Especial/Abstenção preocupa na véspera das eleições nos EUA

'Fenômeno' é registrado em diversos países do mundo

Abstenção pode ser alta nas eleições nos EUA (foto: ANSA)
21:03, 07 NovSÃO PAULO Tatiana Girardi

(ANSA) -  Às vésperas das eleições presidenciais norte-americanas, além da disputa entre republicanos e democratas, o pleito mostrou um país dividido entre aqueles que vão votar e aqueles que optaram por se abster do processo democrático. Inúmeras foram as tentativas de líderes de ambos os partidos para estimular o eleitorado a votar e a desequilibrar a apertada votação para Donald Trump ou Hillary Clinton.

 

O temor é que se repita o desinteresse registrado em 2012, quando apenas metade dos eleitores - cerca de 120 milhões de pessoas - se dirigiram aos locais de votação e reelegeram o presidente Barack Obama.

 

Mas, essa abstenção pode causar uma alteração no resultado final? Para o professor de professor de sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rogerio Baptistini, não há uma relação direta sobre isso. "Não existe uma ligação direta na questão de causa e efeito, mas a não obrigatoriedade do voto faz com que algumas pessoas que consideram a política algo distante de sua vida prática, virem as costas para a participação. E isso pode levar a resultados que deturpem a própria noção do governo representativo. Explico.

 

O nosso estado moderno é feito para ser governado pelo próprio povo. Quando o cidadão se abstém de escolher um representante por meio do voto, esse representante escolhido tem a sua legitimidade ameaçada", destacou o professor à ANSA.

 

Já para o professor de relações internacionais da PUC-SP e coordenador do Observatório Político dos Estados Unidos (Opeu), Geraldo Zahran, "pode acontecer" uma alteração nos resultados por causa do pouco interesse dos eleitores em países com sistema de voto facultativo.

 

"As pesquisas mostram que quando o voto não é obrigatório, normalmente quem vota é a parcela da população mais instruída - classe média e alta - ou os ativistas, os mais radicais. Isso pode ter uma influência nessa eleição. Caso nessa eleição seja alto o comparecimento às urnas, isso tende a favorecer Donald Trump. Se for mais baixo, tende a favorecer Hillary", aponta Zahran à ANSA. O cientista político e professor da FGV/EAESP, Marco Antonio Teixeira, também vê na questão do voto facultativo um dos fatores para favorecer um ou outro candidato - mas aponta uma série de elementos para o resultado final.

 

"Lá, a natureza da política é um pouco diferente, [...] há vários fatores. Um deles, muitas vezes, quando um candidato está muito na frente, quem não votaria nele, se sente desmotivado a ir para às urnas. Assim, não dá pra colocar uma resposta só. Há uma combinação de fatores. O próprio dia das eleições não é um dia que seja feriado, é um dia normal de trabalho, uma terça-feira. Então, não dá pra cravar", acrescentou.

 

Os especialistas apontam ainda que uma das causas que leva ou não mais as pessoas às urnas é o fato dos Estados Unidos estarem divididos pela grande disputa registrada, ao longo de todo ano, na corrida à Casa Branca. A postura polêmica e combativa de Trump pode afetar o voto das pessoas e acirrar ainda questões com minorias criticadas por ele - ocasionando mais problemas eleitorais daqui a quatro anos.

 

Segundo Baptistini, o sistema democrático norte-americano apresenta "sintomas de caos político" ao permitir que alguém "com as visões de mundo dele" tenha grandes chances de se tornar presidente da República.

 

"A visão de mundo de Trump, a visão de homem, a visão de destino é precária. Isso é muito grave porque ele promete soluções de força, ele promete coisas para algo que ele não pode resolver, que estão muito além dele. Mas, o seu discurso, o discurso que ele emite, ganha repercussão, ganha adesão e coloca cidadão contra cidadão, dificultando ainda mais a formulação de consenso", destacou. 

 

Abstenções pelo mundo


O professor de sociologia ainda acrescentou que a abstenção tem se tornado um problema de diversas sociedades e muitos países pelo mundo. Para Baptistini, isso tem a ver com o fato de que as pessoas estão cada vez mais preocupadas consigo mesmas e sem se preocuparem com sistemas públicos que atinjam a todos.

 

"Acabamos deixando o destino comum em segundo plano e deixado decidir e deliberar os temas com destino do bem comum por grupos de interesses particulares, pouco comprometidos de fato com o interesse comum, com o bem coletivo e nós chegamos aonde estamos hoje: nunca produzimos tanta riqueza, mas ao mesmo tempo, nós produzimos tanta pobreza", destacou à ANSA.

 

A fala de Baptistini encontra confirmação nos números. Os europeus protagonizaram uma enorme abstenção nas eleições europeias de 2014, que registraram a menor participação da história, com apenas 42,5% de votos. Além disso, partidos de extrema-direita, com discursos anti-imigração, tem ganhado força em quase todos os países europeus.

 

No Brasil, as eleições municipais para o segundo turno tiveram as maiores abstenções dos últimos pleitos ficando em 21,6% do eleitorado - sete milhões de pessoas. No primeiro turno, o índice tinha sido maior que em 2012, ficando em 17,5%. Já quando o assunto é presidencial, quase 20% dos brasileiros optaram por não votar.

 

Na América Latina, o fenômeno não se reflete apenas no Brasil. As últimas eleições municipais no Chile, que conta com o sistema de voto facultativo, 64% dos chilenos não compareceram às urnas, no maior número de abstenções desde a volta da democracia, no ano de 1990.

 

Já quando o assunto foi referendo, as abstenções também foram marcantes. Quando os britânicos precisaram optar por ficar ou sair da União Europeia, o chamado "Brexit", 26% deles não foram às urnas e o resultado foi considerado uma derrota para a Europa. Na Colômbia, 63% dos eleitores optaram por não ir às urnas expressar se apoiavam ou não o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o "não" venceu por uma margem de apenas 60 mil votos.

 

De acordo com os especialistas, isso é causado pela crise nas instituições democráticas. Teixeira aponta que"apesar disso não ser uma crise de confiança na democracia, mas é muito mais, nas instituições e especialmente nas instituições políticas", o desinteresse das pessoas ainda não representa um risco à democracia ocidental "mas isso pode se deteriorar mais ao longo do tempo".

 

Baptistini segue a mesma linha e alerta para o perigo de líderes "populistas e verdadeiros demagogos" surgirem na esteira dessa descrença com os atuais sistemas democráticos.

 

"Nós temos visto aparecerem no mundo, líderes populistas, verdadeiros demagogos, que dão solução de força ou soluções fracas para problemas complexos porque, de fato, os problemas que nós enfrentamos, não são problemas que serão resolvidos por um partido ou por um homem. Eles dependem de todos nós. Eles acabam nos conduzindo a impasses ainda maiores do que aqueles que eles pretendem resolver", destaca.

 

Já Teixeira ressalta que esse tipo de discurso populista "pode começar a cortar muitos direitos". "Na Europa, há um discurso muitas vezes xenófobo, que coloca em risco não apenas imigrantes, mas também minorias. Eu acho que não dá pra negligenciar isso, deve-se dar a devida importância, e sobretudo dar respostas às questões que levam a sociedade a buscar esse tipo de resposta e de saída", acrescenta.

 

E essa saída, segundo Baptistini, passa pela educação dos mais jovens. "Essa formação tem que colocar o público acima do interesse individual. Tem que colocar o longo prazo acima do curto prazo. Tem que colocar grandes temas da humanidade acima do ganhar dinheiro. Como isso é muito difícil, só me resta o ceticismo", finaliza. (ANSA)

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