Capitais da Cultura na Itália preservam bens e se reinventam na pandemia

Cidades eleitas precisaram apostar na inovação digital

Pequena ilha de Procida, na Campânia, será a detentora do título de 2022 (foto: ANSA)
20:13, 23 AbrSÃO PAULO Por Luciana Ribeiro

(ANSA) - Por Luciana Ribeiro - A Itália tem um dos patrimônios artísticos-culturais mais celebrados no mundo, e seus bens não ficam apenas em grandes centros, mas se espalham por todo o território nacional. E é por esse motivo que, ano após ano, o país elege uma "capital da cultura" para preservar heranças regionais, promover o crescimento econômico e atrair atenção para cidades muitas vezes pouco conhecidas.

Além do prestígio, o reconhecimento também tem como objetivo apoiar e incentivar as autoridades locais a aumentarem sua capacidade de planejamento cultural, tendo em vista que é preciso desenvolver um projeto inovador e transversal para concorrer ao título.

A iniciativa teve início em 2014, na disputa para escolher a Capital Europeia da Cultura de 2019. Na ocasião, Matera venceu o concurso, mas o empenho e a criatividade que as seis cidades finalistas demonstraram nos dossiês de candidatura convenceram o governo a proclamar as outras cinco concorrentes - Cagliari, Lecce, Perúgia, Ravenna e Siena - como capitais italianas da cultura em 2015.

A partir disso, o título passou a ser concedido anualmente e já premiou os municípios de Mântua (2016), Pistoia (2017), Palermo (2018) e Parma (2020 e 2021). Não houve vencedora em 2019 porque Matera já era Capital Europeia da Cultura naquele ano, e o mandato de Parma em 2020 foi prorrogado em um ano devido à pandemia. Em 2022, a pequena ilha de Procida, na região da Campânia, será a detentora do título.

Em entrevista à ANSA, a diretora da Fundação Matera-Basilicata, Rossella Tarantino, explica que receber essa homenagem "pode trazer enormes benefícios para uma cidade em termos culturais, sociais e econômicos, tanto durante o ano do evento como nos seguintes".

"Essa é uma oportunidade única para renovar a cidade, mudar sua imagem e torná-la mais conhecida em nível europeu e internacional, desenvolvendo o turismo e, consequentemente, a economia local. Mas também para desencadear processos virtuosos na comunidade, como o fortalecimento do sentimento de orgulho e pertencimento, do espírito cívico e da mudança de percepção graças à contribuição do olhar externo sobre a própria cidade", diz.

A concessão do título envolve uma série de oportunidades, desde a possibilidade de ativação de financiamentos para projetos culturais até a inclusão social e o aumento da atratividade turística, que tende a impulsionar a economia.

Segundo Tarantino, os benefícios também incluem "processos de renovação urbana, ampliação das competências de quem trabalha no setor cultural e criativo e expansão da rede de relações internacionais".

O título é concedido pelo Ministério da Cultura, que oferece 1 milhão de euros para a cidade premiada. Com o incremento nas receitas, cada capital promove uma extensa programação de eventos ao longo de seu mandato anual.

"O programa deve ser sustentado por um dinamismo cultural que vá além dos aspectos históricos da cidade e, em particular, da riqueza do seu patrimônio", explica a diretora da Fundação Matera-Basilicata.

Cidades eleitas na pandemia -

Atualmente, a detentora do título é a cidade de Parma, que desde o ano passado vem tentando organizar seu calendário de eventos em meio às regras sanitárias contra a Covid-19.

A ideia foi apostar na inovação digital para promover peças teatrais, exibições de filmes, concertos musicais, encontros com autores, apresentações de dança e exposições mesmo em meio às restrições. Para Michele Guerra, secretário de Cultura de Parma, a cidade "teve um retorno muito alto em termos de visibilidade" apesar da emergência sanitária, que foi "um golpe sério".

"São eventos recolhidos que falam em uma linguagem diferente, mas que se multiplicam no espaço e se propagam, superando os limites em que existiam, envolvendo toda a cidade e seus bairros. A situação ligada à emergência da Covid-19 deu um novo impulso à cultura, que reagiu com entusiasmo e criatividade", afirma.

O setor cultural na Itália tem sido um dos mais afetados pela pandemia e foi obrigado a se reinventar para sobreviver. Entretanto, a designação da Capital da Cultura em 2022, anunciada em janeiro, tem sido interpretada como um "sinal de futuro, de recuperação, principalmente porque existe a esperança de que a cultura e o turismo voltem tão importantes e fortes no próximo ano como eram antes da emergência sanitária", segundo o diretor cultural de Procida, Agostino Riitano.

Procida, a menor das ilhas do Golfo de Nápoles, será a primeira cidade insular a deter o título, sob o lema "A cultura não isola". O programa apresentado pelo município inclui 44 projetos culturais, 330 dias de eventos, 240 artistas, 40 obras originais e oito espaços recuperados, incluindo o antigo presídio de Terra Murata.

Na justificativa para escolher a ilha, a comissão responsável citou sua "dimensão paisagística extraordinária" e uma abordagem "experimental que inclui aspectos sociais e de difusão tecnológica".

"O projeto é um modelo para os processos de desenvolvimento sustentável baseados na cultura da ilha e nas realidades costeiras de toda a Itália", afirma Riitano, acrescentando que a expectativa é de que o título desencadeie "mecanismos virtuosos entre as realidades econômicas e sociais" para além de 2022.

"Será uma mudança histórica: para Procida, que continuará a se beneficiar nos anos seguintes, e para todos os municípios da chamada 'Itália menor', muitas vezes ofuscada pela beleza das grandes cidades de arte", ressalta.

De acordo com Riitano, "Procida 2022 será um recomeço simbólico, uma reabertura à vida após os dramáticos parênteses da pandemia". "A cultura serve para consertar todas as relações humanas e sociais que este inacreditável período prejudicou", enfatiza.

Apesar da esperança para o retorno da vida normal em 2022, o diretor cultural de Procida explica que não fará uma "Disneylândia" de eventos, principalmente para evitar o turismo de massa, que não é adequado para uma ilha de apenas quatro quilômetros quadrados.

"Trabalharemos para acolher os residentes temporários de Procida e optaremos por um turismo ecológico lento e responsável. O respeito ao meio ambiente é fundamental, Procida é cercada por uma área marinha protegida, o Reino de Netuno", diz.

Em 2023, o título de capital da cultura será dividido entre Bergamo e Brescia, com o objetivo de marcar o "renascimento" de dois municípios duramente afetados pela pandemia de Covid-19. (ANSA)

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