França veta resolução da UE condenando ofensiva de Haftar

País europeu já foi acusado de dar apoio velado ao general

Milícias de Misurata partem para ajudar governo Sarraj em Trípoli
Milícias de Misurata partem para ajudar governo Sarraj em Trípoli (foto: EPA)
17:22, 11 AbrBRUXELAS ZLR

(ANSA) - A França bloqueou uma declaração conjunta da União Europeia que pedia para o general Khalifa Haftar interromper sua ofensiva militar para conquistar Trípoli, capital da Líbia.

A informação foi confirmada à ANSA por fontes diplomáticas em Bruxelas. Um dos informantes disse que Paris congelou o procedimento nesta quarta-feira (10), justamente por causa da referência a Haftar.

O governo francês já foi acusado pelo primeiro-ministro líbio, Fayez al Sarraj, de dar apoio velado ao general. "O ataque militar lançado pelo general Haftar sobre Trípoli está colocando a população civil em perigo e atrapalhando o processo político, além de arriscar causar uma nova escalada, com sérias consequências para a Líbia", diz a declaração vetada pela França.

O Ministério das Relações Exteriores do país europeu, no entanto, negou ter bloqueado o texto. "É uma acusação falsa. A França pediu que o texto fosse reforçado em três pontos essenciais para a UE: a situação dos migrantes; o envolvimento nos combates de grupos e pessoas sancionados pela ONU por atividade terrorista; e a necessidade de uma solução política sob os auspícios das Nações Unidas", afirmou a pasta.

No fim das contas, a declaração da União Europeia, divulgada nesta quinta-feira (11), não faz referência explícita a Haftar e apenas alerta que as forças que entraram em Trípoli devem "se retirar e respeitar a trégua pedida pela ONU".

"Se isso [o veto da França] for confirmado, seria algo grave. Espero - e digo isso com espírito propositivo, sem querer fazer polêmica - que Paris explique o quanto antes suas intenções na Líbia e esclareça sua posição sobre Haftar", disse o vice-premier e ministro do Trabalho da Itália, Luigi Di Maio. Roma apoia o governo de união nacional chefiado por Sarraj.

Até o momento, os confrontos iniciados em 4 de abril já deixaram 58 mortos, incluindo seis civis, de acordo com balanço da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, mais de 6 mil pessoas foram desalojadas nos arredores de Trípoli.

Entenda

A Líbia se fragmentou politicamente após a queda de Muammar Kadafi, em 2011, e desde então é palco de conflitos entre milícias.

De um lado, está o governo de união nacional guiado por Sarraj e apoiado pelos grupos armados de Trípoli e Misurata, pela ONU e pela Itália; do outro, o Parlamento de Tobruk, no leste do país e fiel a Haftar, que tem apoio do Egito e dos Emirados Árabes Unidos e lidera o Exército Nacional Líbio (ELN), principal força armada da nação africana.

O general, que busca derrotar o Islã político, e o Parlamento de Tobruk não reconhecem a legitimidade do governo Sarraj - instituído por uma conferência de paz no Marrocos, em 2015 - e controlam a maior parte do país, principalmente o leste e o desértico sul.

Ex-aliado de Kadafi, Haftar ajudou o coronel a derrubar o rei Idris, em 1969, mas rompeu com o ditador em 1987, após ter sido capturado no Chade. De lá, guiou, com o apoio da CIA, um fracassado golpe contra Kadafi. Por duas décadas, viveu como exilado nos Estados Unidos e ganhou cidadania americana.

Haftar se inspira no presidente do Egito, Abdel Fattah al Sisi, que deu um golpe militar em 2013 para derrubar o islamista Mohamed Morsi e o governo da Irmandade Muçulmana, colocada na ilegalidade. Existe ainda o temor de que a escalada dos conflitos abra espaço para o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) voltar a controlar territórios no país. (ANSA)

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