Morte de 2 meninos em feudo da máfia gera revolta na Itália

Garotos foram atropelados por SUV na frente de casa

Funeral de Alessio D'Antonio, em Vittoria, Sicília (foto: ANSA)
13:22, 14 JulVITTORIA ZLR

(ANSA) - A morte por atropelamento de dois meninos que estavam sentados na frente de casa em Vittoria, na Sicília, berço da máfia, causou uma onda de indignação na Itália, cujo governo costuma colar nos migrantes a pecha de principal problema de segurança pública do país.

Os primos Alessio D'Antonio, 11 anos, e Simone, 12, foram acertados em cheio por um SUV em alta velocidade no centro histórico de Vittoria, cidade de 64 mil habitantes situada na província de Ragusa, na noite da última quinta-feira (11).

O primeiro foi esmagado pelo automóvel e morreu na hora; o segundo agonizou por mais de dois dias no hospital e teve as pernas amputadas, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu na manhã deste domingo (14).

"Já na sua chegada havíamos avaliado sua condição como gravíssima. Tentamos salvá-lo de todos os modos, mas nenhum tratamento foi suficiente para mantê-lo vivo. Lamentamos muito", disse Eloise Gitto, diretora do Hospital Policlínico de Messina, para onde Simone havia sido transferido de helicóptero.

Máfia

O motorista do SUV, Rosario Greco, 37 anos, fugiu a pé da cena do crime com os três amigos que estavam no carro, Angelo Ventura, Alfredo Sortino e Rosario Fiore, alegando medo de "linchamento". Greco já foi preso pela polícia, testou positivo para drogas e álcool e acabou denunciado por omissão de socorro e homicídio no trânsito.

Os outros três se apresentaram voluntariamente a uma delegacia e inicialmente tentaram encobrir o motorista, mas depois forneceram um relato exato do episódio e jogaram a culpa no amigo. Ainda assim, foram denunciados por cumplicidade.

Greco já tinha precedentes penais por posse de armas e drogas e é filho de Elio Greco, considerado o "rei" das embalagens no mercado de Vittoria e que teve 35 milhões de euros em bens apreendidos pelo Tribunal de Catânia em janeiro passado.

Elio, segundo os magistrados, era afiliado ao clã Dominante-Carbonaro, de Ragusa, e próximo à família mafiosa dos Rinzivillo, da vizinha Gela. Em dezembro de 2017, chegou a ser preso em um inquérito sobre o suposto controle da máfia no fornecimento de embalagens ao mercado municipal de Vittoria. Na última Páscoa, voltou à cadeia, desta vez acusado de tentativa de homicídio.

Já Angelo Ventura é filho de Giambattista Ventura, tido como o líder da máfia na cidade. Dos quatro ocupantes do carro, o único "ficha limpa" era Rosario Fiore.

Vittoria já teve seu governo dissolvido por infiltração mafiosa um ano atrás. Além disso, a Guarda de Finanças apreendeu neste domingo o imóvel que abriga a delegacia da cidade, que tem como um dos proprietários uma família de Gela acusada de organização mafiosa - o aluguel do prédio custa 105 mil euros por ano ao Ministério do Interior da Itália.

"Espero que essa tragédia possa fazer os cidadãos entenderem que não se deve baixar a cabeça. Agora é o momento de libertar Vittoria", escreveu nas redes sociais o jornalista Paolo Borrometi, que vive sob escolta por denunciar negócios suspeitos de Giambattista Ventura.

"A máfia atacou novamente em Vittoria e não poupa nem mesmo crianças. Eles se sentem fortes e inimputáveis", disse o presidente da Federação Nacional de Imprensa Italiana (FNSI), Giuseppe Giulietti.

Comoção

Mais de 3 mil pessoas participaram neste domingo do funeral de Alessio D'Antonio, cujo corpo foi colocado em um caixão branco repleto de flores. A notícia da morte de seu primo no hospital chegou durante a missa e gerou um choro coletivo nos presentes.

Alessandro D'Antonio, pai de Alessio, disse no funeral que irá embora de Vittoria. "Depois dessa tragédia, não consigo mais viver nessa cidade. Não consigo mais entrar na minha casa", afirmou (ANSA)

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