Processo de Salvini coloca aliados contra a parede

M5S terá de decidir se apoia ou não prosseguimento do inquérito

Matteo Salvini em meio ao vice-premier Luigi Di Maio (esquerda) e ao primeiro-ministro Giuseppe Conte (direita)
Matteo Salvini em meio ao vice-premier Luigi Di Maio (esquerda) e ao primeiro-ministro Giuseppe Conte (direita) (foto: ANSA)
16:19, 29 JanROMA ZLR

(ANSA) - A ameaça de processo contra o ministro do Interior e vice-premier da Itália, Matteo Salvini, líder da ultranacionalista Liga, colocou contra a parede seu aliado de ocasião, o partido antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), que provavelmente terá de escolher entre uma de suas bandeiras históricas ou a manutenção do governo.

Salvini, que também é senador da República, é investigado por sequestro, abuso de poder e prisão ilegal no caso do navio Diciotti, que passou cinco dias bloqueado na Sicília com mais de 150 migrantes a bordo, em agosto passado.

Como o vice-premier tem foro privilegiado, o inquérito corre no Tribunal dos Ministros de Catânia e depende de uma autorização do Senado para seguir adiante. Para isso, serão cruciais os 107 votos (de um total de 320) do M5S, que governa a Itália em aliança com a Liga e sempre teve o fim da imunidade parlamentar como uma de suas bandeiras.

Quando a investigação começou, em agosto, Salvini dissera que gostaria de ser processado o mais rapidamente possível, mas o ministro mudou sua posição nesta terça-feira (29) e, em uma carta ao jornal Corriere della Sera, disse que a decisão sobre o bloqueio do Diciotti foi tomada "no interesse público" e que a autorização pedida pelo Tribunal de Catânia "deve ser negada".

A mudança coloca o M5S em posição difícil, já que o partido havia anunciado que votaria pelo prosseguimento do processo, uma vez que o próprio Salvini desejava assim. Pelas leis italianas, um parlamentar condenado em último grau perde o mandato e fica inelegível por seis anos - é a mesma norma que tirou Silvio Berlusconi do Senado, em 2013.

Se votar como agora deseja Salvini, o movimento antissistema será cobrado pela oposição e por sua própria base eleitoral, que sempre viu em Beppe Grillo, Luigi Di Maio e seus comandados ícones de uma batalha contra a "casta" e os privilégios da política.

"Salvini deve ser processado, porque a lei é igual para todos. Fomos e sempre seremos contra os privilégios da casta, mesmo quando esses privilégios podem ser usados por nosso próprio governo", escreveu no Facebook Luigi Gallo, membro do M5S e presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados.

Outros expoentes do partido, como o ministro dos Transportes Danilo Toninelli, tentam argumentar que a decisão foi tomada em conjunto pelo governo, e não apenas pelo vice-premier. "Se processam Salvini, devem me processar também e todo o governo", disse.

Crise de governo

Se votar pela abertura do processo, no entanto, o M5S pode provocar uma crise no governo, que no Senado tem apenas 10 votos a mais do que a maioria mínima necessária: 161.

"Não tem nenhum sentido que um partido da maioria vote pela autorização para processar um ministro seu, porque significaria que aquele ministro não agiu segundo as indicações do governo, significaria abrir uma crise de governo", afirmou a líder do partido de extrema direita Irmãos da Itália (FDI), Giorgia Meloni, uma aliada histórica de Salvini, mas que foi alijada na coalizão com o M5S.

De acordo com as últimas pesquisas, a Liga se tornou o partido mais popular do país, com 32% da preferência, ultrapassando o M5S, que caiu para 25% - nas eleições de março de 2018, os ultranacionalistas obtiveram 17% dos votos, e o movimento antissistema, 32%.

Diciotti

O caso pelo qual Salvini é investigado ocorreu em agosto passado, quando a embarcação Diciotti, pertencente à própria Guarda Costeira italiana, resgatou 177 migrantes - a maioria da Eritreia - no Mediterrâneo Central Ao chegar no Porto de Catânia, o navio foi bloqueado por ordem de Salvini, que queria forçar outros países da União Europeia a acolherem os deslocados internacionais.

27 menores de idade puderam descer, mas 150 migrantes forçados ficaram presos no navio por cinco dias, até a Igreja Católica aceitar ficar responsável pelo acolhimento de 100 pessoas. Irlanda e Albânia também se comprometeram a abrigar 20 cada uma.

Inicialmente, os ministérios públicos de Catânia e Palermo, que abriram o inquérito, pediram seu arquivamento, mas o caso foi transferido ao Tribunal de Ministros, já que Salvini tem foro privilegiado

A investigação acontece no momento em que outro navio, este da ONG Sea Watch, está há quatro dias bloqueado a uma milha de Siracusa, em águas territoriais italianas, sem poder desembarcar os 47 migrantes a bordo.

Por ordem do ministro do Interior, a Itália não recebe mais embarcações de entidades humanitárias, acusadas por Salvini de agir em conluio com traficantes de seres humanos. (ANSA)

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