Criatividade vira arma de refugiados contra pandemia

Yilmary de Perdomo veio ao Brasil em 2016 e vive com a família em São Caetano do Sul
Yilmary de Perdomo veio ao Brasil em 2016 e vive com a família em São Caetano do Sul (foto: Divulgação/Náthalie Guimarães dos Santos)
14:38, 06 MaiSÃO PAULO Por Lucas Rizzi

(ANSA) - A pandemia do novo coronavírus, que já contaminou cerca de 3,7 milhões de pessoas e deixou 260 mil mortos, paralisou economias mundo afora e aumentou a vulnerabilidade de populações que, em condições normais, já vivem à margem da sociedade, como os refugiados.

Era junho de 2019 quando a congolesa Lucie Atumesa Nsimba se juntou a outros estilistas africanos para vender suas criações de moda africana em uma loja colaborativa em um shopping de Brasília. No entanto, cerca de nove meses depois, se viu sem clientes de uma hora para outra devido ao isolamento social imposto pela pandemia.

Sem a renda de seu trabalho, passou a contar apenas com o Bolsa Família e, em um segundo momento, com o auxílio emergencial do governo, e resolveu aproveitar os tecidos parados em casa para fazer máscaras de proteção, produto indispensável em tempos de coronavírus.

"Desde que a pandemia começou, não tem costura, não tem cliente", disse Lucie à ANSA, enquanto acabava de finalizar uma encomenda de 15 máscaras para um amigo. Originária da República Democrática do Congo, segundo maior país da África, a estilista vive no Brasil há quatro anos e estuda design na Universidade de Brasília (UnB).

Morando com a filha de 17 anos, ela mostra preocupação com seus pais e parentes que ficaram no Congo. "Tenho muito, muito medo. A condição de saúde lá é muito pior", afirmou. O país de 84 milhões de habitantes tem hoje 797 casos do novo coronavírus e 35 mortes, segundo a Universidade John Hopkins, dos EUA.

Venezuela

Lucie não é a única refugiada que teve sua história de empreendedorismo afetada pela pandemia. A venezuelana Yilmary de Perdomo, que vive em São Caetano do Sul (SP), era terapeuta ocupacional e trabalhava com crianças autistas em seu país, onde aprendeu algo de alimentação e pegou gosto pela gastronomia.

Já no Brasil, onde está desde 2016, fez um bolo para a filha levar de presente para a professora na escola, e logo seus sabores começaram a ganhar fama entre amigos e pessoas próximas.

"Foram nossos primeiros clientes. Eu fazia bolos típicos da Venezuela, e eles levavam para a firma. Logo estava vendendo na rua, no café da manhã, mas quando o ponto de ônibus mudou para frente de casa, não consegui vender mais, aí ficou essa necessidade de criar algo", contou à ANSA.

Yilmary não podia procurar emprego registrado porque não tinha com quem deixar os filhos, então buscou a ajuda de ONGs, fez cursos de culinária e, em 2017, iniciou seu projeto de gastronomia, chamado Tentaciones da Venezuela, que faz delivery, encomendas e eventos com pratos típicos do país.

"Não foi nada fácil, foi um trabalho de formiguinha", disse. O negócio deslanchou e, com janeiro e fevereiro atipicamente movimentados para essa época do ano, Yilmary já via com expectativa a chegada de março. Até que o coronavírus desembarcou no Brasil.

"Todo aquele marketing, emails, propostas, várias questões fechadas… Foi preciso nos reinventar para pensar no que fazer, porque, no princípio, era só ligação de cancelamento", relatou. A primeira ideia que Yilmary e seu marido tiveram foi fazer marmitas para o trabalho, mas logo viram que não daria certo por causa da quarentena. Então decidiram manter o delivery, mas reduzindo os pratos prontos e criando uma linha de congelados.

"Começou a funcionar. Tenho uma linha de divulgação no WhatsApp, e foi dando certo", disse a venezuelana, que também lançou workshops online de gastronomia por meio da ONG Migraflix para complementar a renda. Yilmary vive com o marido, os dois filhos, um enteado, a sogra e o sogro, que tem mal de Parkinson.

Segundo ela, a angústia provocada pela pandemia lembrou aquela de seus primeiros dias no Brasil, quando não havia nada em suas mãos. "Tem uma preocupação, mas acho que seja um amadurecimento para você pensar rapidamente no que fazer. Muitos refugiados pensam lá na frente, mas também no dia a dia. Mais salada, menos mistura... Certas coisas que a gente fazia, como ir ao parque e tomar um sorvete, já foram trocadas, porque a gente não sabe como vai ser mais para frente."

Atendimento

O padre Marcelo Maróstica Quadro, diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, avalia que o microempreendedor já tem, naturalmente, um viés criativo para dar a volta por cima em momentos de crise, e "isso está no sangue do refugiado".

O sacerdote, no entanto, não deixa de lado a preocupação com a realidade social enfrentada por essas pessoas, muitas das quais vivem em ocupações no centro da cidade. "Imagine como deve ser a quarentena em uma realidade de moradia muito precária." Para ajudar os refugiados que estão na informalidade, a Cáritas distribui cestas básicas - sob agendamento, para evitar aglomerações - e criou orientações para o isolamento, mas, segundo o padre Marcelo, muitos não atualizam seus meios de comunicação e podem não ter recebido os avisos.

"Muitos vão lá e batem na porta, e a Cáritas está fechada", contou. Até a pandemia, a organização católica atendia de 100 a 150 refugiados por dia em São Paulo, mas agora o serviço é feito por telefone ou online.

Algo parecido acontece com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que colocou seus escritórios de São Paulo, Brasília e Belém em home office. No entanto, com o fluxo de venezuelanos no norte, a agência manteve atividades essenciais nos escritórios de Manaus, Boa Vista e Pacaraima.

O Acnur ainda abriu uma coleta de fundos destinada a proteger refugiados contra a Covid-19, por meio do envio de remédios, água potável, artigos de higiene e kits de proteção. Além disso, lançou uma página chamada "Refugiados e Empreendedores", que divulga histórias de pessoas obrigadas a se reinventar para enfrentar os efeitos da pandemia.

Entre elas está Yilmary de Perdomo, a venezuelana que trouxe os sabores de seu país ao Brasil. "Não queremos que o negócio feche, e vamos tentando alternativas de acordo com o que estamos vivendo. Agora, mais do que nunca, não posso parar. Se tem a oportunidade de fazer algo, a gente faz", afirmou. (ANSA)

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