Tragédia da Samarco em Mariana completa 4 anos

Dano moral gera divergência em indenização

Equipes realizam buscas por vítimas em Bento Rodrigues, distrito de Mariana
Equipes realizam buscas por vítimas em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (foto: EUGENIO MORAES/HOJE EM DIA/ESTADÃO CONTEÚDO)
11:42, 05 NovSÃO PAULO ZBF

(ANSA) - Qual o valor do dano moral causado às pessoas que tiveram seus modos de vida completamente alterados após a devastação causada pela lama que vazou na tragédia de Mariana, em Minas Gerais? Exatos quatro anos após o rompimento da barragem da Samarco, essa é uma pergunta que tem gerado dificuldades para fazer avançar as negociações entre os atingidos e a Fundação Renova, entidade criada para reparar os prejuízos causados, conforme acordo firmado em março de 2016 entre a mineradora, suas acionistas Vale e BHP Billiton, o governo federal e os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo.
    "A questão do dano geral é a que está gerando mais indignação por parte das famílias", disse Flávia Maria, coordenadora da assessoria jurídica da Cáritas, organização que dá suporte aos atingidos.
    "Não estão levando em consideração diversos danos que foram levantados. Eles colocam um valor fechado e afirmam que não existe possibilidade de majorar o que apresentam. Não deixam muito claro quais os critérios usados e não fazem também menção ao dossiê [elaborado pelas assessorias técnicas dos atingidos] que traz os danos de cada um. Não explicam como chegaram naquele valor. Na proposta que eles apresentam a cada atingido, o dano moral aparece de maneira bem genérica", acrescentou.
   

Acordos fechados

Há pessoas atingidas, no entanto, que aceitaram os valores oferecidos. No dia 24 de julho de 2019, foram homologados pela Justiça os primeiros acordos de indenizações com 83 famílias.
    Segundo a Fundação Renova, de 882 famílias atingidas em Mariana, duzentas já finalizaram as negociações. Significa que 77% ainda não chegaram a um acordo.
    Entretanto, estes dados são diferentes dos apresentados pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que trazem um quadro ainda pior: apenas 151 de um total aproximado de 3,5 mil pessoas atingidas na cidade de Mariana já teriam recebido a indenização.
    "Há negociações em andamento. Mas também há atraso da Fundação Renova apara apresentar as propostas", disse o promotor Guilherme Meneghin.
    A Renova sustenta, em nota, que a negociação tem sido voltada para compreender cada caso e indenizar o atingido de forma justa conforme critérios pré-estabelecidos no ordenamento jurídico brasileiro.
    Segundo dados da entidade referentes a toda a bacia do Rio Doce e não apenas a Mariana, até agosto último, recursos já foram repassados a 319 mil pessoas, sendo R$ 813 milhões referente a indenizações e R$ 1,02 bilhão de auxílio emergencial mensal.
    Assegurado a todos os atingidos que perderam suas rendas, esse auxílio não tem natureza indenizatória e equivale a um salário mínimo, acrescido de 20% para cada dependente, além do valor de uma cesta básica.
   

Dano moral

No caso do dano moral, a Fundação Renova afirma que há equiparação entre todos os que compartilham de uma mesma situação. "O dano moral tem por objetivo compensar todos os sentimentos experimentados pelos atingidos em decorrência da situação de deslocamento físico permanente de suas residências.
    O modo como cada atingido absorve o que aconteceu varia de pessoa a pessoa e isso faz com que seja impossível chegar a um valor individual ideal de compensação desses danos", esclarece a nota.
    Para poder reclamar seus direitos, os atingidos em toda a bacia do Rio Doce puderam selecionar assessorias técnicas que lhes deram suporte com profissionais de áreas variadas como Direito, Sociologia, Arquitetura, Engenharia, etc.
    Essa prerrogativa foi assegurada em diferentes acordos que a Samarco firmou com o Ministério Público Federal (MPF) e com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Uma vez escolhida a entidade pelas próprias vítimas, a contratação é feita com recursos da mineradora e operacionalizada pela Fundação Renova.
    A Cáritas foi selecionada para o caso dos moradores de Mariana e, por determinação da Justiça mineira, assumiu ainda a responsabilidade do cadastramento dos atingidos da cidade. Essa é uma diferença no processo de reparação na cidade de Mariana, já que nos demais municípios da bacia do Rio Doce é a Renova que organiza esse registro.
    "Foram levantadas as perdas materiais como as casas, os bens móveis e a interrupção dos rendimentos profissionais. Mas, além disso, foram também evidenciados os danos morais, a partir do relato dos atingidos sobre o que eles sofreram. E este sempre é o dano que eles mais enfatizam. Envolve, por exemplo, a perda dos modos de vida e a saúde física e psíquica. Eles citam muito as relações de vizinhança que perderam, a rotina que tinham nas antigas comunidades e que foi completamente alterada", explicou Flávia Maria.
    Fonte: Agência Brasil (ANSA)

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