Mario Draghi, o italiano que salvou o euro

Presidente do BCE encerra seu mandato após pior crise na UE

Mario Draghi impulsionou economias da zona do euro com pacote de estímulos trilionário
Mario Draghi impulsionou economias da zona do euro com pacote de estímulos trilionário (foto: EPA)
16:24, 28 OutSÃO PAULO E FRANKFURT ZLR

(ANSA) - "O BCE está pronto para fazer o que for preciso para preservar o euro e, acreditem em mim, isso será o bastante." Essa frase, dita em 26 de julho de 2012, é um símbolo da gestão de Mario Draghi à frente do Banco Central Europeu. Nesta segunda-feira (28), aos 72 anos, o italiano encerra seu mandato na instituição e deixa Frankfurt como o homem que salvou o euro.

Há sete anos, Draghi enfrentava a crescente desconfiança de investidores em relação ao futuro do maior projeto de integração monetária do planeta. Com Estados endividados empurrando o euro para o abismo, o presidente do BCE resolveu deixar claro que não mediria esforços para evitar o colapso da moeda.

Uma semana depois, com a oposição da poderosa Alemanha, o Banco Central Europeu anunciou um programa chamado "Transações Monetárias Definitivas" (OMT, na sigla em inglês), que previa a aquisição no mercado secundário de títulos soberanos emitidos pelos membros da zona do euro.

O instrumento nunca precisou ser usado, mas foi o suficiente para dar uma injeção de confiança nos investidores. No início de 2015, Draghi anunciaria uma nova arma, ainda mais potente: a "flexibilização quantitativa" (QE).

Com esse programa, o BCE injetou até 80 bilhões de euros por mês nos países da zona do euro, por meio da compra direta de títulos de instituições financeiras, com o objetivo de derrubar as taxas de juros, evitar o risco de deflação e impulsionar o crescimento econômico na União Europeia.

Em outras palavras, o Banco Central Europeu imprimiu trilhões de euros em moeda para aumentar a liquidez do sistema bancário no bloco, um instrumento que foi crucial para a recuperação - ainda que discreta - de muitos países da região, como a Itália.

Encerrado em dezembro de 2018, o programa será retomado pelo BCE em novembro devido à desaceleração econômica e prevê a injeção de pelo menos 20 bilhões de euros por mês, "pelo tempo que for necessário".

"Em 2011, o impacto da crise financeira impunha à união e ao banco, em primeiro lugar, uma mudança de passo. O desafio havia se tornado existencial: derrotar a percepção da possibilidade - até mesmo do risco - de dissolução do próprio sistema europeu. Uma possibilidade que hoje podemos considerar superada", disse o presidente da Itália, Sergio Mattarella, nesta segunda-feira, em um discurso em Frankfurt na cerimônia de despedida de Draghi.

Já a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, sempre a favor de uma política econômica mais austera, reconheceu que o italiano foi "crucial" para a estabilidade da zona do euro, ao ter evitado o "colapso" da moeda comum.

Defensor do euro

Para Arnaldo Francisco Cardoso, professor de relações internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville, na Grande São Paulo, Draghi deixa o BCE como um "enfático defensor do euro".

Apesar disso, o especialista acredita que os instrumentos usados pelo italiano não foram suficientes para estimular as economias europeias. "O Banco Central Europeu está enfraquecido em relação à política dos bancos privados internacionais, que não estão aguardando sua orientação e conduzem suas próprias políticas de crédito", afirma Cardoso.

Draghi será substituído pela francesa Christine Lagarde, ex-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e que assume o cargo oficialmente em 1º de novembro. Segundo o professor do Mackenzie, sua tarefa será administrar uma política que preserve a estabilidade do euro e identifique caminhos para estimular a economia.

Em seu discurso de despedida, Draghi afirmou que o Banco Central Europeu estará "em boas mãos" com Lagarde, mas relembrou o "whatever it takes" de sete anos atrás. "O BCE demonstrou que não aceitará nenhuma ameaça à estabilidade monetária, causada por temores infundados sobre o futuro", disse o italiano, que fez o que foi preciso para preservar a moeda comum. (ANSA)

Todos los Derechos Reservados. © Copyright ANSA