Destruída por alagamento, Veneza questiona projeto de comportas

Cidade italiana registou pior alagamento em meio século

Veneza registou pior alagamento em meio século (foto: ANSA)
20:27, 13 NovROMA E VENEZA ZBF

(ANSA) – “É uma situação dramática”, disse nesta quarta-feira (13) o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, ao visitar a cidade de Veneza, atingida pela pior enchente dos últimos 50 anos.


Formada por ilhas, cortada por canais e banhada pelo Mar Adriático, Veneza sofre frequentemente com alagamentos durante determinadas épocas do ano. O fenômeno - chamado em italiano de “acqua alta” - dessa vez atingiu a máxima de 1,87m na noite de ontem (12), fazendo a “La Serenissima” amanhecer hoje em meio a um cenário de destruição, com barcos e gôndolas tombados como brinquedos.


Ao menos duas pessoas morreram: um idoso de 78 anos, que foi levado pela correnteza, e um homem que passou mal em Pellestrina.


O primeiro-ministro italiano fez durante a tarde uma visita à cidade e participou de uma reunião técnica com a ministra das Infraestruturas da Itália, Paola De Micheli, com o governador do Vêneto, Luca Zaia, com o prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, e com membros da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros.


Segundo Brugnaro, o município ainda vai contabilizar os danos dos alagamentos, mas, “com certeza, estão na ordem de centenas de milhões de euros”. “Não se trata somente de quantificar os danos, e sim, de pensar no futuro da cidade. O fenômeno de despovoamento de Veneza é causado parcialmente por isso [alagamentos]”, alertou o prefeito.


Brugnaro, que decretou estado de emergência, anunciou que Veneza precisa imediatamente de apoio e recursos financeiros para gerenciar a situação e preservar o patrimônio cultural.


A Basílica de São Marco, um dos principais monumentos históricos e culturais de Veneza e a qual dá nome à praça mais famosa da cidade, foi uma das estruturas afetadas pelos alagamentos.

“Estávamos a um passo do apocalipse, a um fio do desastre”, disse à ANSA Pierpaolo Campostrini, responsável pela manutenção da estrutura da Basílica. "A água entrou na Basílica, alagou o pavimento, rompeu as janelas e chegou à cripta. A situação é perigosa porque a água pode causar problemas estáticos às colunas que sustentam a Basílica”, explicou.


Outro símbolo de Veneza, o Teatro La Fenice também foi afetado pelas inundações e cancelou todas as apresentações previstas para esta noite e para amanhã.


No Museu Ca'Pesaro, foram registrados focos de incêndio em decorrência do mau funcionamento da cabine elétrica. O icônico Palazzo Ducale também está com as portas fechadas e deve reabrir ao público somente na sexta-feira (15).


“É uma devastação apocalíptica total. Não exagero nas palavras, 80% da cidade está debaixo d´agua. Os danos são inimagináveis”, disse o governador Luca Zaia.


A catástrofe, além de danos, gerou revolta na população e em comerciantes locais, que vivem parcialmente da receita do turismo.


“O prefeito e as autoridades nacionais deveriam agir para colocar em funcionamento aquela máquina horrível que é o Mose”, desabafou à ANSA o italiano Arrigo Cipriani, de 87 anos, personagem histórico de Veneza e proprietário do Harry´s Bar, fundado em 1931.


Mose – acrônimo para Módulo Experimental Eletromecânico – é um projeto de engenharia civil e hidráulica ainda em fase experimental que deveria proteger Veneza do fenômeno da “acqua alta”.


O projeto, que começou a ser discutido em 1984, prevê a construção de 78 comportas do tipo basculante, posicionadas em pontos que se conectam com o Mar Adriático. As obras começaram em 2003 e são geridas pelo Consórcio Veneza Nova.


No entanto, em 4 de junho de 2014, uma investigação anticorrupção prendeu 35 pessoas e interrogou outras 100, entre políticos e funcionários públicos, ligadas ao projeto. Progredindo a passos lentos, o Mose está com sua inauguração prevista para 31 de dezembro de 2021.


De acordo com as previsões oficiais, o custo total da obra seria de 5.493 bilhões de euros, pagos em 15 anos, ao longo de 2003 a 2018. Os resíduos financeiros programados pelo governo são de 221 milhões de euros, a serem pagos de 2017 a 2024 – três anos depois da previsão de entrega. (ANSA)

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