O que será da liderança na União Europeia com a saída de Merkel?

França deve ser sucessora temporária até Alemanha se estabilizar

De saída do cargo, Merkel deve deixar vácuo no poder da UE
De saída do cargo, Merkel deve deixar vácuo no poder da UE (foto: EPA)
15:06, 23 SetSÃO PAULO Por Tatiana Girardi

(ANSA) - A partir do fim de setembro, a União Europeia iniciará um período de incerteza sobre sua liderança política. A Alemanha terá eleições no próximo domingo (26), e a chanceler Angela Merkel, principal figura do bloco, não disputará o pleito e deixará o poder.

Especialistas apontam que a França vai surgir, ainda que temporariamente, como "sucessora" natural até que a situação se reorganize na Alemanha, mas todos advertem que, em 2022, será a vez de Emmanuel Macron enfrentar eleições complicadas.

"Acho que a Alemanha continua com poder importante, e o sucessor de Merkel vai ter essa característica, seja quem for eleito, porque a característica parlamentarista alemã sempre traz pessoas com experiência para a Chancelaria, mas eu acredito muito no poder da Alemanha em parceria com a França", destaca o coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Márcio Coimbra, em entrevista à ANSA.

Para ele, Macron surge "como a grande voz, pelo menos nesse primeiro momento, até uma liderança alemã se consolidar. "Nós teremos eleições francesas [em 2022], e se o Macron se reeleger, com certeza assume esse papel de porta-voz da Europa, mas como ele vai ter uma eleição muito difícil, a gente não sabe como vai ser." Já o professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Pedro Brites ressalta que uma eventual vitória de Armin Laschet, da União Democrata-Cristã (CDU), partido da atual chanceler, representaria a manutenção da política externa de Merkel.

"Ele foi um dos poucos que apoiaram amplamente a política dela de atender imigrantes, então hoje me parece que o cenário apresenta uma tendência de continuidade", acrescenta.

Para o alemão Kai Enno Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), mesmo se o sucessor de Merkel for o vice-chanceler social-democrata Olaf Scholz, favorito nas pesquisas, haverá uma "continuidade".

"Se for o Scholz, a gente tem continuidade no sentido de ter como sucessor alguém que já faz parte do governo atual e que, com isso, tem experiência no funcionamento da União Europeia", destaca Lehmann.

Já no caso de vitória de Laschet, a situação poderia "mudar um pouco", já que o atual ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália não tem tanta "experiência internacional".

"Me parece que isso na União Europeia faz diferença. Essa experiência de como a UE funciona, não só formalmente, mas informalmente. Esse contato pessoal é muito importante para conseguir fazer as coisas. Muitas vezes, o que decide o que vai acontecer dentro da UE não é negociado nas reuniões formais, mas nas conversas individuais, nos almoços, nos passeios. Se Laschet for o chanceler, essa experiência vai fazer falta", ressalta.

Para Lehmann, também favorece a liderança alemã na UE o fato de o cargo de chanceler ser bastante estável e longevo. Merkel está no poder desde 2005; antes dela, Gerhard Schröder governou de 1998 e 2005, e Helmut Kohl, de 1982 a 1998.

Outro motivo é o peso do país no bloco - a Alemanha é quem mais contribui para o orçamento comunitário -, além das eleições na França, que farão com que as atenções de Macron se concentrem no cenário doméstico.

Porém Brites pontua que, se a Alemanha não retomar esse protagonismo rapidamente, "isso vai afetar muito a capacidade do bloco de se manter ativo como está".

"Imagino que o papel de países como França, até a própria Itália, vai ser o de tentar trazer a Alemanha para dentro desse jogo, de cobrar a posição da Alemanha, independentemente de quem estiver no poder", diz o professor da FGV.

Itália 

Os analistas são unânimes, porém, em dizer que a Itália não deve assumir esse papel de liderança do bloco europeu, nem mesmo durante a transição no pós-Merkel.

Para Lehmann, a frequente troca de governos em Roma é um dos principais motivos para isso. O economista Mario Draghi é premiê desde fevereiro, mas não foi eleito para o cargo e chefia uma coalizão de união nacional formada por partidos historicamente adversários.

"Schröder, que foi o [chanceler] que menos ficou, durou sete anos. Qual primeiro-ministro italiano consegue sete anos? No momento, a Itália é comparativamente estável com sua história, e Draghi obviamente tem uma experiência interna, mas a história indica que isso não vai durar muito tempo", ressalta.

Coimbra acrescenta ainda outro fator: a falta de liderança de Draghi entre seus pares. "Ele tem mais essa característica do burocrata, não do líder. Ele é um bom burocrata, um bom negociador, mas não é alguém que tem um papel de liderança, com uma característica política mais aguçada, e por isso eu acho que a França vai conseguir assumir, porque o Macron tem essa qualidade", diz. (ANSA).
   

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