'Discursos lembram os de Hitler',diz Papa sobre nacionalismo

Entrevista com Francisco foi publicada no jornal 'La Stampa'

'Discursos lembram os de Hitler',diz Papa sobre nacionalismo
'Discursos lembram os de Hitler',diz Papa sobre nacionalismo (foto: ANSA)
14:14, 10 AgoCIDADE DO VATICANO ZCC

(ANSA) - Em meio à crise política envolvendo o governo italiano, o papa Francisco fez dura crítica contra o nacionalismo, responsável por conduzir guerras, e disse que o populismo não é uma reflexão da cultura popular.

Na entrevista publicada nesta sexta-feira(9), no jornal italiano 'La Stampa', o Pontífice fez um apelo ao diálogo nas instituições europeias, recordou a necessidade de valorizar a unidade dos povos europeus sem renunciar a própria identidade e lamentou o surgimento da soberania e do populismo.

"O nacionalismo é uma atitude de isolamento. Estou preocupado, porque ouvimos discursos que lembram os de Hitler em 1934. 'Primeiro nós. Nós... nós...': estes são pensamentos aterrorizantes", afirmou, sem nomear qualquer político.

Jorge Bergoglio ressaltou que a "Europa não pode e não deve se fragmentar. É uma unidade histórica e cultural, além de geográfica".

A conversa com o Papa é revelada no momento em que o governo italiano vive uma crise que pode provocar a ruptura da coalizão entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas (M5S), protagonizada pelo vice-premier e ministro do Interior Matteo Salvini.

Salvini, que se diz amigo do premier húngaro Viktor Orban e da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, reivindica pertencer a uma "frente nacionalista".

"Um país deve ser soberano, mas não fechado. A soberania deve ser defendida, mas as relações com outros países, com a Comunidade Europeia, também devem ser defendidas. O nacionalismo é um exagero que acaba sempre mal: leva a guerras", acrescentou o líder argentino.

Já em relação ao populismo, o Santo Padre explicou que esta prática também "fecha as nações". "O povo é soberano (tem seu jeito de pensar, de se expressar e de sentir, de avaliar), mas os populismos nos levam ao nacionalismo: esse sufixo, 'ismos', nunca faz bem", reforçou.

No bate-papo conduzido por Domenico Agasso, o líder da Igreja Católica também falou também sobre a Amazônia, o meio ambiente e migração, um dos principais desafios que os países europeus enfrentam atualmente. Ele indicou que, na hora de agir, é importante não perder de vista o direito à vida.

"Os imigrantes chegam principalmente para escapar da guerra ou da fome, do Oriente Médio ou da África. Sobre a guerra, devemos nos comprometer e lutar pela paz. A fome afeta principalmente a África", afirmou.

Por fim, o Papa disse que o próximo Sínodo sobre a Amazônia, que acontecerá em outubro, no Vaticano, é uma resposta da Igreja Católica a preocupações religiosas e ambientais, em uma região decisiva para a sobrevivência da humanidade.

"Não é uma reunião de cientistas ou de políticos. Não é um parlamento: é outra coisa. Nasce da Igreja e terá missão e dimensão evangelizadora. Será um trabalho de comunhão conduzido pelo Espírito Santo", explicou.

Segundo Francisco, a "ameaça à vida das populações e do território decorrem dos interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade". Para o argentino, a desmatamento da maior floresta do mundo significa "matar a humanidade".(ANSA)

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