(Análise) Do fim do mundo para a capa da Time

Com carisma e discurso inovador, o papa Francisco roubou a cena em 2013

Eleito em março, Bergoglio foi uma das pessoas mais influentes do ano (foto: ANSA)
09:04, 26 DezSÃO PAULO Beatriz Farrugia

(ANSA) – Em nove meses, ele deixou o "fim do mundo" para estampar a capa da revista Time como "pessoa mais influente" de 2013. Aos 77 anos de idade, o argentino Jorge Mario Bergoglio tem sacudido a Igreja Católica com suas reformas estruturais, declarações surpreendentes e um jeito simples e carismático de viver.

Sua eleição em 13 de março de 2013, por si só, já faria de Bergoglio um Papa diferente, pois seria o sucessor do histórico Bento XVI, o primeiro Pontífice a renunciar ao cargo nos últimos 600 anos.

Um mês, porém, foi tempo suficiente para Bergoglio dar indícios de que seu papado seria igualmente -- ou mais -- marcante que o de seu antecessor.

De formação jesuíta, o argentino logo de início recusou os luxuosos cômodos do Palácio Apostólico no Vaticano e optou por morar na compartilhada Casa de Santa Marta, onde até hoje costuma tomar café da manhã e celebrar missas com os funcionários locais. Bergoglio também dispensou o carro oficial da Santa Sé e o serviço de seguranças, quebrando protocolos.

A escolha de seu nome, inspirado em São Francisco de Assis, ajudou a construir o pilar de seu pontificado e a materializar sua ideia de igreja voltada para os pobres -- concepção que tem guiado seus discursos, missas e decisões.

Apesar do carisma esbanjado em suas aparições públicas, nas quais vez ou outra bebe mate da cuia de peregrinos, troca de solidéu com fiéis e beija crianças e idosos, o papa Francisco é um líder firme, exigente e crítico dentro da cúria romana.

Com poucos meses no cargo, Bergoglio promoveu reformas aguardadas há décadas e tocou em temas sensíveis ao Vaticano, como homossexualidade, pedofilia, papel das mulheres na igreja, corrupção e lavagem de dinheiro.

Francisco formou uma comissão para reformar a cúria e outra para acompanhar as operações do Instituto para as Obras de Religião (IOR), conhecido como Banco do Vaticano e alvo de denúncias e investigações. Também pediu que as dioceses prestassem assistência a vítimas de pedofilia, afastou do cargo um bispo alemão que esbanjava ostentação e reafirmou que as mulheres são, sim, essenciais para a vida religiosa.

Em uma declaração história, o Papa disse que os homossexuais não deveriam ser julgados ou marginalizados pela sociedade. "Se alguém é gay e busca o Senhor de boa fé, quem sou eu para julgar?", comentou o Papa. Sua posição sobre o tema lhe rendeu o título de "Pessoa do Ano" pela revista "The Advocate", a mais tradicional da comunidade gay norte-americana.

Na área política, Bergoglio fez fortes apelos contra o uso de armas químicas na Síria e convocou uma vigília de orações no Vaticano pelas vítimas do confronto civil. Ele também proferiu discursos contra a corrupção e a favor de líderes que governam pelo bem comum, além de cobrar medidas que evitem a morte de dezenas de imigrantes clandestinos que tentam chegar à Europa.

A multidão curiosa que Francisco arrastou pelas ruas do Rio de Janeiro, em julho, em sua primeira viagem internacional, comprovou que o recém-eleito Papa estava levando novos ares à Igreja Católica. E que a desmistificação em torno de sua figura -- como um ser humano que come, dorme, possui ex-namorada e time de futebol do coração, o San Lorenzo -- angariaria fãs pelo mundo todo, católicos ou não. (ANSA)

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