Novo governo da Itália já enfrenta ameaça de cisão

Matteo Renzi pode deixar o Partido Democrático nos próximos dias

Novo governo da Itália já enfrenta ameaça de cisão (foto: ANSA)
19:54, 16 SetROMA ZLR

(ANSA) - O novo governo da Itália mal tomou posse e já enfrenta a ameaça de uma cisão em um dos partidos da base aliada.

Nos últimos dias, ganharam força os rumores que apontam que o ex-primeiro-ministro e senador Matteo Renzi deixará o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, para fundar uma nova legenda.

Os boatos sobre sua saída do PD circulam na política italiana ao menos desde março de 2018, quando ele deixou o comando do partido, mas agora o rompimento é tratado por muitos como iminente.

"Não quero saber de conversa fiada. Sobre política nacional, falaremos na Leopolda, e eu serei claro como nunca", prometeu Renzi no último fim de semana, em entrevista ao jornal Corriere Fiorentino, fazendo referência ao congresso que ele promove anualmente em Florença, a Leopolda, e que em 2019 acontece de 18 a 20 de outubro.

Seu objetivo seria fundar uma legenda capaz de atrair votos de eleitores moderados de centro e até do Força Itália (FI), partido conservador presidido pelo ex-premier Silvio Berlusconi.

Ao mesmo tempo, Renzi continuaria na aliança com o populista Movimento 5 Estrelas (M5S) para tentar influenciar as decisões do primeiro-ministro Giuseppe Conte, que tomou posse para seu segundo mandato em 5 de setembro.

Durante um telefonema na tarde desta segunda, Renzi afirmou a Conte que disponibilizará seu “apoio total ao governo”. Fontes próximas ao senador confirmam que sua saída do PD não terá repercussões no Executivo.

Apesar de ser um dos maiores críticos do M5S, Renzi levantou suas barreiras a uma coalizão entre o PD e o partido populista para evitar o risco de uma ascensão do ex-ministro do Interior Matteo Salvini, da ultranacionalista Liga, ao poder.

No entanto, ao longo dos últimos dias, diversos aliados do ex-premier expressaram insatisfação com a ausência de toscanos no alto escalão do novo governo - Renzi é natural de Florença e foi prefeito da capital da Toscana entre 2009 e 2014.

"Espero que não tenha sido simplesmente um modo de atingir Renzi e nosso grupo, porque acho que os toscanos não merecem isso", afirmou na última sexta (13) a deputada Maria Elena Boschi, ex-ministra de Renzi. Já o deputado Ettore Rosato, também "renziano", foi mais longe e disse que uma eventual cisão seria uma "separação consensual".

Segundo informações de bastidores, o ex-primeiro-ministro já teria reunido os deputados e senadores necessários para formar um grupo parlamentar. Renzi sempre foi visto com desconfiança pelas alas mais à esquerda do PD, especialmente por aprovar uma lei que flexibilizou as leis trabalhistas e por seu estilo agressivo de comandar o partido.

Em função disso, dissidentes deixaram a legenda antes das eleições de 2018 e formaram uma nova aliança de esquerda, chamada Livres e Iguais (LeU), que tem pouca representação no Parlamento, mas também faz parte do governo com o M5S.

Reações

A expectativa de uma secessão no PD gerou reações e apelos por união por parte de expoentes do partido.

"Não faz sentido falar de separação consensual. Renzi foi um daqueles que fizeram um trabalho muito importante para chegar a essa solução [a aliança com o M5S], e agora vai romper porque não tem um ministro de Pontassieve [cidade onde Renzi reside]? Francamente, parece algo difícil de explicar aos italianos", disse o ex-premier Enrico Letta, derrubado por Renzi em 2014.

Já o líder do PD e governador do Lazio, Nicola Zingaretti, afirmou que um partido unido é "útil à democracia e à estabilidade do governo". "Dividir-nos neste momento é um erro gravíssimo que a Itália não entenderia", acrescentou.

O Partido Democrático foi criado no segundo semestre de 2007, com o objetivo de unir sob o mesmo guarda-chuva diversas alas da centro-esquerda italiana, desde ex-comunistas até sociais-democratas e egressos da antiga Democracia Cristã. Sua plataforma é progressista, europeísta e contrária à antipolítica.

O PD é também o mais heterogêneo dos partidos do país, com alas ligadas a sindicatos, ao mundo empresarial, à Igreja Católica, entre outras. Por conta disso, tem uma longa história de brigas internas e ameaças de cisão. (ANSA)

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