Cloroquina agrava situação de pacientes com Covid, diz estudo

Tratamento de 96 mil pacientes foi analisado por pesquisadores

Uso de cloroquina ou hidroxicloroquina em pessoas hospitalizadas não mostrou benefícios do uso da droga
Uso de cloroquina ou hidroxicloroquina em pessoas hospitalizadas não mostrou benefícios do uso da droga (foto: EPA)
14:05, 22 MaiSÃO PAULO ZGT

(ANSA) - O maior estudo já realizado sobre os efeitos da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pessoas que contraíram o novo coronavírus (Sars-CoV-2), realizado com mais de 96 mil pessoas em todo o mundo, mostrou que os medicamentos não apresentam benefícios para os pacientes.

Pior ainda, eles aumentam o risco de morte por problemas cardíacos.

"Este é o primeiro estudo em larga escala a encontrar evidências robustas estatisticamente falando de que o tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina não traz benefícios a pacientes com Covid-19", ressalta o documento.

Publicada na revista científica "The Lancet", a pesquisa compreende dados recolhidos de prontuários médicos de 96.032 pacientes em 671 hospitais em seis continentes, sendo que as pessoas estavam internadas entre os dias 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020, com teste positivo para o Sars-CoV-2.

Foram analisados "os pacientes que receberam um dos tratamentos de interesse dentro de 48 horas do diagnóstico e que incluíam um dos quatro grupos de tratamentos (apenas cloroquina, cloroquina com um macrólido [um antibiótico], apenas hidroxicloroquina, ou hidroxicloroquina com um macrólido), e pacientes que não receberam nenhum desses medicamentos formaram o grupo de controle".

Segundo os pesquisadores, aqueles que receberam os tratamentos após as 48 horas iniciais ou enquanto estavam em ventilação mecânica, ou ainda quem recebeu o remdesivir, um remédio que vem mostrando bons resultados no tratamento, foram excluídos do estudo.

A idade média dos pacientes era de 53,8 anos e 46,3% deles eram do sexo feminino. Ainda conforme o texto publicado na revista científica, 63.315 pacientes estavam na América do Norte, 16.574 na Europa, 7.555 na Ásia, 4.402 na África, 3.577 na América do Sul e 609 na Austrália.

Dos analisados, 14.888 estavam nos quatro grupos de tratamento e outros 81.144 pertenciam ao grupo de controle. Ao todo, 10.698 (11,1% do total) morreram por conta da Covid-19.

Dos que receberam os tratamentos com a medicação, 1.868 receberam apenas cloroquina, 3.783 cloroquina + antibiótico, 3.016 tomaram a hidroxicloroquina e 6.221 a hidroxicloroquina com macrólido.

Os estudiosos informaram, então, as taxas de mortalidade dos cinco grupos observados considerando os fatores de risco já conhecidos para o agravamento da doença, como idade e comorbidades.

Do grupo de controle, ou seja, aqueles que não usaram nenhum dos dois medicamentos, a taxa ficou em 9,3% de óbitos. Entre os que tomaram apenas a hidroxicloroquina, o dado subiu para 18% e para quem usou a hidroxicloroquina mais um macrólido, o índice ficou em 23,8%.

Já a cloroquina teve resultados melhores do que o de seu derivado: a taxa de letalidade ficou em 4,3% para uso só da substância e de 6,5% para a combinação com antibiótico. No entanto, os pesquisadores alertaram que o uso dela provocou, mesmo que não em termos fatais, um aumento de casos de arritmias cardíacas durante a hospitalização.

Além de não ajudarem na cura do novo coronavírus, os dois remédios aumentaram a chance de graves problemas de saúde. A hidroxicloroquina provoca uma aumento de 34% no risco de morte e de 137% no risco de arritmias graves, quando usada sozinha, e de 45% e 411%, respectivamente, quando usada com macrólidos.

A cloroquina sozinha aumenta a chance de morrer em 37% e de ter problemas cardíacos graves em 256%. Com antibiótico, ela mantém os 37% de risco de morte e de 301% no desenvolvimento de arritmias.

"Nós não conseguimos confirmar um benefício da hidroxicloroquina ou da cloroquina, quando usadas sozinhas ou com macrólidos, em internações hospitalares por Covid-19. Cada uma dessas drogas foram associadas com a diminuição da chance de sobrevivência e um aumento na frequência de arritmias cardíacas quando usadas para o tratamento da Covid-19", relata o estudo.

O medicamento voltou a ganhar destaque nas últimas semanas tanto nos Estados Unidos, com a revelação do próprio presidente Donald Trump de que está tomando o medicamento como prevenção - o que não é recomendado por nenhuma agência de saúde, inclusive a de seu governo, como no Brasil.

Há dois dias, o Ministério da Saúde criou um novo documento com a autorização de uso da cloroquina para pacientes com casos leves da Covid-19, desde que haja o consentimento do paciente. A insistência de Jair Bolsonaro com o medicamento, inclusive, é apontada como a principal causa do ex-ministro da Saúde Nelson Teich ter deixado o cargo. (ANSA)

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