Via Crucis do Papa destaca solidão das crianças na pandemia

Celebração ocorreu na Praça São Pedro, no Vaticano

Criança entrega cruz nas mãos do papa Francisco, no Vaticano
Criança entrega cruz nas mãos do papa Francisco, no Vaticano (foto: ANSA)
17:42, 02 AbrVATICANO ZLR

(ANSA) - Em mais uma cerimônia esvaziada pela pandemia do novo coronavírus, o papa Francisco presidiu nesta sexta-feira (2) o tradicional rito da Via Crucis, também chamado de Via Sacra.

Essa foi a segunda vez seguida que uma das celebrações mais importantes da Semana Santa aconteceu na Praça São Pedro, e não no Coliseu de Roma, como de hábito, devido às medidas de restrição contra a Covid-19.

Os textos das meditações da Via Crucis foram confiados a crianças e adolescentes de um grupo de escoteiros da Úmbria, no centro da Itália, e de uma paróquia e dois abrigos de Roma. Cada uma das 14 estações também foi acompanhada por desenhos feitos por crianças.

Já a cruz foi carregada por jovens e educadores que participaram da elaboração das meditações. "Quando eu estava na primeira série, Marco, um menino da minha sala, foi acusado de ter roubado a merenda de um colega. Eu sabia que não era verdade, mas fiquei em silêncio, não era um problema meu", diz o texto da primeira estação da Via Crucis.

"Ainda hoje, quando penso nisso, sinto vergonha, sinto dor por aquela minha atitude. Eu poderia ter ajudado esse meu amigo, ter dito a verdade e ajudado a fazer justiça, mas me comportei como Pilatos e preferi fingir que nada tinha acontecido. Escolhi o caminho mais cômodo e lavei as mãos", acrescenta.

Solidão na pandemia

A meditação da nona estação abordou a solidão e a saudade provocadas nas crianças pela pandemia do novo coronavírus, que atingiu duramente a Itália e matou mais de 110 mil pessoas no país.

"No último ano, não visitamos mais os avós, meus pais dizem que é perigoso, que podemos fazê-los pegar a Covid. Sinto muita falta deles! Assim como sinto falta das amigas do vôlei e dos escoteiros. Frequentemente me sinto sozinha", diz o texto lido por uma menina.

Em seguida, a autora fala que sua escola está fechada e que ela gostaria de voltar à sala de aula para rever colegas e professores. "A tristeza da solidão às vezes se torna insuportável, nos sentimos abandonados por todos, incapazes de sorrir. Como Jesus, nos encontramos caídos no chão", acrescenta.

A pandemia também marcou a meditação da 13ª e penúltima estação. "Da ambulância, desceram homens que pareciam astronautas, cobertos com macacões, luvas, máscaras e viseiras, e levaram embora o vovô, que havia dias tinha dificuldades para respirar. Foi a última vez que vi o vovô, morto poucos dias depois no hospital, imagino que sofrendo também pela solidão", afirma o texto.

O autor ainda lamenta não ter podido dizer adeus a seu avô. "Rezei por ele todos os dias, assim pude acompanhá-lo em sua última viagem terrena", conclui. A Via Crucis foi encerrada pela meditação da adolescente Sara, de 12 anos, com uma mensagem de fé e esperança.

"Você [Jesus] me ensinou a superar cada sofrimento confiando-me a ti; a amar o próximo como meu irmão; a cair e me levantar; a servir aos outros; a liberar-me dos preconceitos; a reconhecer o essencial e, sobretudo, a unir cada dia da minha vida à sua. Hoje, graças ao seu gesto de amor infinito, sei que a morte não é o fim de tudo", diz o texto.

Ao fim da cerimônia, Francisco foi abraçado por crianças e adolescentes que participaram da celebração.

Os eventos da Semana Santa prosseguem neste sábado (3), com a Vigília Pascal na Basílica de São Pedro, e no domingo (4), com a missa de Páscoa e a sempre aguardada bênção "Urbi et Orbi" ("À cidade e ao mundo"), na qual o Papa aborda as principais crises da atualidade. (ANSA)

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