Especial/A pandemia que parou o mundo

2020 ficou marcado pela frustração de uma crise sem fim

Bloqueio na Praça São Pedro, Vaticano, no dia de Natal (foto: ANSA)
07:41, 30 DezSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) - Era 20 de fevereiro quando o infectologista italiano Jacopo Monticelli tentava decifrar um misterioso caso de pneumonia em um hospital da província de Pádua. Naquele dia, a Itália ainda não tinha nenhum registro de transmissão interna do novo coronavírus, enquanto o mundo contabilizava apenas 76.212 casos e 2.248 óbitos causados pelo Sars-CoV-2, 99% deles na China, o “marco zero” daquela que se tornaria a pior pandemia em um século.

Monticelli, 34 anos, era infectologista consultor no Hospital Madre Teresa de Calcutá, em Monselice, e havia examinado um paciente idoso que estava em estado grave e apresentava todas as características de uma pneumonia gripal, mas essa hipótese tinha sido descartada por exames sorológicos.

“Naquele ponto, o paciente piorou, e eu o visitei junto com colegas anestesistas, que me disseram: ‘Sabia que também tem um amigo dele de baralho internado?’”, conta Monticelli, em entrevista à ANSA.

Em 20 de fevereiro, o infectologista decidiu visitar o amigo do idoso hospitalizado e ouviu que todos os seus companheiros de bar estavam com tosse e febre. “Não eram mais um ou dois pacientes, era uma pequena comunidade. Pensei: ‘Por que não ver se é o novo coronavírus, mesmo que nenhum dos pacientes tivesse tido contato com a China?’. E descobrimos que sim”, diz.

Adriano Trevisan, um pedreiro aposentado de 78 anos, faleceu em 21 de fevereiro e se tornou a primeira vítima da Covid-19 na Europa considerando apenas os casos de transmissão interna – seis dias antes, uma turista chinesa já havia morrido na França.

Pouco mais de um mês depois, cerca de metade dos 7,6 bilhões de habitantes do planeta estava sujeita a obrigações ou recomendações de confinamento, quarentena ou toque de recolher, algo inédito na história da humanidade.

Pessoas trancadas em casa, ruas desertas, igrejas sem fiéis, comércios fechados, indústrias paralisadas, um mundo frenético repentinamente tomado pelo silêncio. E pela dor.

“Foi muito traumatizante”, relata Monticelli, que passou o ano inteiro na linha de frente contra a pandemia, primeiro em Monselice, como o único infectologista no hospital, e agora em Trieste. “Eu lembro que esperava que especialistas fossem chegar a qualquer momento e dizer ‘Agora é com a gente’”, conta o médico, lembrando daqueles primeiros dias de uma crise ainda sem data para acabar.

Quando surgiram os primeiros casos no norte da Itália, no fim de fevereiro, Monticelli ainda achava que a situação podia ser administrável. Porém março trouxe consigo infecções e mortes cada vez mais frequentes, não só na Itália como no restante do mundo.

“No início de março, começamos a ver muitíssimos casos graves que chegavam tarde demais no hospital. Ali começou o medo. Era difícil encontrar vagas para todos”, relata.

Evolução exponencial

Desde janeiro, os casos e mortes globais ligados ao Sars-CoV-2 passaram a ser monitorados 24 horas por dia pela Universidade Johns Hopkins, um dos principais centros de excelência em medicina e estatística dos Estados Unidos.

De acordo com o portal que reúne os dados, o mundo atingiu seu primeiro milhão de casos certificados em 2 de abril; o segundo, 13 dias depois; o terceiro, após mais 12 dias. A partir daí, em escala cada vez mais rápida – com uma pequena desaceleração nos meses de verão no Hemisfério Norte –, até chegar ao estágio atual, com cerca de 700 mil contágios por dia.

Isso é reflexo da constante evolução da capacidade de processamento de exames, mas também de um fato muitas vezes ocultado por melhoras momentâneas em determinados países: o mundo sequer passou perto de controlar a Covid-19.

O número de mortes diárias no planeta continua em alta, e qualquer cifra consolidada escrita neste texto ficaria desatualizada em questão de horas. Mas a análise da curva de óbitos não deixa dúvidas.

Foram necessários cerca de nove meses para atingir 1 milhão de mortes causadas pela Covid-19; três meses depois, o planeta já soma 1,75 milhão de óbitos.

Enquanto seguia infectando e matando, o novo coronavírus fechou fronteiras, paralisou o esporte, colapsou o setor de turismo, forçou a cultura a se adaptar a uma realidade distópica, desafiou a política e as religiões e desmentiu negacionistas com a mesma velocidade de sua disseminação.

Também deixou dúvidas existenciais e de ordem prática. O que será do mundo no pós-pandemia? Quando teremos uma vacina segura para todos? Mas um ano que foi marcado pelas repetidas frustrações de uma crise sem fim termina com uma injeção de esperança.

Países que se anteciparam na compra de vacinas já começam a imunizar suas populações de risco, e a indústria farmacêutica promete despejar bilhões de doses no mercado em 2021. Vacinas tradicionais, vacinas inovadoras, vacinas europeias, americanas, russas, chinesas, indianas, um arsenal de possibilidades para fazer frente ao Sars-CoV-2.

“Não acredito que o vírus vá desaparecer totalmente, mas a vacina abre uma porta de esperança porque é o único modo de todo mundo sair dessa pandemia”, diz Jacopo Monticelli, que viu a crise logo em seu início e hoje enxerga a tão aguardada luz no fim do túnel. (ANSA)

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