Em meio a uma grave crise política, premier da Itália renuncia

Giuseppe Conte fez um pronunciamento no Senado e atacou Salvini

Em meio a uma grave crise política, premier da Itália renuncia (foto: ANSA)
07:30, 21 AgoROMA ZBF

 (ANSA) – Após discurso no Senado em meio a uma grave crise política, o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, apresentou oficialmente seu pedido de demissão ao presidente Sergio Mattarella na noite desta terça-feira (20).

Depois de renunciar ao cargo nas duas Câmaras Legislativas, o jurista seguiu para o Palácio do Quirinale, onde entregou o documento. Em comunicado, a sede da Presidência disse que tomou nota do pedido e “convidou o governo para cuidar dos negócios atuais”.

Segundo o texto oficial, Mattarella iniciará as novas consultas nesta quarta-feira (21), a partir das 16h (horário local). O calendário oficial ainda será revelado.
“Assumo a responsabilidade diante de meu país, dado que falta a [Matteo] Salvini essa coragem” de “assumir a responsabilidade por seu comportamento”, afirmou Conte, declarando o fim do governo.

“Não tem problema, se você não tiver coragem no nível político para assumir a responsabilidade pela crise não há problema, eu mesmo faço”, acrescentou o premier, antes de seguir para a sede da Presidência.

Salvini, por sua vez, voltou a defender a convocação de novas eleições e fez um apelo a Mattarella. “Eu peço votação para o presidente Mattarella. A estrada é a eleição”, reiterou.
“Sempre confiei em Mattarella, ele sempre disse que há um governo sério para fazer as coisas”, acrescentou o líder da extrema-direita.

O vice-premier da Itália ainda afirmou que percebeu uma “aversão à esquerda e parte do Movimento 5 Estrelas”. “Eu não acho que a Itália merece um governo contra. Eles fazem um governo todos juntos contra Salvini? Eu proponho um governo para cortar impostos, grandes obras, para a autonomia”.

 

Renúncia 

Em meio a uma grave crise política na Itália, o primeiro-ministro Giuseppe Conte anunciou sua renúncia durante pronunciamento no Senado. 

“A decisão da Liga Norte de propor uma moção de censura, a imediata ‘calendarização’ e as declarações e comportamentos claros me levam a interromper essa experiência de governo”, disse Conte, em um pronunciamento no Senado. “No fim deste discurso, irei ao presidente para renunciar. A crise atual compromete a ação deste governo, que termina aqui”, completou o premier.


Conte era aguardado no Parlamento italiano nesta terça-feira para fazer um discurso no qual poderia defender a continuidade do governo ou apresentar sua renúncia.


O jurista era o primeiro-ministro da Itália há 14 meses. Ele assumiu o posto por ser uma indicação neutra e consensual entre a Liga Norte e o Movimento 5 Estrelas (M5S). Os dois partidos foram os mais votados nas últimas eleições e, apesar de adotarem posicionamentos políticos diferentes, decidiram se unir e formar uma coalizão de governo baseada em um “pacto político”.


Em diversos momentos, porém, o M5S e a Liga Norte deram sinais de que a aliança estava se enfraquecendo e entraram em confronto sobre vários temas políticos, como um decreto de segurança proposto pelo ministro do Interior, Matteo Salvini, da Liga Norte, e com um projeto de construção do trem de alta velocidade (TAV), entre Turim e Lyon.


Foi justamente uma votação no Parlamento sobre o TAV que causou o racha definitivo no governo no início de agosto. A Liga e o M5S votaram em posições opostas, o que fez com que Salvini decretasse de maneira unilateral o fim da coalizão.


Analistas políticos acreditam que a manobra de encerrar a aliança com o M5S é uma estratégia da Liga Norte de tentar formar um governo sozinha na Itália, pois o partido foi o mais votado neste ano no país para as eleições ao Parlamento Europeu.


Apoiada pelas pesquisas de intenção de voto que lhe dão 38% das preferências em caso de uma eleição antecipada na Itália, a legenda nacionalista e anti-imigratória poderia formar um novo governo apenas com o apoio de pequenos e médios partidos de direita.


Discurso de Conte

O premier demissionário da Itália chegou ao Parlamento por volta das 15h locais (10h de Brasília). A maior parte do seu discurso serviu para atacar Salvini, quem Conte chamou de oportunista e irresponsável.


“A decisão de provocar a crise é irresponsável. O ministro do Interior mostrou que está seguindo interesses pessoais e do partido”, disse Conte. “Fazer os cidadãos votarem é a essência da democracia, mas pedir para que votem todo ano é irresponsabilidade”, ressaltou.


O tom usado por Conte surpreendeu o próprio Salvini, que acompanhou pessoalmente a sessão no Senado e reagiu às declarações balançando a cabeça.


“Os comportamentos adotados nos últimos dias pelo ministro do Interior revelam falta de responsabilidade institucional e grave carência de cultura constitucional. Eu assumo a responsabilidade pelo que eu digo”, criticou Conte.


O premier também afirmou que a decisão de Salvini de colocar fim à aliança com o M5S foi tomada “logo após [a Liga Norte] obter o voto de confiança no projeto de lei de ‘segurança bis’, com uma coincidência eleitoral que sugere oportunismo político”.


Em seu discurso, Conte, por fim, alertou que a convocação de eleições antecipadas na Itália apresenta riscos ao país. Segundo ele, além de obstruir o funcionamento do Parlamento no segundo semestre, prejudicaria a Itália nas negociações com a União Europeia.


“Esta crise ocorre em um momento delicado da interlocução com as instituições da União Europeia. Nos próximos dias, estão para serem concluídas as tratativas para os comissários europeus e eu estou trabalhando para garantir à Itália um papel central. É evidente que a Itália corre o risco de participar dessa tratativa em condições de fraqueza”, afirmou.


“O país precisa urgentemente que sejam finalizadas as medidas para crescimento econômico e investimentos. Caro ministro do Interior, promovendo essa crise no governo, você assume grande responsabilidade diante do país. Já te ouvi pedir ‘plenos poderes’ e invocar as praças, mas essa sua concepção me preocupa”, criticou Conte, dirigindo-se a Salvini.


O discurso de Conte foi aplaudido pelos políticos do M5S e do Partido Democrático, de esquerda. Pela manhã, o líder do M5S, Luigi di Maio, demonstrou apoio a Conte e disse que, se o premier enfrentasse uma moção de censura, o partido votaria a seu favor. O apoio declarado, porém, não foi o suficiente para poupar o M5S de críticas feitas por Conte também.


“Quando o presidente do Conselho de Ministros comparece a uma sessão, o respeito às instituições orienta que se permaneça na sala para escutá-lo. E não há razão que justifique a ausência”, alfinetou Conte, referindo-se a um episódio em que parlamentares do M5S não acompanharam um pronunciamento seu no plenário.

Reações

Salvini disse que “faria tudo de novo”, ao responder as críticas de seria o responsável pela crise política.

“Obrigado e finalmente: faria de novo tudo que fiz”, disse o líder do partido nacionalista Liga Norte, em um pronunciamento no Senado, logo após o discurso de Conte.


“Estou aqui com a grande força de ser um homem livre. Isso quer dizer que não tenho medo do julgamento dos italianos. Nesta sala, há mulheres e homens livres, e mulheres e homens menos livres. Quem tem medo do julgamento do povo italiano não é um homem ou mulher livre”, rebateu Salvini.

“É uma novidade o que aconteceu hoje. Lamento que o presidente do Conselho de Ministros tenha tido que me suportar por um ano”, disse Salvini, em tom de ironia. “Perigoso, autoritário, preocupante, ineficaz, inconsciente. Bastava o [jornalista Roberto] Saviano ou [Matteo] Renzi para me fazer tantos insultos, mas não o presidente do Conselho”, disse.


Salvini também tentou se defender dos ataques e argumentou que o governo terminou porque “no Parlamento, nas Comissões, em todo governo eram ‘muitos ‘nãos’ [aos projetos e propostas]”.


O líder da Liga Norte disse ainda que não teme uma aliança entre o Movimento 5 Estrelas e o opositor Partido Democrático. “Se quiserem completar as reformas, estamos aqui. Se quiserem governar com Renzi, boa sorte”, disse Salvini, referindo-se ao ex-parceiro de coalizão, Luigi Di Maio.

Já na saída do Senado, em entrevista à ANSA, Salvini também afirmou que "não se preocupa" com a dureza do discurso de Conte e acrescentou que não lamenta de ter ficado ao lado do premier do país europeu.(ANSA)

 

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