Hang diz à CPI que mãe morreu de Covid e cita 'erro' em atestado

Executivo da Havan prestou depoimento na CPI da Covid
Executivo da Havan prestou depoimento na CPI da Covid (foto: Agência Brasil)
19:04, 29 SetSÃO PAULO ZCC

(ANSA) - Em uma sessão tumultuada e marcada por muito bate-boca, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 do Senado ouviu nesta quarta-feira (29) o empresário bolsonarista Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan.

Em sua fala inicial, ele rechaçou o rótulo de negacionista, confirmou que a mãe morreu de Covid-19, negou ter pedido à Prevent Senior para omitir esse dado no atestado de óbito e disse acreditar que houve um "erro do plantonista" do hospital onde ela estava internada.

De acordo com Hang, ele só descobriu que o atestado de óbito não citava o novo coronavírus após relato na CPI da Covid. "Eu sou leigo. Eu não sei o que tem que botar no atestado de óbito", disse.

"Achei estranho não estar na certidão, no óbito, mas eu, sinceramente, sou leigo, se vai o quê? Cheio de doenças, são cinco doenças lá colocadas, e não estava o pós-covid, mas aqui eles me provaram que foi colocado", completou, em outro momento.

Ontem (28), a advogada Bruna Morato, representante legal de 12 médicos que fizeram denúncias contra a Prevent Senior, disse à CPI que a mãe do executivo morreu de Covid-19, ao contrário do que indicava o primeiro atestado de óbito.

De acordo com as denúncias dos profissionais, a Prevent Senior tem ocultado de forma proposital as mortes causadas pelo vírus, além de ter fraudado o atestado de óbito da mãe de Hang.

Regina Hang -

À CPI, o empresário disse que desde 2018 é um "ativista político" e acrescentou que o nome de sua mãe, Regina Hang, de 82 anos, que morreu em fevereiro depois de ser internada com covid-19, foi utilizado de forma "vil" e "política".

A mãe de Hang foi tratada no Hospital Sancta Maggiore, da rede da operadora Prevent Senior. A empresa é investigada pela CPI por supostamente ter imposto aos seus médicos que prescrevessem a seus pacientes o tratamento com medicações sem comprovação científica para tratamento da covid-19.

Segundo denúncias levadas à CPI, no atestado de óbito da idosa não há nenhuma menção ao novo coronavírus, contrariando recomendação expressa do Conselho Federal de Medicina (CFM).

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL) levantou a suspeita de que a omissão por parte de Hang esteja relacionada à tentativa de não desqualificar o chamado "tratamento precoce", do qual o empresário é defensor. "É duro para mim ver a morte da minha mãe sendo usada politicamente, de forma baixa e desrespeitosa. Não aceito desrespeito a morte da minha mãe. Tenho consciência de que como filho sempre fiz o melhor por ela", ressaltou Hang.

"O senhor é que trouxe o debate falando, suas palavras são claras: 'se minha mãe tivesse usado o tratamento precoce, talvez ela teria sido salva'. Não fomos nós que trouxemos sua genitora para esse debate", reagiu o presidente do colegiado, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Hang ressaltou que a mãe dele foi diagnosticada com Covid-19 no dia 28 de dezembro de 2020 e, até dia 1º de janeiro de 2021, recebeu o "tratamento precoce/inicial, em casa". Na versão dele, como a situação da paciente, que tinha comorbidades, piorou e ela chegou a ficar com 95% do pulmão comprometido, o empresário decidiu pela internação na Prevent Senior após recomendações de amigos.

O empresário defendeu o uso de medicação sem eficiência comprovada e, sem sucesso, sob críticas de parlamentares independentes e de oposição ao governo, quis convencer a cúpula da CPI de que há diferença entre tratamento precoce e preventivo.

O primeiro, disse, é feito na fase inicial da doença e o segundo, realizado antes do contato com o vírus. Ainda de acordo com o depoente, Regina Hang não teria tomado os medicamentos "preventivos" antes de ser acometida. Na avaliação dele, se a medida tivesse sido tomada, talvez ela estivesse viva.

Negacionismo -

Inicialmente, Hang afirmou que nunca duvidou da doença e enfatizou que não é "negacionista" e, inclusive, fez doações para ajudar no combate à Covid-19.

"Não sou negacionista. Nunca neguei ou duvidei da doença [Covid-19]. Tanto que minhas ações não ficaram só no discurso. Mandei 200 cilindros de oxigênio para Manaus, no valor de R$ 1 milhão. Respiradores, máscaras, camas, utensílios. Não sou nem nunca fui contra vacina. Tanto que disponibilizei todos os nossos estacionamentos como pontos de vacinação. Além disso, juntamente com outros empresários, fizemos campanha para que a iniciativa privada pudesse comprar [vacinas] para doar e ajudar o país a acelerar o processo de imunização", afirmou.

Aos senadores, o empresário disse ainda que é "acusado sem provas e perseguido" por expressar opiniões. Hang acrescentou que não conhece e não faz parte de um suposto gabinete paralelo - formado por pessoas que teriam aconselhado o presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia - e negou ter financiado esquemas de fake news.

Ainda em sua fala inicial, o depoente, investigado por disseminar notícias falsas, disse que deseja apenas exercer seu direito de "liberdade de expressão".

"O que eu peço pro Senado é que me deixem falar. Hoje eu vim aqui com tempo, a minha agenda está aberta aos senadores. Mas também quero tempo para poder dar a minha resposta. Talvez hoje seja o melhor dia da CPI. Vamos manter a nossa fala tranquila. Quem tem argumentos não precisa aumentar a voz", ressaltou.

Financiamento -

Durante a fase de perguntas feitas pelo relator, o empresário confirmou que tem três empresas em paraíso fiscal, assim como "duas ou três contas" no exterior, mas, segundo ele, todas estão devidamente declaradas e regularizadas perante a Receita Federal. Hang disse que desde 1993 passou a importar produtos e, por isso, considera uma questão de segurança manter contas no exterior para se proteger das oscilações do dólar.

Perguntado se recebeu financiamento de instituições públicas, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Hang disse que não e que optou por bancos privados. O empresário admitiu, no entanto, ter recorrido à Agência Especial de Financiamento Industrial (Finame), uma subsidiária do BNDES, para comprar máquinas no valor de R$ 50 milhões.

Segundo o presidente da comissão, documentos repassados pelo BNDES apontam 57 operações do banco de financiamento com o empresário, totalizando R$ 27 milhões. Hang rebateu a informação e afirmou que esse valor é o que as lojas dele faturam em um dia.

Cesta básica -

Questionado sobre os motivos de as lojas Havan, de propriedade de Hang, terem passado a vender cestas básicas, em meio às medidas de restrição adotadas para conter a disseminação do coronavírus em 2020, Hang negou que sua intenção tenha sido driblar a legislação para abrir as portas das lojas.

Segundo ele, a Havan possui Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (Cnae) para vender alimentos em qualquer município e é a que "mais vende chocolates" no Brasil. O empresário, no entanto, não explicou o motivo de ter começado a vender cesta básica somente após o início da pandemia.

Material -

Entre os vários momentos tumultuados da oitiva, Hang irritou os parlamentares ao levar placas em verde e amarelo com dizeres como: "Não me deixam falar". O material foi recolhido pelo presidente da comissão.

Ao passar pelo detector de metais na chegada ao Senado, ele também teve um par de algemas apreendido. O objeto foi o mesmo usado pelo empresário em um vídeo postado nas redes sociais. Na publicação, ele aparece com algemas e diz que elas seriam usadas por ele, caso recebesse voz de prisão na CPI. Ao falar sobre o vídeo hoje na comissão, Hang disse que o Brasil precisa ter mais senso de humor.

"Nós brasileiros estamos com o elástico muito esticado. Nós precisamos ter bom humor. Daqui a pouco, não vai ter nem mais programa de humor. É uma forma de eu me comunicar com o povo. Não quis de forma nenhuma afrontar esta Casa e seus senadores", justificou.

"O senhor acha que tem condição de brincar com isso? Isso é um desrespeito. Se o senhor não respeita sua dor, respeite pelo menos a dor dos outros", criticou Omar Aziz ressaltando, ao mencionar as quase 600 mil mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil.

Habeas corpus -

Luciano Hang está acompanhado por dois advogados. Apesar de não ter pleiteado habeas corpus junto ao Supremo Tribunal Federal, como investigado, Hang usou a prerrogativa de não precisar responder a questionamentos que o incriminem, por isso, não prestou compromisso de dizer a verdade hoje. (ANSA-Com Agência Brasil) 
   

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