Eleições na Itália premiam voto antissistema

Juntos, M5S e Liga devem dominar quase 50% do Parlamento

Elezioni: M5S , Di Maio al voto (foto: ANSA)
08:20, 05 MarROMA ZLR

(ANSA) - O voto antissistema é o grande vencedor das eleições legislativas deste domingo (4) na Itália, o ponto máximo do desencanto da população com a política tradicional não apenas no país da bota, mas em toda a União Europeia.

Apesar de não serem aliados, o populista Movimento 5 Estrelas (M5S) e a ultranacionalista Liga Norte devem conquistar quase metade dos assentos no Parlamento (ou até mais), enquanto o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, e, de certa forma, o Força Itália (FI), legenda de centro-direita presidida por Silvio Berlusconi, amargam duras derrotas.

A coalizão de Berlusconi lidera todas as projeções e a apuração (ainda em estágio inicial), com cerca de 36% dos votos, mas, contrariando as pesquisas anteriores, o FI deve ser superado pela Liga Norte e perder a liderança da direita italiana.

Aos 81 anos e inelegível, o moderado Berlusconi se aliou à Liga e ao também ultranacionalista Irmãos da Itália (FDI) para tentar voltar ao governo e até indicou um futuro primeiro-ministro, Antonio Tajani, presidente do Parlamento Europeu, mas os números deste domingo o transformam em suporte à extrema direita, e não ao contrário.

Pelas projeções, a Liga terá por volta de 16% dos votos, enquanto o FI ficará com 14% a 15%. Se o presidente Sergio Mattarella entender que cabe à coalizão conservadora formar um governo, será Matteo Salvini, líder do partido nacionalista, o designado para a cadeira de primeiro-ministro.

"A minha primeira palavra: obrigado!", escreveu Salvini no Twitter, ainda com bastante comedimento para uma personalidade pouco afeita à moderação.

Mais votado

Quem também pode cantar vitória é o Movimento 5 Estrelas, que deve superar os 30% dos votos e se tornar o partido mais votado do país, justamente no momento em que ele parecia mais exposto: sem seu ideólogo, Gianroberto Casaleggio, morto em 2016, e sem seu fundador e rosto mais conhecido, Beppe Grillo, que pouco participou da campanha.

Comediante de carreira, Grillo abriu espaço para seu "pupilo" de 31 anos, o vice-presidente da Câmara dos Deputados Luigi Di Maio, que assumiu as rédeas do movimento e, superando uma série de escândalos, inclusive um sobre reembolsos falsos feitos por seus parlamentares, ruma para uma vitória histórica.

"Se os dados se confirmarem, será um triunfo do M5S, uma verdadeira apoteose, que demonstra a qualidade de nosso trabalho e que todos deverão falar conosco, e essa será a primeira vez", afirmou o deputado Alessandro Di Battista, um dos expoentes do movimento.

Nascido de um blog e controlado por uma empresa privada, a consultoria de informática Casaleggio Associati, o M5S toma suas principais decisões por meio de votações online e ganhou força calcado no voto de protesto. Passados quase 10 anos de sua fundação, em 2009, agora vai se acostumando às instituições.

O partido, que diz ser um "não-partido" - de fato, sequer tem uma sede física -, já governa a cidade mais importante do país, Roma, e outra capital de destaque, Turim, antigo bastião da esquerda. Como partido mais votado das eleições legislativas, exigirá o encargo de formar um novo governo.

A decisão caberá ao presidente da República e, se assim for, colocará à prova um dos maiores dogmas do M5S: a recusa em formar alianças. Se quiser governar, o movimento terá, necessariamente, de conquistar o apoio de antigos rivais, seja à direita, seja à esquerda, mas não parece disposto a ceder poder.

Antes mesmo das eleições, Di Maio enviou a Mattarella por email uma lista de ministros para seu "futuro governo". Por um lado, eleitores do M5S interpretaram essa iniciativa como uma forma de transparência. Por outro, adversários o acusaram de tentar subverter as instituições, já que o governo precisa refletir a composição de forças no Senado e na Câmara e, em última instância, cabe ao presidente indicar o primeiro-ministro.

O movimento ainda não deu indícios de quem procurará para formar uma coalizão, mas fala-se na Liga Norte, uma opção que causa arrepios em Bruxelas. Não tanto por um eventual "Italexit", já que os dois partidos agora defendem a permanência da Itália na União Europeia, mas pela possibilidade de ver um país historicamente pró-UE se tornando um obstáculo para as políticas comunitárias - principalmente no âmbito migratório.

"Falaremos primeiro com nossos aliados, já sabemos o que vamos fazer e olhamos para o futuro com serenidade", declarou, no calor dos primeiros resultados, o vice-secretário da Liga, Giancarlo Giorgetti, sem fechar as portas para o M5S.

Derrota

Se o futuro da Itália ainda está cercado de nuvens, já é possível definir o grande derrotado das eleições: o PD, que governa o país desde 2013 e pode não passar dos 20%. Popular em seu período como primeiro-ministro, o líder da sigla, Matteo Renzi, pagou o preço do ano longe do poder e terá um resultado que o marginalizará na formação de um novo governo.

Embora tivesse quase a metade da aprovação do premier Paolo Gentiloni, Renzi fez questão de assumir a linha de frente da campanha eleitoral e parece ter encontrado uma população já cansada de seu estilo agressivo e polarizador, capaz de levá-lo do céu ao inferno em pouco tempo - em menos de quatro anos, o ex-premier saiu da maior vitória da história do PD, os 40% nas eleições europeias de 2014, para sua pior derrota.

"Se esse for o resultado final, nós passaremos à oposição", reconheceu o líder do partido na Câmara, Ettore Rosato. A derrocada do Partido Democrático é mais um sintoma do mal enfrentado pela social-democracia em toda a UE, sem conseguir apresentar uma alternativa progressista e confiável para lidar com as crises econômica, migratória e de representatividade.

Renzi tentou conquistar o eleitorado com os resultados de seu governo - a retomada do crescimento, a queda, ainda lenta, do desemprego. Não deu certo. Depois apelou para o voto útil contra a extrema direita. Também não funcionou.

Por fim, buscou mostrar que Gentiloni poderia ser o premier em seu lugar em caso de vitória do PD, mas o partido ficou excessivamente ligado à sua imagem, que, como mostram as urnas, se desgastou com a mesma velocidade com que se criara.

"Estamos acompanhando a evolução dos resultados, e está claro que se trata de uma derrota muito evidente e muito clara", afirmou o vice-secretário do Partido Democrático, Maurizio Martina, também ministro dos Bens Agrícolas, durante breve pronunciamento à imprensa. (ANSA)

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