Com pandemia sob controle, imigração volta à pauta na Itália

Governadores pediram medidas duras contra fluxos no Mediterrâneo

Migrantes a bordo de navio da ONG SOS Méditerranée, em 4 de julho
Migrantes a bordo de navio da ONG SOS Méditerranée, em 4 de julho (foto: )
15:09, 12 JulSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - Com a pandemia do novo coronavírus sob controle na Itália, o tema dos fluxos migratórios no Mar Mediterrâneo voltou ao centro do debate político no país, em meio ao costumeiro crescimento dos desembarques durante a temporada de verão na Europa.

Desde quinta-feira (9), mais de 900 migrantes forçados e refugiados chegaram em barcos clandestinos na ilha de Lampedusa, o centro habitado mais meridional do país e que fica mais perto do norte da África do que da Península Itálica.

A ilha de cerca de 6 mil habitantes é uma das principais portas de entrada para deslocados internacionais na Europa, mas seu centro de acolhimento tem capacidade para menos de 100 pessoas. Por conta disso, o governador conservador da Sicília, Nello Musumeci, cobrou do primeiro-ministro Giuseppe Conte a declaração de estado de emergência em Lampedusa.

Já em Amantea, na Calábria, italianos protestaram neste domingo (12) contra a chegada de 28 migrantes forçados positivos para a Covid-19. Os deslocados internacionais estão assintomáticos e foram colocados em isolamento pelas autoridades sanitárias.

A governadora da região, Jole Santelli, do partido conservador Força Itália (FI), pediu o deslocamento de unidades navais para a quarentena de migrantes e refugiados. Santelli ainda disse que, se o governo não der uma resposta rápida, ela proibirá desembarques na Calábria.

Atualmente, a Itália conta com uma balsa para quarentena, mas ela fica atracada em Porto Empedocle, na Sicília. "O Estado e o governo devem estar presentes e enfrentar uma situação que pode se tornar ainda mais explosiva", acrescentou.

Segundo Santelli, o governo italiano se contradiz ao proibir viajantes provenientes de 13 países, inclusive do Brasil, e "permanecer inerte em relação aos barcos que chegam da África".

O senador de extrema direita Matteo Salvini, ministro do Interior entre junho de 2018 e setembro de 2019, também voltou a dar prioridade à questão migratória, com posts diários em suas redes sociais sobre os desembarques no sul da Itália.

"Há dezenas de novos casos de imigrantes positivos ao vírus, Lampedusa está em colapso, não há nenhum traço das realocações, o famoso acordo de Malta desapareceu e as repatriações para a Tunísia estão bloqueadas com a desculpa da Covid. Esse governo coloca a Itália em risco", escreveu o líder da oposição no Facebook.

Sua sucessora no Ministério do Interior, Luciana Lamorgese, presidirá nesta segunda-feira (13) uma videoconferência com seus homólogos de Alemanha, Espanha, França, Malta e de cinco países africanos (Argélia, Líbia, Marrocos, Mauritânia e Líbia) para discutir a situação no Mediterrâneo.

A Itália fechou no ano passado um acordo com Alemanha, França e Malta para redistribuir deslocados internacionais que cruzam o Mediterrâneo, mas ainda não conseguiu emplacar a iniciativa em âmbito europeu, principalmente devido à resistência dos países do leste, como Hungria e Polônia.

Travessias

O número de migrantes forçados que cruzam o Mediterrâneo rumo à Itália vinha caindo desde 2017, quando o governo de Paolo Gentiloni, de centro-esquerda, assinou um acordo para treinar e equipar a Guarda Costeira da Líbia para conter os fluxos na região.

Em 2016, o país europeu acolheu 181,4 mil deslocados internacionais via Mediterrâneo, cifra que baixou para 119,4 mil no ano seguinte e 23,4 mil em 2018, quando Salvini assumiu o Ministério do Interior e endureceu as políticas migratórias.

Em 2019, cerca de 11,5 mil migrantes concluíram a travessia, de acordo com dados do Ministério do Interior. No entanto, as estatísticas oficiais mostram que a cifra voltou a subir neste ano: a Itália contabiliza a chegada de 8.087 deslocados internacionais em 2020, um aumento de 155,5% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Já em relação a 2018, o número apresenta queda de 52,3%. (ANSA)

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