Vaticano contesta órgão australiano sobre transações financeiras

Igreja é alvo de investigação por envio de 1,4 bilhão de euros

Maior parte do dinheiro foi enviada durante julgamento do cardeal George Pell
Maior parte do dinheiro foi enviada durante julgamento do cardeal George Pell (foto: EPA)
14:41, 07 JanSYDNEY ZGT

(ANSA) - O Vaticano teria contestado as informações da Austrac, a entidade do governo da Austrália que investiga crimes financeiros, sobre o envio de cerca de 1,4 bilhão de euros ao país entre os anos de 2014 a 2020, informou o jornal "The Australian" nesta quinta-feira (07).

Segundo os investigadores da Santa Sé tanto o valor total como as 400 mil transações financeiras citadas em relatório estão "significativamente superestimadas" pelo órgão australiano.

Ainda conforme a publicação, membros das unidades de inteligência financeira da Igreja Católica estão trabalhando de maneira próxima a Austrac para "estabelecer cifras corretas" sobre a transferência de fundos vaticanos para o país.

As fontes ouvidas pelo jornal afirmaram que os valores são "espantosos" e que duvidam de sua correção, já que o montante representaria "três ou quatro vezes" o orçamento anual do Vaticano. "Isso não é dinheiro nosso porque nós nem temos essa quantidade de dinheiro", disse um dos representantes vaticanos à publicação.

A revelação das transações financeiras foi feita pela Austrac após uma senadora questionar a presidente do órgão, durante uma reunião corriqueira, se ela confirmava que o Vaticano enviou dinheiro para o país acima do considerado normal durante o período. Não se sabe como a senadora Concetta Fierravanti-Wells soube da investigação que estava sendo feita pela Polícia Federal australiana, mas o fato é que há uma análise em andamento contra a Igreja Católica.

Isso porque os valores teriam sido enviados ao país durante o período em que o cardeal australiano George Pell respondia a um processo por abuso sexual de menores.

O prelado, o mais alto religioso da Santa Sé a responder judicialmente por pedofilia, foi condenado em primeira instância em 2018 a seis anos de prisão pelo abuso de dois adolescentes em 1996, em pena confirmada em agosto de 2019 pela Corte de Apelação. No entanto, em abril de 2020, a Alta Corte - a maior instância judicial do país - anulou a sentença por falta de provas e mandou o religioso ser libertado da prisão.

Os bispos australianos também estão questionando a quantidade de dinheiro, já que a Conferência Episcopal afirma não saber qual o destino do montante ao longo dos anos. Inclusive, enviaram um pedido para que o papa Francisco abra uma investigação sobre as remessas financeiras ao país.

Além disso, o período do envio da maior parte do dinheiro ocorreu durante o tempo em que o cardeal Angelo Becciu era o "número 2" da Secretaria de Estado do Vaticano (2011-2018). O religioso é um "adversário" ferrenho de Pell, que comandou a Secretaria para a Economia da Santa Sé entre 2014 e 2019 e é um dos maiores aliados do Pontífice.

Becciu já é investigado por ter usado milhões de euros da caridade da Igreja Católica para a compra de imóveis de alto luxo em Londres. (ANSA).
   

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