Temer é investigado por corrupção, organização criminosa e obstrução

STF liberou conteúdo da delação de empresários da JBS

Protesto contra Michel Temer em São Paulo
Protesto contra Michel Temer em São Paulo (foto: EPA)
19:39, 19 MaiSÃO PAULO ZCC

(ANSA) - O empresário Joesley Batista, dono do grupo JBS, apontou em um dos anexos de sua delação premiada à Procuradoria Geral da República (PGR) pedidos de pagamento de propina feitos pelo presidente Michel Temer durante as campanhas eleitorais de 2010 e 2012.

As informações constam no Anexo 9, intitulado "Fatos diretamente corroborados por elementos especiais de prova Michel Temer". O documento, divulgado pelo portal "O Antagonista" e confirmado pelo jornal "Estado de S. Paulo", embasou a autorização para abertura de inquérito contra o peemedebista pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

No arquivo, Joesley afirma que conheceu Temer por meio do ex-ministro da Agricultura Wagner Ross, no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em abril ou maio de 2010. "JB [Joesley Batista] e Temer trocaram, então, telefones celulares e passaram a manter relacionamento por interesses comum", aponta trecho do anexo.

Na delação, o empresário ainda relatou ao menos 20 encontros com o atual chefe de Estado. "Ora nesse escritório [de Temer, em São Paulo], em seu escritório de advocacia, ora na sua residência, ora ainda no palácio do Jaburu".

Segundo o documento, em 2010, "atendendo a um primeiro pedido de Temer", o dono da JBS pagou "R$3 milhões em propinas", sendo R$ 1 milhão por meio de doação oficial e R$ 2 milhões para a empresa Pública Comunicações com notas fiscais frias.

Na ocasião, Temer disputou sua primeira eleição como candidato a vice-presidente na chapa liderada por Dilma Rousseff. No mesmo ano, Joesley afirma ter feito o pagamento de R$ 240 mil à empresa Ilha Produções, também com registro em notas fiscais.   

Mesmo com a polêmica delação, Temer negou, em pronunciamento, as acusações e afirmou que não renunciará à Presidência. "Sei o que fiz e sei a correção dos meus atos. Exijo investigação plena e muito rápida para os esclarecimentos ao povo brasileiro", ressaltou o presidente.

Sigilo

Nesta sexta-feira (19), o STF liberou o conteúdo na íntegra das delações premiadas dos empresários da JBS. As delações foram homologadas pelo ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato, e contêm cerca de 2 mil páginas. As oitivas foram gravadas em vídeo.

Um dos principais pontos é a gravação de uma conversa entre Joesley e Temer, na qual o presidente concordaria com o pagamento de propina ao ex-deputado Eduardo Cunha, que está preso em Curitiba, para mantê-lo em silêncio.

A prova faz parte da investigação que foi aberta contra Temer na Suprema Corte. No arquivo, também foram citados os senadores Aécio Neve (PSDB-MG), afastado do cargo, e Zezé Perrella (PMDB-MG), além da ex-presidente Dilma e o ex-ministro Guido Mantega.

O inquérito aberto pelo STF investiga Temer por crimes de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à Justiça. A informação consta no pedido de investigação feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR), aceito pelo ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato.

"Os elementos de prova revelam também que alguns políticos continuam a utilizar a estrutura partidária e o cargo para cometer crimes em prejuízo do Estado e da sociedade. Com o estabelecimento de tarefas definidas, o núcleo político promove interações diversas com agentes econômicos, com o objetivo de obter vantagens ilícitas, por meio da prática de crimes, sobretudo com corrupção", afirma o procurador-geral Rodrigo Janot em seu pedido.

'R$ 1 milhão no bolso'

O diretor do frigorífico JBS Ricardo Saud acusou o presidente Michel Temer de ter recebido R$ 15 milhões em propina do PT nas eleições de 2014 e de ter colocado R$ 1 milhão "no bolso".

A declaração foi dada em sua delação premiada ao Ministério Público Federal, cujo teor teve o sigilo derrubado nesta sexta-feira pelo Supremo Tribunal Federal. Segundo Saud, Temer e o ministro da Ciência Gilberto Kassab foram os únicos que ele viu usarem dinheiro de caixa dois em benefício próprio.

"O Michel Temer fez até uma coisa muito deselegante, porque nessa eleição eu só vi dois caras roubarem deles mesmos: um foi o Kassab e outro, o Temer. O Temer me deu um papelzinho e disse: olha, Ricardo, tem 1 milhão que eu quero que você entregue em dinheiro nesse endereço aqui", contou o delator.

O endereço em questão era da empresa de engenharia e arquitetura Argeplan, do coronel aposentado João Baptista Lima Filho, amigo do presidente da República.

"Eu já vi o cara pegar o dinheiro na campanha e gastar na campanha. Agora, o cara ganhar um dinheiro do PT e guardar no bolso dele, isso ai é muito difícil. Só o Temer e o Kassab que guardaram o dinheiro pra eles gastarem de outra forma", disse Saud.

O montante havia sido pago pela JBS ao Partido dos Trabalhadores, que teria repassado recursos ilegais para aliados nas eleições de 2014. (ANSA)

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