita falta da minha vida livre, não quero nem entrar naquela hipocrisia que ouço de vez em quando de dizer que o mundo estava errado, que é melhor assim. Gosto muito de viajar, sinto falta de muitas coisas. Estou ciente de que essa crise não se resolve em 15 dias, talvez nem em um ano, então precisamos estar disponíveis para mecanismos novos e até para pequenas renúncias.

Por que você decidiu doar o dinheiro das vendas do livro para duas bolsas de estudo?

Jamais pensaria em ficar com os lucros para mim. Teria sido estranho. A coisa mais simples teria sido fazer doações para um hospital ou para a Defesa Civil, mas seria um pouco como uma gota no oceano. Queria fazer algo com olhar para o futuro e que se baseasse nos assuntos dessas duas bolsas de estudo. Um é a ciência, da qual, definitivamente, precisamos. Não serão os governos a nos salvar, será a ciência. O outro é a comunicação da ciência. Descobrimos esse elo frágil, ao menos na Itália, mas também em outros lugares: a escassa capacidade de comunicar a ciência. (ANSA)

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