'Vírus está muito próximo', diz italiana que vive na Amazônia

Bióloga teme contágio em comunidades ribeirinhas

Emanuela Evangelista (centro) preside ONG que atua na Amazônia
Emanuela Evangelista (centro) preside ONG que atua na Amazônia (foto: Luca Locatelli)
15:36, 23 AbrSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - Enquanto Manaus abre valas comuns para enterrar vítimas do novo coronavírus (Sars-CoV-2), a preocupação é de que a pandemia se dissemine por comunidades indígenas e ribeirinhas na Amazônia.

A 300 quilômetros da capital amazonense, um dos epicentros da crise sanitária no Brasil, uma comunidade que vive às margens do rio Jauaperi ainda não registra nenhum contágio, mas teme que a dificuldade em cumprir o isolamento social leve o vírus para o seio da floresta.

"A gente sabe que o vírus está muito próximo, estamos muito preocupados", diz a bióloga italiana Emanuela Evangelista, presidente da ONG Amazônia Milano Onlus, fundada em 2004 para oferecer saúde, educação, capacitação, trabalho e desenvolvimento sustentável aos nativos do Xixuaú.

Casada com um ribeirinho, Evangelista vive na comunidade desde 2013 e agora vê com preocupação o cerco montado pelo novo coronavírus na floresta. Apesar das recomendações de isolamento, ribeirinhos, empurrados pela necessidade, continuam fazendo viagens de barco a centros urbanos para escoar sua produção e se abastecer de mantimentos e itens de primeira necessidade.

Os principais destinos são Manaus, que já tem cerca de 2 mil casos do novo coronavírus - mais do que algumas regiões da Itália -, Manacapuru, com 230, e Novo Airão, com dois, segundo dados da Secretaria de Saúde do Amazonas.

As três cidades também contabilizam 172, 14 e uma mortes, respectivamente. Em termos proporcionais, o estado é líder de casos no Brasil, com 598 para cada 1 milhão de habitantes, e de mortes, com 50 para cada 1 milhão de habitantes.

 

"Não temos nenhum caso no rio Jauaperi, mas a preocupação é altíssima porque, ao nosso redor, temos Manaus, Novo Airão e Manacapuru, que são as cidades de referência para a população da região", diz Evangelista.

Segundo a italiana, a ONG iniciou uma campanha de conscientização para orientar os ribeirinhos a ficarem em casa, reduzindo as viagens até mercados urbanos. "Mas, por outro lado, a gente esbarrou em uma realidade que a gente conhece muito bem: quando se fala em isolamento social, é preciso considerar que, para as faixas pobres da população, isso é um luxo. Uma pessoa não consegue respeitar o isolamento social se não tem comida em casa", acrescenta.

O Xixuaú fica em uma reserva extrativista instituída em 2018 e ocupa uma área de mata preservada na fronteira do Amazonas com Roraima. Um dos projetos da ONG de Evangelista para garantir renda aos nativos é um programa de ecoturismo na comunidade, mas as visitas a zonas de conservação federais estão proibidas desde março para evitar o contágio de habitantes locais pelo novo coronavírus.

Agora a Amazônia Milano Onlus busca formas de desestimular as viagens de ribeirinhos a áreas urbanas. Uma campanha de arrecadação de fundos na Europa em parceria com a entidade britânica Amazon Charitable Trust já garantiu cestas básicas de 300 reais para 105 famílias do Jauaperi.

Um barco com os mantimentos e remédios saiu de Novo Airão na última segunda-feira (20) e está fazendo as entregas ao longo do rio. "Estamos tentando manter esse povo aqui. O ribeirinho é acostumado a viajar, ele vive do rio, a vida dele é movimento", diz a bióloga italiana, acrescentando que a coisa mais importante agora é isolar essas populações. "O vírus está chegando", afirma.

Auxílio

Outro fator de preocupação para Evangelista é o auxílio emergencial de R$ 600 oferecido pelo governo a autônomos. Pessoas que não estão no Cadastro Único de programas sociais precisam fazer uma inscrição pela internet que depende de códigos enviados por SMS para conclusão e acompanhamento.

No Xixuaú, no entanto, internet - sempre via satélite - é artigo raro, e a cobertura de celular é inexistente. Além disso, o calendário de pagamentos definido pelo governo pode exigir viagens em grupo dos ribeirinhos para alguma cidade onde possam sacar o benefício.

"A iniciativa é maravilhosa, todos os governos estão fazendo isso. O problema que estamos tendo aqui é muito prático e logístico. Não vejo como algo funcional, não vai evitar aglomerações. Isso pode funcionar muito bem nas cidades, mas a Amazônia não é feita só de realidade urbana", diz Evangelista.

Procurada, a Caixa Econômica Federal, responsável pelo auxílio, ainda não respondeu se existe alguma alternativa para indígenas e ribeirinhos de áreas afastadas receberem o benefício. (ANSA)

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